Imprensa francesa discute se governo deve revelar detalhes da luta contra o terrorismo

Capa do jornal Libération desta sexta-feira, dia 17 de julho.
Capa do jornal Libération desta sexta-feira, dia 17 de julho. LIberation.fr

Com o desmantelamento de um grupo de jovens jihadistas nessa semana, que planejava um atentado para marcar o aniversário de um ano do ataque contra a redação do Charlie Hebdo, os jornais franceses desta sexta-feira (17) tratam sobre a segurança nacional. Parte da imprensa defende que a comunicação do presidente François Hollande sobre o caso foi exagerada, mas alguns jornais acreditam que o Eliseu quer apenas tranquilizar a população e garantir que os franceses estão seguros.

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O diário progressista Libération nota que essa é a primeira vez, desde que François Hollande assumiu o poder, que o Eliseu comunica sobre um projeto de um atentado terrorista contra a França. "Depois dos massacres de janeiro, a estratégia mudou", escreve o Libé, lembrando os ataques dos irmãos Kouachi contra a redação do Charlie Hebdo e de Amédy Coulibaly contra o supermercado judeu Hyper Cacher. Uma estratégia, aliás, extremamente criticada por representantes da direita e da extrema-direita francesas que denunciam uma "comunicação exagerada" de Hollande.

O Libé ressalta que não é por falta de ação que o governo socialista não revelava até o momento todo o esforço do Estado contra o extremismo. Desde 2013, a polícia realizou 326 abordagens, 188 aberturas de inquéritos e 126 prisões de suspostos jihadistas em solo nacional. "O que mudou desde então?", questiona o jornal. Desde os atentados do início deste ano, quando o próprio Hollande definiu a ameaça terrorista como "real, verdadeira e inédita", o Eliseu tem a necessidade de confortar os franceses e ressaltar que eles estão sob a proteção do Estado, destaca Libération.

Tentativa de conquistar os franceses

Sempre crítico ao governo, o jornal Le Figaro diz que a nova estratégia de comunicar sobre o terrorismo é uma tentativa de Hollande de aumentar sua popularidade. "A tentação do presidente francês de se servir da luta antiterrorista para conquistar a opinião pública é grande", escreve o diário de direita em seu editorial.

"Imaginem qual seria a reação dos socialistas, na época do governo do ex-presidente Nicolas Sarkozy, se ele comentasse cada ação da polícia", alfineta Le Figaro. "Jogo midiático e exagero" é como o jornal classifica a atitude de Hollande. E conclui: "Se o presidente quiser preservar a unidade nacional, deve utilizar duas estratégias que nunca criticaremos: reserva e discrição".

"Ato apressado"

O jornal Aujourd'hui en France também trata desse assunto. O diário obteve uma entrevista com uma fonte do Eliseu que garantiu que o anúncio sobre o desmantelamento do grupo não deveria ter sido feito até hoje. O projeto de atentado foi revelado na noite de quarta-feira (15)  pelo ministro francês do Interior, Bernard Cazeneuve, "em um ato apressado", diz o jornal.

Segundo a fonte entrevistada pelo Aujourd'hui en France, Hollande teria a intenção de ilustrar de maneira mais concreta o discurso que realizou na terça (14), dia da Festa Nacional, quando declarou que, todas as semanas, o governo impede que atos terroristas aconteçam na França. Ao que parece, a prisão dos quatro jovens jihadistas caiu como uma luva.

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