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Papa tem papel de mediador de conflitos na América do Sul, dizem especialistas

Áudio 05:15
O papa Francisco se reuniu a portas fechadas nesta terça-feira (7) com o presidente do Equador, Rafael Correa.
O papa Francisco se reuniu a portas fechadas nesta terça-feira (7) com o presidente do Equador, Rafael Correa. REUTERS/Stringer
Por: Daniella Franco
11 min

Depois de dois anos, o papa Francisco volta à América do Sul com o objetivo de tratar de assuntos que vêm marcando seu pontificado: inclusão e justiça social, direitos das minorias, povos indígenas, defesa do meio ambiente e dos valores da família. Para isso, escolheu os países mais pobres e com os maiores problemas sócio-econômicos da região: Equador, Bolívia e Paraguai. A maratona do líder religioso, extremamente influente na política sul-americana, inclui oito dias de viagem, 22 discursos previstos e 24 mil quilômetros a percorrer.

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No primeiro discurso de sua viagem, logo que desembarcou em Quito, no último domingo (5), o Santo Padre pediu mais inclusão social e respeito às minorias no país que passa por uma grave crise política. Ele lembrou que no Evangelho é possível encontrar "as chaves para enfrentar os desafios atuais, valorizando as diferenças, fomentando o diálogo e a participação sem exclusões, que garantirá um futuro melhor para todos".

Ao presidente equatoriano, Rafael Correa, um confesso admirador do Papa, papa Francisco disse que o governo poderá contar com o compromisso e o apoio da igreja, mas frisou a necessidade de dar atenção às populações mais vulneráveis. Ao lado do Sumo Pontífice, Correa admitiu que o grande problema da América é a "distribuição injusta das riquezas". "Pela primeira vez na história, a pobreza e a miséria de nosso continente não são consequências da falta de recursos, mas de sistemas políticos, sociais e econômicos perversos", mostrando-se aberto às sugestões do Santo Padre.

Os dois homens voltaram a se reunir nesta terça-feira (7) a portas fechadas. Uma série de encontros que, para a antropóloga Lídice Meyer Pinto Ribeiro, professora do Departamento de Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, não é surpreendente. "A influência do papa na política latino-americana é importantíssima. A escolha do Equador, que passa por uma grande revolta popular, não foi por acaso. Ele faz esse papel de mediador na resolução dos conflitos", analisa.

O forte carisma do papa, que se diz "em casa" na América do Sul, aliado à forte influência da igreja católica na região, contribuem para que os governos acolham suas propostas. "Temos que lembrar que em todo o período de colonização da América Latina, política e religião andaram de mãos dadas", ressalta a antropóloga.

Escolha do roteiro de viagens

Na sua última visita à região, em 2013, o Sumo Pontífice substituiu o demissionário Bento XVI na participação da Jornada Mundial da Juventude, no Brasil. Na época, o cenário era positivo, o país colhia os louros do crescimento econômico e se orgulhava de ser a primeira nação a receber a visita de Jorge Bergoglio. Apesar de ter dito que "Deus é brasileiro", o religioso argentino não escolheu visitar o país, apenas substituiu seu antecessor em um compromisso previsto.

Desta vez, em sua nona missão no exterior e segunda na América do Sul, o próprio papa traçou o roteiro: Equador, Bolívia e Paraguai, todos em um momento político-econômico crítico e com problemas que são prioritários na agenda do Sumo Pontífice.

Para o padre Luc Lalire, responsável do Polo América Latina da Conferência dos Bispos da França, os três países selecionados reúnem um grupo de problemáticas existentes em toda a região. "O Equador, por exemplo, passa por muitas tensões em torno da questão da exploração de seus recursos naturais, entre eles o petróleo, e do respeito à natureza. Na Bolívia, a maior parte da população é de origem indígena, um outra luta travada pelo papa Francisco. E o Paraguai, é um país esquecido, onde, depois de tantos anos de ditadura, passa por uma forte instabilidade política e uma grande dificuldade de ouvir a população guarani", analisa.

Povos indígenas

Há algumas semanas, o Vaticano divulgou a nova encíclica do papa, intitulada de "Ladauto Si – Sobre o Cuidado com a Casa Comum". No documento, o religioso trata da deterioração ecológica, segundo ele, causada pelo capitalismo e que prejudica os mais pobres, especialmente os povos indígenas.  A encíclica critica "a falta de coragem" dos governos para combater o problema contra o qual o Sumo Pontífice se compromete a lutar.

O professor Fernando Altemeyer Junior, do Departamento de Ciências da Religião da PUC-SP, não acredita que haja uma dimensão geopolítica na visita de Papa Francisco à América do Sul, mas sua missão visa sobretudo colocar em prática os compromissos do Ladauto Si e marcar uma aproximação com os povos indígenas da região. "Não creio que ele esteja voltado para os governos, mas para os povos. Dentro da teologia popular, ele se concentra na busca de uma perspectiva e de mudanças podem ser implementadas para as populações desses países fortemente marcados pela herança indígena", avalia.

Mais de um bilhão de católicos

A visita do papa também tem o objetivo de ratificar a presença da Igreja Católica na América Latina, que conta hoje com mais de 425 milhões de católicos, a região com maior número de fiéis desta confissão do mundo. No Equador, eles são 87% da população, na Bolívia, mais de 85%, e o Paraguai contabiliza 93% de católicos.

Um engajamento ressaltado no número de pessoas que participaram das duas primeiras missas que o Papa realizou durante essa visita: 800 mil em Guayaquil e 900 mil em Quito. Nesta quarta-feira (8), o Sumo Pontífice segue para a Bolívia e na sexta-feira (10), para o Paraguai, de onde volta para o Vaticano, no domingo (12).

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