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Fato em Foco

Especialistas analisam impacto do jejum do ramadã na produtividade

Áudio 08:31
Muçulmanos rezam nas ruas de Londres no início do mês sagrado do ramadã.
Muçulmanos rezam nas ruas de Londres no início do mês sagrado do ramadã. REUTERS/Stefan Wermuth
Por: Silvano Mendes

Desde 18 de junho milhares de muçulmanos pelo mundo celebram o Ramadã, uma das datas mais importantes do Islã. Durante um mês, os praticantes ficam em jejum entre o nascer e o pôr do sol. Apesar de alguns países adaptarem as jornadas de trabalho para que os fiéis possam respeitar a tradição, o ritual tem um impacto concreto na produtividade.

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Durante um mês, os muçulmanos que praticam o ramadã passam o dia inteiro sem comer, beber, fumar ou ter relações sexuais. Os períodos de abstinência são longos, principalmente porque nesta época do ano, verão no hemisfério norte, em alguns países o sol não se põe antes das 21h.

O período do ramadã tem um impacto importante na produtividade. “Em todas as pesquisas constatamos uma baixa extremamente importante do nível de atenção e de reatividade dos profissionais em jejum. E com um nível de atenção baixo, a performance também será menor. Esse é um fenômeno fisiológico natural. Em um dos estudos realizados, chegamos a constatar um baixa entre 40% e 50% da produtividade durante o ramadã”, pondera o professor de neurociência e farmacologia da Faculdade de Medicina de Casablanca, no Marrocos, Abdelouahhab Tazi.

O jejum prolongado exige uma certa organização dos praticantes. Alguns contam com a cumplicidade dos patrões, como o garçom Mohamed Sabri Marzouk, que trabalha em uma pizzaria no centro de Paris. “Durante o ramadã, o mais difícil é nos primeiros e nos últimos dias. Mas eu não acho que seja complicado conciliar meu trabalho e o ritual, já que aqui no restaurante nós temos uma pausa, entre 15h e 18h, então eu aproveito para dormir e recuperar as forças.”

Corpo sofre com jejum prolongado

O fato de não comer durante o dia todo tem consequências diretas no organismo. “O jejum de mais de quatro horas pode ter um impacto fisiológico e provocar hipoglicemia, com uma falta de concentração de glicose no sangue”, explica a nutricionista Roseli Ueno Ninomiya, que atua em São Paulo. Segundo a especialista, os primeiros sintomas podem ser dor de cabeça, cansaço, tontura e irritabilidade.

A nutricionista explica que essa “baixa de combustível” também pode causar falta de atenção e dificuldades para trabalhar. “As atividades que exigem mais concentração, como operadores de máquinas, motoristas de táxis ou pessoas que dirigem durante muito tempo, ou até alguém que trabalha em um açougue manipulando uma faca, podem colocar em risco físico sua própria vida e a dos outros”, completa a especialista.

Pilotos em jejum não podem trabalhar

Para evitar acidentes, alguns profissionais são excluídos do jejum. “As atividades de alto risco, como pilotos de avião civil e militar, ou os condutores de grandes máquinas em canteiros de obras, são liberados. A religião permite que eles não façam jejum. Essa é uma autorização reconhecida em todos os países muçulmanos”, explica Tazi.

No entanto, o professor, que é membro da Fundação Hassan II para a pesquisa cientifica e médica sobre o ramadã e acompanhou vários estudos sobre o impacto da abstinência na vida dos muçulmanos, ressalta a importância de uma mudança da jornada de trabalho. Ele aponta o exemplo do Marrocos, onde as atividades profissionais são reduzidas em cerca de 25% durante o mês sagrado para que os fiéis possam ir para casa mais cedo. Mas Tazi lembra que mesmo se essas adaptações são comuns nos países árabes, elas ainda são marginais e totalmente informais em nações ocidentais, como a França, por exemplo, que possui uma grande população muçulmana.

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