Para Le Figaro, Brics ameaçam influência dos EUA e da Europa com novas instituições financeiras

Jornal Le Figaro destaca a criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) do Brics como sendo "novo desafio para o Ocidente".
Jornal Le Figaro destaca a criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) do Brics como sendo "novo desafio para o Ocidente".

As intermináveis negociações sobre a crise financeira na Grécia continuam sendo a principal manchete dos jornais desta quarta-feira (8). Mas um outro assunto internacional ganha destaque no noticiário francês: o início da VII Cúpula do Brics, em Ufá, na Rússia. O encontro é marcado pelo lançamento oficial do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), a primeira instituição financeira do grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

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O caderno de Economia do Le Figaro refere-se ao NBD como "um instrumento de influência política e financeira dos emergentes, que irá se contrapor ao FMI e ao Banco Mundial". O jornal explica que a nova instituição, com sede em Xangai, foi dotada de um capital inicial de US$ 50 bilhões, destinados ao financiamento de grandes projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável.

"É uma pedra no jardim de Washington e também da Europa, que vacila atualmente, enquanto os emergentes constroem", avalia o diário. "Em plena crise na zona do euro e num contexto de timidez geopolítica da parte de Washington, a cúpula do Brics em Ufá quer acelerar o reequilíbrio mundial em favor das potências emergentes", afirma o texto. "Na prática, o NBD oferece a Pequim, Moscou e Nova Délhi um instrumento independente da influência do velho mundo", acrescenta.

Le Figaro destaca que, paralelamente, os países do Brics vão dar os contornos finais ao Arranjo Contingente de Reservas, "outro instrumento financeiro que poderá ser utilizado pelo grupo em situações de crise cambial ou de tempestade nos mercados mundiais". Esse fundo de reservas entrará em vigor no próximo dia 30 de julho. A maior contribuição virá da China, com US$ 41,5 bilhões, explica Le Figaro.

China tem ambições globais

Le Figaro nota que a China vai mandar nas instituições financeiras do Brics e que as ambições do presidente chinês, Xi Jinping, vão muito além da esfera dos emergentes. Pequim acaba de abrir um outro banco, o Banco Asiático de Investimentos em Infraestruturas, cujos principais sócios são países asiáticos e europeus. "Essa instituição oferece ao governo chinês uma vitrine internacional para suas ambições políticas muito maior do que o banco do Brics", nota Le Figaro. Brasil, Rússia, Índia e África do Sul, na verdade, tomam "uma carona" na notoriedade do império financeiro mundial que a China constrói passo a passo, estima o jornal.

Brasil: economia doente

Le Figaro trata o Brasil como "o grande doente do grupo", mais enfermo do que a Rússia no clube dos cinco emergentes. "O gigante sul-americano está preso na armadilha da inflação alta e da recessão." O Brasil não soube aproveitar o boom do mercado de matérias primas e agora mergulha num quadro de recessão e de desemprego que ameaça a ascensão social de milhões de brasileiros, escreve o diário.

Cúpula do Brics é vitrine para Putin

O Le Monde considera que a cúpula de Ufá será extremamente política, principalmente para Vladimir Putin. O líder russo poderá demonstrar que não sofre de isolamento internacional em virtude das sanções impostas pelos ocidentais depois da anexação da Crimeia, no ano passado.

O presidente russo trava uma queda-de-braço contra os europeus e os Estados Unidos por causa da Ucrânia, e presidirá quase simultaneamente a cúpula da Organização da Cooperação de Xangai, que reúne países da Ásia central. A presidente Dilma Rousseff foi, inclusive, convidada para participar de um jantar com líderes dessa organização. Le Monde estima que todas as alianças que reforcem o poder e a influência internacional do presidente russo, e incomodem europeus e americanos, são ocasiões interessantes para Putin.

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