Linha Direta

UE avalia criação de zona-tampão na fronteira entre Turquia e Síria

Áudio 06:27
Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, participa da reunião do Conselho da UE em Bruxelas, Bélgica 05 de outubro de 2015.
Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, participa da reunião do Conselho da UE em Bruxelas, Bélgica 05 de outubro de 2015. REUTERS/Francois Lenoir

Nos últimos anos, questões como direitos humanos, liberdade de expressão e o sistema judicial na Turquia esfriaram as relações entre Bruxelas e o presidente turco Recep Tayyip Erdogan. Mas agora, a crise dos refugiados reaproximou a União Europeia e Turquia, o país que abriga o maior número de refugiados sírios. Em Bruxelas, para uma visita oficial de dois dias, Erdogan se reuniu com autoridades europeias e falou sobre suas condições para ajudar o bloco.

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Letícia Fonseca, correspondente da RFI, em Bruxelas,

A ajuda da Turquia é realmente fundamental neste momento. Agora mais do que nunca. É importante porque é a partir do litoral turco que a cada dia milhares de refugiados embarcam para as ilhas gregas. Uma vez no continente, eles seguem para os Balcãs até a Hungria e Croácia, ou vão para o Norte da Europa, principalmente para a Alemanha, em busca de asilo.

Segundo a Comissão Europeia e o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), a Turquia recebeu cerca 2 milhões de refugiados sírios nos últimos quatro anos. É, sem dúvida, o país que abriga o maior número de refugiados sírios.

E a União Europeia quer que o governo turco reforce o controle de suas fronteiras para conter este fluxo de refugiados e migrantes para a Europa. Vale lembrar que durante décadas a Turquia tem visto as portas fechadas para a adesão do país ao bloco europeu. Neste momento, a posição de negociação de Erdogan é bem forte.

Turquia pede ajuda conter os refugiados sírios

Os líderes europeus prometeram € 2 bilhões à Turquia para ajuda humanitária. Em troca, Erdogan quer a suspensão dos vistos para a entrada de cidadãos turcos na Europa e o apoio contra os curdos, que há décadas contestam o poder de Ancara. Erdogan não pretende facilitar a vida dos europeus. Na segunda-feira, em Bruxelas, o presidente turco expôs suas condições.

Entre as exigências, estão o apoio da UE à guerra que a Turquia está envolvida contra os supostos terroristas – sejam eles do grupo Estado Islâmico ou os curdos que têm combatido as forças jihadistas. A menos de um mês das eleições legislativas na Turquia, o partido de Erdogan procura recuperar a maioria absoluta incitando o sentimento nacionalista anticurdo. Outra condição é o apoio dos europeus na construção de uma zona-tampão na fronteira com a Síria.

Bruxelas avalia proposta de zona-tampão

Para proteger a fronteira e o país do grupo Estado Islâmico, a Turquia defende a criação de uma zona-tampão em torno de Kobani, cidade no norte da Síria. Mas para se criar esta área segura, seria também preciso uma zona de exclusão aérea – no fly-zone – algo cada vez mais difícil agora, pois com os bombardeios aéreos da coligação internacional liderada pelos Estados Unidos contra o grupo Estado Islâmico, se juntaram os ataques dos russos e os do governo sírio de Bashar al-Assad.

Além disso, há sérias dúvidas sobre quais são as verdadeiras intenções turcas em construir uma zona-tampão. Bruxelas não vê o projeto com bons olhos. Mesmo assim, o presidente do Conselho Europeu afirmou que a União Europeia está pronta para discutir a idéia.

O governo turco argumenta que a zona protegida garantiria a integridade de seu território e frearia o fluxo de refugiados vindos da Síria. Já os curdos – grupo étnico que reivindica a criação de um território entre a Síria, Turquia e Iraque – acusam Ancara de tentar enfraquecer a presença da etnia na região.

O grande dilema é que para o Ocidente, as milícias curdas na Síria são aliadas importantes na luta contra o Estado Islâmico. Enquanto para o governo turco, elas não passam de uma organização terrorista que se uniu ao PKK – Partido dos Trabalhadores do Curdistão – com quem a Turquia reacendeu uma guerra que já dura 40 anos.

 

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