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O Mundo Agora

Crise dos refugiados pode levar Europa a agir militarmente

Áudio 04:57
Uma grande maioria dos refugiados tentam chegar na Alemanha, eleita como eldorado após a decisão da chanceler Angela Merkel de acolher 800 mil migrantes.
Uma grande maioria dos refugiados tentam chegar na Alemanha, eleita como eldorado após a decisão da chanceler Angela Merkel de acolher 800 mil migrantes. REUTERS/Dado Ruvic
Por: Alfredo Valladão
9 min

A chanceler alemã, Angela Merkel, está começando a pagar caro a sua posição generosa a favor dos refugiados que se amontoam nas fronteiras da Europa. A tentativa de assassinato da candidata à prefeitura de Colônia por um racista confesso, e os ataques incendiários contra refúgios para imigrantes, demonstram que até na Alemanha a rejeição vem crescendo. O grupo Pegida – ultranacionalista e xenófobo – estava às moscas. Hoje já se sente bastante forte para convocar uma manifestação de massas na cidade de Dresden.

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Claro, esses atos de intolerância são minoritários. Quando Merkel anunciou que estava disposta a acolher 800.000 refugiados, houve uma imensa mobilização para recebê-los. E a candidata à prefeita esfaqueada, também favorável à vinda dos refugiados, foi eleita com maioria absoluta no primeiro turno. Mas não dá para tapar o sol com peneira: a chanceler está sendo criticada dentro do seu próprio partido e por vários dirigentes de países vizinhos membros da União Europeia.

Merkel tem motivos de sobra para sentir compaixão por pessoas que tentam escapar de guerras e regimes autoritários. Filha de um pastor protestante morando na velha Alemanha do Leste comunista, ela entende perfeitamente esse anseio de fugir para a paz e a liberdade. Só que o mundo não está para angelismos.

Prometer que a Alemanha, mesmo sendo um dos países mais ricos do mundo e precisando de imigrantes, vai abrir as portas para quase um milhão de pessoas, transformou em realidade os sonhos de populações inteiras desamparadas no Oriente Médio e em alguns países africanos. Uma esperança que veio alimentar ainda mais a enxurrada de migrantes para a Europa com uma ideia fixa: alcançar o Eldorado alemão.

É claro que os Europeus mais ou menos xenófobos estão chorando de barriga cheia. A grande maioria dos refugiados africanos, sírios ou afegãos estão acampados, em condições deploráveis, nos Estados vizinhos bem mais pobres do que a próspera e democrática Europa. A Turquia administra dois milhões de refugiados sírios e a Jordânia mais de um milhão. Mas não há dúvida de que o problema é politicamente explosivo.

Alguns países do Leste membros da União Europeia, com a Hungria na frente, não querem saber de acolher refugiados e estão construindo muros nas fronteiras. Tirando a Suécia, que sempre foi mais aberta, os outros países da Europa ocidental só aceitam os fugitivos a conta-gotas e mesmo assim enfrentam pressões e agressões de seus movimentos de extrema-direita domésticos cada vez mais de vento em popa. As últimas eleições legislativas na Suíça, consagraram o avanço espetacular de um partido anti-imigrantes e anti-europeu.

E até na Alemanha, o parlamento decidiu adotar regras mais restritivas para a entrada de novos migrantes. É puro veneno político ameaçando os equilíbrios políticos de vários países europeus e a própria coesão da União.

Os principais líderes europeus estão perfeitamente conscientes do perigo. Daí a decisão coletiva, empurrada por Angela Merkel, de definir uma distribuição do fluxo de refugiados entre todos os Estados membros. Daí também o projeto de reforçar drasticamente os controles nas fronteiras externas da União e convencer os países periféricos, como a Turquia, de fazer o trabalho sujo de impedir a passagem dos refugiados.

A chanceler alemã que sempre foi contra a entrada da Turquia na União Europeia, agora foi conversar com Ancara prometendo retomar e facilitar as negociações de adesão. Claro, isso não basta. Para estancar a maré de refugiados, a única solução é resolver o problema na fonte. Isto é: uma ajuda realmente eficiente ao desenvolvimento e à construção de instituições democráticas nos países de origem.

E também, por vezes, intervenções militares necessárias para restabelecer e manter a paz. Frente ao desafio migratório e às pressões e agressões russas nas suas fronteiras orientais, a Europa e sobretudo a Alemanha, não podem mais adiar um debate sério sobre o seu “hard-power” e sua utilização.

Está na cara que os Estados Unidos não estão mais a fim de mandar a cavalaria cada vez que europeus estão em apuros. A hora do “ou vai ou racha” está chegando rapidamente.
 

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