Acessar o conteúdo principal
O Mundo Agora

É uma ilusão achar que a COP 21 vai salvar o planeta

Áudio 04:54
Em 12 anos, o monte Kilimanjaro, ponto mais alto da África, perdeu grande parte de sua calota de gelo por causa do aquecimento global.
Em 12 anos, o monte Kilimanjaro, ponto mais alto da África, perdeu grande parte de sua calota de gelo por causa do aquecimento global. wikimédia
Por: Alfredo Valladão

Que a mudança climática é um problema fundamental para a humanidade, ninguém mais duvida. Salvo quem tem interesse em continuar a poluir. Praticamente todos os 190 governos presentes em Paris para a Conferência sobre o Clima (COP 21) já aceitaram que o que o aquecimento global não pode ultrapassar 2°C até o fim do século. Tanto consenso deveria garantir um grande sucesso. A COP 21 seria um passo a mais para salvar o planeta. Doce ilusão!

Publicidade

É claro que as principais potências econômicas, as que mais emitem dióxido de carbono na atmosfera, vão celebrar o resultado final. Mesmo se a reunião precedente, em Copenhague, mostrou que êxitos proclamados em matéria de clima parecem mais com fracassos. A razão é simples: se todo mundo admite que o caso é sério, não há acordo sobre como resolver o problema. Começa pelo desentendimento entre países desenvolvidos e em desenvolvimento.

Nos últimos cem anos, as velhas potências industriais usaram e abusaram da energia barata e “suja” (carvão e petróleo). Os outros, que começam a crescer, não acham nenhuma graça que, de repente, venham lhes cortar o acesso aos hidrocarbonetos. Apesar de progressos espetaculares, as energias renováveis ainda estão muito longe de dar conta do recado. Mas basta tentar respirar numa grande cidade chinesa para cair na real de que esse modelo energívoro está batendo na parede da saúde e da própria sobrevivência da população. Sem falar nos pequenos Estados insulares ou nas grandes cidades à beira-mar que estão ameaçados de desaparecer nas próximas décadas.

Esgotado o argumento do “vocês foram irresponsáveis, agora a gente também tem direito de ser”, ficou óbvio que alguma solução tem que ser encontrada. Mas qualquer resposta séria custa caro. Estabelecer um preço mínimo (e alto) para as energias não renováveis é visto como uma das melhores soluções para promover alternativas, que hoje ainda são caras. Só que preços altos complicariam brutalmente o crescimento econômico. Os países ricos, já bem equipados em tudo, poderiam viver com isso. Mas os pobres ainda vão precisar de muito crescimento.

Governos continuam a subsidiar energias fósseis

Alguns países tentaram precificar o carbono emitido, criando “direitos a poluir” financeiros. O problema é que a quantidade desses “direitos” é tão grande que o carbono ficou a preço de banana. A verdade é que a maioria dos governos continua, por motivos políticos, a subsidiar as energias fósseis.

Por enquanto, não há dúvida de que um preço decentemente alto para a energia seria a melhor maneira de incentivar a produção de fontes renováveis, assim como a pesquisa e o desenvolvimento no campo energético. Os movimentos ambientalistas foram extremamente importantes nas últimas décadas para colocar o problema na agenda global. Só que o aquecimento climático continua como antes e até se acelera. Não adianta mais os apelos dramáticos para que o mundo só consuma energia solar, eólica ou biocombustíveis. Ou que se adote um estilo de vida frugal. Não vai acontecer.

Como sempre, a única saída é a tecnologia. É a pesquisa para melhorar radicalmente as fontes renováveis e seus custos, para desenvolver novas formas de energia – inclusive no campo nuclear (basta pensar na fusão) – e sobretudo explorar as imensas oportunidades de economizar energia graças às tecnologias da informação e comunicação, como nas redes ou cidades “inteligentes”, automóveis elétricos, super baterias, etc. Sem falar também na pesquisa científica para encontrar soluções a curto prazo para as populações que terão, queiram ou não, que se adaptar às terríveis consequências da mudança climática. Mas tudo isto leva tempo e custa caro, e a questão de quem vai pagar é uma das mais cabeludas da COP 21.

Só uma coisa é certa: qualquer documento que sair de Paris não será juridicamente vinculante. O futuro do clima vai sempre esbanjar uma retórica de “desta vez vamos”, mas continua sendo um exercício de “cada um por si e Deus por todos”.

* Alfredo Valladão é professor do Instituto Sciences PO de Paris

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.

Página não encontrada

O conteúdo ao qual você tenta acessar não existe ou não está mais disponível.