Pergunta do referendo na Grécia é longa e complexa, diz Les Echos

Defensoras do "sim" no referendo ("nai" em grego) participam de manifestação em Atenas.
Defensoras do "sim" no referendo ("nai" em grego) participam de manifestação em Atenas. REUTERS/Christian

O imprevisível resultado do referendo de domingo na Grécia domina as manchetes dos jornais nesta sexta-feira (3). Para facilitar a compreensão das consequências da votação, a imprensa resume os principais interesses em jogo e destaca que o FMI considera, em um documento que circulou ontem, a dívida da Grécia "insustentável".

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Com a iminência da votação, a principal preocupação do diário Les Echos é com a pergunta que será submetida aos gregos na cédula. A questão é complexa: "Você aceita o projeto de acordo submetido pela Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional na reunião do Eurogrupo do dia 25 de junho de 2015, composto de duas partes e que constitui uma proposta unificada?".

O jornal considera a pergunta longa e vaga, sem um conteúdo esclarecedor que possa ajudar os gregos na escolha. Mesmo um grego que tenha seguido atentamente as últimas etapas das negociações vai ficar perdido diante da cédula, escreve o diário.

Les Echos lembra que o Conselho da Europa advertiu que, num referendo, as questões devem ser claras e objetivas, o que não é o caso na votação de domingo na Grécia. O jornal dá alguns detalhes sobre a votação: o "não" ("oxi", em grego) aparece em primeiro lugar na cédula, antes do "sim" ("nai", em grego); para ser validado, 40% dos gregos devem votar no referendo; o custo da votação foi estimado em € 110 milhões, segundo a mídia grega.

Economistas fazem análises antagônicas

O diário conservador Le Figaro questiona, em sua manchete, se é preciso ter medo da saída da Grécia da zona do euro. "Aquilo que era impensável pode estar próximo de acontecer", adverte o editorial. Dois especialistas com visões antagônicas sobre o assunto comentam as possíveis consequências.

O economista Nicolas Bouzou, da empresa de consultoria Asterès, afirma que apesar de ser pessoalmente contra a saída da Grécia do euro, o momento pode ser adequado. Ele acha que empresas e bancos europeus tiveram tempo de se preparar e estão pouco expostos a uma falência da Grécia.

Já o economista Philippe Dessertine, professor da Sorbonne e membro do Alto Conselho de Finanças Públicas francês, considera que a vitória do "não" seria um desastre para a Europa. Ele antevê uma forte desvalorização do euro, queda de investimentos no bloco e, por consequência, de crescimento. Para Dessertine, o sistema financeiro mundial ainda está fragilizado pela crise de 2008 e sofreria um novo golpe.

Europeus divididos

Libération constata que os europeus estão cansados e divididos em relação à "tragédia grega". O diário nota que os alemães querem, em sua maioria, a saída da Grécia da zona do euro. Eles nunca aceitaram o fato de que a Atenas maquiou as contas públicas para entrar no bloco e se consideram traídos pelos gregos.

Os britânicos, que serão convocados a votar num referendo sobre a permanência ou não do Reino Unido na União Europeia, podem tirar proveito do resultado na Grécia, principalmente se o "não" vencer.

Na Itália, que também fez sacrifícios para ajustar suas contas públicas, o sentimento de que a Grécia quer o tempo todo burlar as regras do jogo, e obter um novo perdão da dívida, cai mal. O premiê Matteo Renzi diz que seu governo "não acabou com as aposentadorias antecipadas dos italianos para entregá-las aos gregos".

Segundo uma pesquisa do instituto CSA, a maioria dos franceses (54%) quer a permanência da Grécia na zona do euro, relata o jornal Les Echos.

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