"Todos precisam de Bashar al-Assad", afirma Le Figaro

Os chefes da diplomacia americano e russo, John Kerry (esquerda) e Serguei Lavrov, negociam em Viena.
Os chefes da diplomacia americano e russo, John Kerry (esquerda) e Serguei Lavrov, negociam em Viena. REUTERS/Leonhard Foeger

Dois assuntos internacionais recebem destaque na imprensa francesa nesta sexta-feira (30): a reunião que deve definir o futuro do regime de Bashar al-Assad na Síria e as eleições legislativas antecipadas de domingo na Turquia. O diário Le Figaro dedica sua manchete ao encontro de 17 países envolvidos no conflito sírio, que acontece em Viena, na Áustria.

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"As grandes potências negociam o futuro de Bashar al-Assad", afirma o diário conservador Le Figaro em sua manchete. A novidade, depois de 4 anos de guerra, é que pela primeira vez o Irã, grande aliado do governo de Damasco, participa das negociações.

Segundo Le Figaro, o principal obstáculo a uma solução política do conflito sírio é o destino de Assad. "Rússia e Irã defendem a permanência do presidente alauíta no poder, enquanto as capitais ocidentais e seus aliados sunitas preferem programar a saída de Assad", escreve o jornal. "Mas chega um momento em que a diplomacia não pode só lançar ideias no ar e deve apresentar propostas concretas sobre o que seria uma transição possível na Síria", enfatiza o diário.

Em seu editorial, Le Figaro explica que, na prática, todos precisam de Assad. O fim do regime poderia levar a uma desintegração territorial da Síria que ninguém deseja. As divergências de interesses no conflito sírio não facilitam as coisas, mas mesmo atuando em campos opostos Rússia, Estados Unidos, Irã e Arábia Saudita concordam em dois pontos: preservar a integridade territorial da Síria e fomentar o diálogo político na região.

O jornal francês critica a falta de firmeza do presidente americano, Barack Obama, "diante de parceiros pouco sólidos" como o Irã e a Arábia Saudita. Na verdade, Le Figaro torce para que o presidente russo, Vladimir Putin, tenha o bom senso de "costurar" uma união das forças sírias contra os extremistas do grupo Estado Islâmico.

É interessante notar que Le Figaro coloca a França marginalizada nos debates, sem capacidade de influência. Isto porque desde o início do conflito, a diplomacia francesa defendeu de maneira intransigente a saída de Assad e também a oposição moderada, hoje alvo dos bombardeios russos na Síria.

Eleições na Turquia

As eleições antecipadas de domingo na Turquia também recebem comentários na imprensa. O diário econômico Les Echos considera que o AKP, partido do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, terá dificuldades para reconquistar a maioria no Parlamento nas eleições de domingo, mas deve emergir das urnas como o partido com a maior bancada na casa. Isso criará as condições para o AKP fechar um acordo com os nacionalistas ou até com seu rival histórico, o CHP, segundo Les Echos.

Le Figaro estima que duas Turquias se enfrentam nessas eleições legislativas. Uma Turquia identificada com o partido islâmico conservador AKP e outra liberal e laica, representada pelo partido pró-curdo HDP, que se transformou no principal adversário do presidente Erdogan. O carismático líder do HDP, Selahattin Demirtas, um advogado de 42 anos, emergiu no cenário político turco como um guardião da democracia, diante do discurso moralizador e autoritário de Erdogan.

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