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Grécia teve que engolir remédio amargo de austeridade e reformas

Áudio 04:50
No parlamento, o Primeiro Ministro grego garatiu que o acordo feito com os credores era a única solução ao caos ou seria a saída da Zona do Euro.
No parlamento, o Primeiro Ministro grego garatiu que o acordo feito com os credores era a única solução ao caos ou seria a saída da Zona do Euro. REUTERS/Alkis Konstantinidis

A Grécia não foi expulsa do euro e já começou a implementar algumas reformas e a pagar o que deve aos credores. Até a durona da chanceler Angela Merkel declarou que está no hora de acelerar as negociações para aliviar a dívida grega. E, melhor ainda para o establishment europeu – de esquerda e de direita –, nada disso pode ser visto como uma vitória do Syriza, o partido de esquerda radical do primeiro-ministro grego Alexis Tsipras. O próprio não teve outro jeito senão engolir um remédio amargo de austeridade e reformas, com a Grécia praticamente sob tutela da União Europeia.

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Tudo parece caminhar numa boa direção. Só que o programa de reformas imposto aos gregos pode até dar alguns bons resultados, mas ninguém acredita que tenha condições de ser completamente implementado. O país está num poço tão fundo e há tanto tempo que mesmo que toda a dívida fosse perdoada, a Grécia não tem uma economia bastante diversificada e competitiva para sair desse buraco.

Não será com turismo, serviços marítimos e produção de azeite que o país vai se erguer. E na fase atual não há investidor estrangeiro que tenha confiança e vontade de arriscar dinheiro na economia ou nas obrigações do Tesouro gregas. Muita gente já vem vaticinando que a tragédia grega vai recomeçar daqui há alguns meses. E se o crescimento do Velho Continente continuar pífio, outros países europeus também super-endividados podem viver tragédias similares.

Feridas e cicatrizes

A Europa conseguiu evitar uma baita crise, mas a solução imposta à Grécia abriu feridas e deixou cicatrizes. Ficou claro que ser membro do euro não é um status irreversível. Quem não seguir o figurino pode ser cuspido ou ter de entregar boa parte da própria soberania. Nada disso é novo, só que a Grécia tornou essa evidência mais explícita.

Desde o final dos anos 1980, antes da criação do euro, um documento preparado pela Comissão presidida por Jacques Delors havia demonstrado que uma moeda comum sem um governo comum – isto é uma Europa muito mais federal – ia bater com a cara na parede um dia. Hoje, o consenso pós-Grécia é que não dá mais para protelar o estabelecimento de uma “governança” econômica coletiva.

O problema é que isso bate de frente com o medo de cada Estado europeu de perder poder em favor de instituições europeias supranacionais. É realmente muito difícil diferenciar governo “econômico” de governo “federal”. Só que continuar na mesma, significa simplesmente aceitar a hegemonia econômica da potência mais bem sucedida – a Alemanha – que hoje possui, de fato – e à sua revelia – um direito de veto sobre a política econômica dos outros Estados-membros. A escolha portanto é entre perder soberania de maneira organizada e negociada ou perder soberania frente ao poder do mais forte.

O euro nasce capenga

Não é por acaso que o presidente francês, François Hollande, saiu de vento em popa em favor de um novo “governo econômico” europeu. Logo depois da queda do Muro de Berlim, o seu mentor socialista, o então presidente François Mitterrand havia sido o campeão da criação do euro para “coletivizar” e acabar assim com o marco alemão, símbolo e instrumento de poder de uma Alemanha então em vias de reunificação. Mitterrand queria que o resto da Europa pudesse por as mãos no marco, mas não queria saber de nenhum tipo de federalismo: o euro nasceu capenga.

Hollande sabe que hoje, a França, com seus imensos problemas econômicos, pode um dia estar numa posição parecida com a da Grécia. E que aí vai ter que se submeter as regras ditadas por Berlim, ou então implodir toda a construção europeia – o que seria um suicídio coletivo. Melhor, portanto, tentar prevenir essa situação de crise aguda graças a uma maior integração das políticas econômicas, sociais e fiscais francesas e alemães.

O problema é que um governo econômico europeu significa, queira ou não, partilhar soberania e partilhar os riscos. A França nunca quis dividir soberania e a Alemanha sempre rejeitou compartilhar os riscos. A Grécia abriu um caminho, mas é ladeira acima.

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