Linha Direta

Narcotraficante mexicano montou altar de São Judas Tadeu para fuga

Áudio 06:04
"El Chapo" escapou por um túnel de 1 km e meio, a 10 metros de profundidade de uma prisão com circuito de vigilância ativo 24h/24.
"El Chapo" escapou por um túnel de 1 km e meio, a 10 metros de profundidade de uma prisão com circuito de vigilância ativo 24h/24. REUTERS/PGR

Enquanto os mexicanos tentam digerir a notícia da fuga espetacular nesse fim de semana do narcotraficante Joquim Guzmán, conhecido como El Chapo , o presidente Enrique Peña Nieto participou nesta terça-feira (14), com todas as honras, do desfile militar do 14 de julho em Paris, a festa nacional francesa. El Chapo, líder do cartel de Sinaloa e o preso mais perigoso do país, fez o que parecia impossível: escapar de um presídio de segurança máxima pela segunda vez. No rastro do narcotraficante, um túnel de mais de 1 km de extensão e até um altar para São Judas Tadeu. A fuga é um duro golpe para o governo de Peña Nieto, que mal se equilibra.

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 Fernanda Brambilla, correspondente da RFI no México

A sociedade mexicana está absolutamente incrédula e quer respostas, porque as perguntas são muitas. Na noite desta segunda-feira (13), o secretário de governo, Miguel Osorio Chong, foi bombardeado por jornalistas em uma coletiva na Cidade do México em que admitiu que El Chapo só escapou devido a corrupção no sistema carcerário. Chong nega que haja concidência entre a fuga e o fato do presidente e toda a alta cúpula do governo mexicano estarem fora do país, mas ninguém acredita diante da evidência de que qualquer reação nessas condições seria mais demorada por falta de comando.
Para se ter uma ideia da gravidade da situação, El Chapo Guzmán é considerado responsável pelo transporte de toda cocaína que vai da Colômbia aos Estados Unidos, e de coordenar junto ao cartel de Medellín, a maior organização de narcotráfico do continente. O Cartel de Sinaloa está presente em mais de 10 países. Desde o início dos anos 2000, El Chapo é o segundo fugitivo mais procurado no mundo, depois de Osama bin Laden.

Detalhes da fuga

Os detalhes são dignos de filme de Hollywood. El Chapo escapou de uma prisão com circuito de vigilância ativo 24h por dia por um túnel de 1 km e meio, a 10 metros de profundidade, com luz, cabos, tubos de PVC, tanques de oxigênio, lâmpadas e um sistema de tração com uma moto para a retirada da terra. E o detalhe: havia inclusive montado um altar para São Judas Tadeu, santo das causas impossíveis. O narcotraficante usava até mesmo uma pulseira rastreadora.

Especula-se que o trabalho nesse túnel começou no ano passado. Esta é a segunda vez que El Chapo escapa de uma prisão mexicana de segurança máxima. Em 2001, época do presidente Vicente Fox, a fuga se deu por um carrinho de lavanderia. Entre os especialistas em criminalística é muito comentada a habilidade do Chapo de fazer túneis. Mas é difícil de acreditar que uma operação desse nível foi feita sem uma grande ajuda das autoridades.

REUTERS/PGR - Attorney General's Office/Handout via Reuters ATTE

Redes sociais

Nas redes sociais, o clima cinematográfico continua. Um usuário do twitter, que se diz filho do Chapo, postou, há uma semana: "Tudo chega para aquele que sabe esperar". Uma mensagem no mínimo profética. E no domingo (12), dia seguinte à fuga espetacular, um perfil de alguém que se diz o próprio El Chapo Guzmán, com mais de 200 mil seguidores, tuítou: "Nessa vida, quem não arrisca, não ganha."

Reação do presidencial

Enrique Peña Nieto fez um comunicado angustiado em Paris, em que lamentou profundamente a situação. Mas é claro que a mídia mexicana se lembrou de quando, no ano passado, Peña Nieto exibiu orgulhoso a captura do narcotraficante e assegurou em rede nacional, que El Chapo não voltaria a fugir. Uma nova fuga foi considerada na época imperdoável para o México pelo presidente.

Hoje, 14 de julho, a França recebe o presidente mexicano com honrarias máximas para sua celebração nacional. Esse convite, aliás, foi muito mal visto pela esquerda francesa, que dirigiu duras críticas ao presidente François Hollande. Parece uma piada de mau gosto receber um líder que tem ignorado os direitos humanos, para ser parte de uma festa tão importante. Nem o México, nem a França, se esquecem dos 43 estudantes rurais que foram assassinados por policiais em Guerrero, em setembro passado.

Importância da reaproximação entre os dois países

Apesar de este ser o pior momento para o Peña Nieto fazer uso de sua diplomacia, essa visita do presidente mexicano é uma resposta à viagem que Hollande fez ao México no ano passado. Para a França, vale a pena aguentar as críticas dos políticos que são contra a presença de Peña Nieto no país em troca de acordos comerciais que sejam favoráveis à França. Nessa viagem, que levou uma comitiva de cerca de 400 pessoas, mais de 50 acordos devem ser assinados, além da compra de aviões da europeia Airbus por parte do governo mexicano.

No campo das relações exteriores, os dois países vinham se estranhando depois do caso Florence Cassez. A francesa foi acusada de participar de um grupo de sequestradores e condenada a 60 anos de prisão no México. Na época, o presidente francês Nicolás Sarkozy pediu sua extradição, mas Felipe Calderón não cedeu. Somente em 2013, ela foi libertada, teve a pena anulada e pôde regressar à França. Hoje, inclusive Cassez move um processo de danos morais contra o ex-presidente mexicano.

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