Medidas de Hollande convencem a imprensa, mas enfrentam resistência político-partidária

François Hollande discursa no Palácio de Versalhes, local de reunião do Congresso francês.
François Hollande discursa no Palácio de Versalhes, local de reunião do Congresso francês. REUTERS/Philippe Wojazer

Os jornais desta terça-feira (17) analisam o discurso do presidente francês, François Hollande, diante do Congresso reunido ontem (16) em Versalhes. Hollande anunciou uma série de medidas para reforçar a segurança no país, após os atentados de sexta-feira (13), e propôs respostas ao "ato de guerra" do grupo extremista Estado Islâmico. A França intensificou as operações militares na Síria. Nesta madrugada, pela segunda vez depois dos ataques, aviões de caça franceses bombardearam a cidade de Raqqa, considerada a capital do grupo sunita ultrarradical na Síria.

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Em Versalhes, François Hollande pediu o prolongamento do estado de emergência por três meses e defendeu uma reforma constitucional para modernizar os poderes ao Estado no combate ao terrorismo. No plano internacional, solicitou uma reunião do Conselho de Segurança da ONU e defendeu a formação de uma coalizão única, incluindo Rússia e Estados Unidos, a fim de destruir a organização do Estado Islâmico. O presidente propôs ainda a destituição da nacionalidade francesa para indivíduos que se radicalizam e possuem dupla nacionalidade. Hollande anunciou, igualmente, a criação de 8.500 postos de trabalho na polícia, no controle de fronteiras e na justiça para reforçar a proteção dos franceses.

Riscos de uma operação terrestre na Síria

Le Monde adverte os franceses e a classe política que "na luta contra o terrorismo, é preciso ter clareza sobre o alvo do combate". Ontem, políticos do partido Os Republicanos, do ex-presidente Nicolas Sarkozy, defenderam o envio de tropas terrestres à Síria, o que para o Le Monde seria um erro. O jornal acredita que essa estratégia só iria aumentar o recrutamento de jihadistas, sem ganhos concretos para o país. O desmantelamento do Estado Islâmico não será suficiente para acabar com a ideologia jihadista, segundo Le Monde. "Trata-se de uma patologia do Islã, uma ideologia totalitária que deve ser desarticulada pelos muçulmanos", escreve Le Monde.

Prolongamento do estado de emergência não é consensual

Com a manchete "Estado de emergência permanente", o jornal Libération diz que Hollande fez um discurso denso e convincente como um chefe de guerra, que de fato ele é, por acumular a chefia das Forças Armadas. O jornal aprova a maior parte das medidas anunciadas pelo presidente. "Hollande marcou um ponto político importante ao anunciar o aumento dos meios de segurança, a expulsão de estrangeiros com envolvimento em atividade terrorista comprovada e defender uma aliança internacional contra o terrorismo." Mas o Libération questiona se o prolongamento do estado de emergência por três meses é de fato uma medida necessária. As violações a certas liberdades individuais que essa medida acarretaria preocupam o jornal.

Medidas anunciadas por Hollande chegam tarde, diz Le Figaro

O jornal Le Figaro, que costuma criticar Hollande por falta de firmeza, considera que o presidente deixou a ingenuidade de lado e finalmente anunciou medidas fortes contra o terrorismo. Mas estima também que o governo perdeu tempo entre os atentados de sexta-feira e os de janeiro passado. Le Figaro afirma que retirar a nacionalidade dos jihadistas nascidos na França, de pais ou avós vindos de outros países, é uma medida que foi proposta pela direita inúmeras vezes, e sempre rejeitada pela esquerda. Outro ponto que o Figaro destaca do discurso é que Hollande propôs endurecer as penas de prisão para indivíduos que representam uma ameaça ao país, o que na avaliação do jornal é uma medida contraditória em relação à política adotada até o momento pela ministra da Justiça, Christiane Taubira.

Por fim, Le Figaro estima que um pacto em torno da segurança é necessário, como afirmou Hollande, mas adverte que isso não deve ser uma desculpa para agravar o déficit público. O diário conservador também questiona de que maneira Hollande pretende lutar contra a radicalização dos franceses e como o governo pretende combater o processo de endoutrinamento dos delinquentes. Le Figaro defende o fechamento das mesquitas fundamentalistas e maior controle sobre a imigração. "Mesmo assim, será preciso fazer mais para erradicar o Estado Islâmico", conclui o editorial.

Oposição resiste

O diário Les Echos também dedica sua manchete ao discurso de Hollande com o título "A resposta política após os atentados". Les Echos aprova que "finalmente o presidente mudou de posição sobre a Síria". "Ele vai pedir uma reunião do Conselho de Segurança da ONU e se encontrar com Vladimir Putin e Barack Obama para discutir uma coalizão única de combate aos jihadistas", destaca. Les Echos ressalta que Hollande anunciou uma série de medidas que são defendidas pela oposição de direita. Na avaliação do diário, o líder socialista quer personificar a união nacional, colocando-se acima das divergências partidárias, mas essa iniciativa encontra resistência em plena campanha para as eleições regionais de dezembro.

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