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França

Enquanto igrejas são abandonadas, muçulmanos sofrem com a falta de mesquitas na França

Áudio 06:44
Igreja de Sainta Tereza de Léojac, em Moutauban, no sudoeste, é uma das muitas propriedades da Igreja Católica na França que foram abandonadas.
Igreja de Sainta Tereza de Léojac, em Moutauban, no sudoeste, é uma das muitas propriedades da Igreja Católica na França que foram abandonadas. patrimoines.midipyrenees.fr
Por: Daniella Franco
12 min

A polêmica sobre a utilização de igrejas católicas como locais de culto para muçulmanos trouxe à tona a discussão sobre a falta de espaços para os fiéis do islamismo na França. O Conselho Francês do Culto Muçulmano (CFCM) calcula que há somente 2,5 mil locais destinados à prática da religião islâmica no país, insuficientes para acolher cerca de 6 milhões fiéis da confissão. As autoridades muçulmanas estimam que há uma carência de cerca de 2 mil locais de culto.

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Após uma declaração de um dos principais líderes muçulmanos da França, Dalil Boubakeur, que disse que igrejas católicas abandonadas poderiam ser utilizadas para suprir a carência de espaços de culto islâmico na França, a revista conservadora Valeurs Actuelles (Valores Atuais, em português) criou uma petição na semana passada, chamada de “Não toque na minha igreja”. A iniciativa é apoiada por representantes da direita francesa, entre eles, o ex-presidente, Nicolas Sarkozy.

Devido à forte repercussão de sua declaração, em entrevista concedida à rário Europe 1, Boubakeur se retratou no dia seguinte e garantiu que não há atualmente nenhum projeto de transformação de igrejas católicas em locais de culto islâmico. Mesmo com o pedido de desculpas do líder muçulmano, mais de 25 mil assinaturas foram recolhidas na petição da revista "para salvar as igrejas", diz o autor da iniciativa, o escritor francês e cronista da Valleurs Actuelles, Denis Tillinac.

Enquanto os conservadores inflamam as relações com os muçulmanos para evitar a reutilização dos estabelecimentos católicos abandonados, 349 igrejas em todo o território francês estão em estado de calamidade. Nos últimos 15 anos, 27 foram demolidas. No início do mês, o Observatório do Patrimônio Religioso da França alertou que o estado de 85 igrejas católicas é preocupante só em Paris.

Igrejas são para os católicos

O secretário-geral do CFCM e presidente do Observatório contra a Islamofobia, Abdallah Zekri, descarta qualquer possibilidade de que locais religiosos católicos sejam utilizados por muçulmanos. "Pessoalmente, não sou a favor que ‘toquemos’ nas igrejas. Elas são para os católicos, assim como as mesquitas são para os muçulmanos e as sinagogas para os judeus. Essa polêmica só aumenta a estigmatização do Islã", protesta.

Zekri lembra que, como a França é um país laico, os muçulmanos ou fiéis de qualquer outra religião não podem utilizar espaços públicos para cultos. Segundo ele, os políticos franceses, sejam de direita ou esquerda, também são contra a contribuição financeira de países muçulmanos na construção de espaços de culto islâmico. O que deixa as autoridades e o fiéis sem alternativa, diz ele.

De acordo com dados do CFCM, faltam cerca de 2 mil lugares de culto para acolher todos os muçulmanos do território francês. "Não estou falando somente de mesquitas. Nossa principal preocupação é de oferecer salas para oração. Aliás, algumas cidades não têm nem mesmo mesquitas, como Marselha, por exemplo, que tem uma comunidade muçulmana importante", salienta.

Projeto inexistente, petição "inútil"

A iniciativa dos conservadores não revolta somente os muçulmanos franceses, como também líderes católicos do país. É o caso do bispo Michel Dubost, da diocese de Evry-Corbeil-Essones, na região parisiense. "Acho que a única forma de defender as igrejas é frequentá-las. Espero que todas as pessoas que assinam a petição as frequentem", ironiza.

Dubost classifica o documento como "inoportuno": "Ele não tem razão de existir. Até agora não conheço nenhum lugar da França onde vamos vender ou doar as igrejas a mesquitas. Além disso, essa petição esquece os valores fundamentais da república francesa: liberdade, igualdade, fraternidade. Hoje, é preciso lutar mais pelas relações sociais do que nos colocar uns contra os outros com iniciativas inúteis como essa", provoca.

Rivalidade entre católicos e muçulmanos

A antropóloga Lídice Meyer Pinto Ribeiro, professora do Departamento de Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, ressalta que a questão é muito mais profunda do que a polêmica. Ela explica que a rivalidade entre católicos e muçulmanos na França data da época das Cruzadas.

"Utilizar um espaço que era sagrado, como uma igreja abandonada, para uma prática sacramentada, como o culto muçulmano, seria até interessante. Porém é preciso lembrar que a França tem todo um histórico de envolvimento nas Cruzadas, onde propriedades católicas eram destruídas para serem substituídas por mesquitas", diz.

A professora não descarta que a escalada das tensões possa resultar em um conflito religioso. "Movimentos como o grupo Estado Islâmico, que não representam os muçulmanos, mas que, em nome do Islã são agressivos até mesmo contra outras divisões da confissão, mostram que essas violências podem evoluir para uma guerra interna entre os muçulmanos", analisa.

Segundo ela, esse conflito poderia acontecer até mesmo entre muçulmanos e outras religiões que se sintam atingidas. "É o caso dos católicos franceses, que temem que o extremismo dos jihadistas esteja relacionado à religião islâmica e sua expansão", conclui.

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