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Meio Ambiente

Impacto ambiental de desastre em Minas Gerais vai durar décadas

Áudio 04:33
08/11/2015- Mariana, MG- Brasil-   Após o rompimento de duas barragens na última quinta-feira (5), moradores voltam ao vilarejo para para auxiliar bombeiros e homens da Defesa Civil nas busca.
08/11/2015- Mariana, MG- Brasil- Após o rompimento de duas barragens na última quinta-feira (5), moradores voltam ao vilarejo para para auxiliar bombeiros e homens da Defesa Civil nas busca. Antonio Cruz/ Agência Brasil
Por: Lúcia Müzell

Faz uma semana que duas barragens se romperam no distrito de Bento Rodrigues e a lama que escorre pela região central de Minas Gerais só avança: já atingiu o Rio Doce e deve seguir até o oceano Atlântico, pelo Espírito Santo. No caminho, fica um rastro de destruição, de uma magnitude ainda difícil de mensurar.

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Especialistas advertem que, além das perdas humanas e materiais, o impacto ambiental será a consequência mais grave do acidente com a mineradora Samarco, controlada pela Vale e a BHP. A fauna e a flora não param de morrer sufocados pela lama, que pode conter metais poluentes. A empresa afirma que não havia resíduos tóxicos na água despejada com o rompimento. Até agora, já foi confirmada a presença de minério de ferro, mas a existência de outros materiais, como zinco, cobre e arsênio, não está descartada.

A professora Andrea Zhouri, coordenadora do Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais (Gesta) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), está estarrecida com o descaso da empresa e das autoridades estaduais e federais em relação à tragédia. Ela ressalta que, até agora, a presidente Dilma Rousseff ainda não visitou a região, enquanto o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, chegou a dar uma coletiva de imprensa dentro da sede da mineradora. Na ocasião, ele minimizou a responsabilidade da Samarco pela catástrofe.

“Nós estamos recebendo os resultados parciais de análises, que comprovam a elevação do nível de ferro, manganês e outros metais pesados. É uma mistura de lama, água e dejetos parados, portanto há também decomposição orgânica e de outros materiais”, afirma a professora. “Não é saudável, não é uma lama limpa, inerte, como eles dizem. As pessoas estão reclamando muito do cheiro de ácido, de soda cáustica.”

Solo pode ficar infértil

As lacunas ainda são muitas, mas uma constatação é certa: a região vai levar décadas para se recuperar do rompimento das barragens. Ainda que a lama contenha apenas ferro, os resquícios do metal já são suficientes para empobrecer o solo.

“Essa terra fica imprópria para a agricultura. É uma lama que contamina os rios e os cursos d’água, de forma que a população não poderá retomar a vida naqueles terrenos”, destaca Zhouri. “A lama torna a terra infértil.”

O geólogo Allaoua Saadi, professor do departamento de Geografia da UFMG, avalia como pouco prováveis as chances de que os rejeitos sejam tóxicos. Os dejetos são resultado da lavagem do minério de ferro, feita com água. Mas ele explica que, nas regiões atingidas, o solo jamais vai voltar a ser o mesmo.

“Se, para alguns, recuperação significa voltar ao estado inicial, é impossível. Mas se recuperação significa a regeneração de um novo ambiente vegetal, é possível”, diz o geólogo. “Temos até florestas em cima de formações xerófilas móveis, como a que vai se formar.”

Estancar o vazamento é prioridade

Saadi observa que a maior interessada em cessar os danos é a própria Samarco, que se desvalorizou 6% na bolsa e tem contratos de exportação a cumprir. O especialista afirma que a principal medida para estancar o problema seria a companhia transportar imediatamente o restante dos rejeitos para outras minas da Vale instaladas na região.

“Quanto mais em aberto continuar a situação, mais poluição, mais custos e ações judiciais ela vai gerar. É de interesse fundamental e urgentíssimo a empresa trabalhar no estancamento dos danos gerados nas barragens e na recuperação das áreas mais próximas”, frisa.

Em um cenário ideal, a lama deveria ser retirada do solo e do entorno dos rios e afluentes. No entanto, além de custos exorbitantes, a operação é perigosa: mesmo depois de endurecer na superfície, a lama vai permanecer argilosa por baixo, durante um período impossível de prever. O trabalho seria arriscado para os operários e, por isso, não deve começar tão cedo.
 

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