Partido Socialista francês está à beira de um racha, diz imprensa

Manuel Valls (à dir.) e François Hollande, no Palácio do Eliseu em 10 de fevereiro de 2016.erron de l'Elysée.
Manuel Valls (à dir.) e François Hollande, no Palácio do Eliseu em 10 de fevereiro de 2016.erron de l'Elysée. REUTERS/Jacky Naegelen

A guerra interna no Partido Socialista francês está nas manchetes de todos os jornais desta quinta-feira (25). Eles repercutem o longo artigo publicado no jornal Le Monde pela prefeita de Lille, Martine Aubry, com críticas severas à política do atual governo.

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Para Le Figaro, a reforma da legislação trabalhista proposta pelo governo de François Hollande foi a gota d'água para a explosão de Martine Aubry, ex-secretária geral do Partido Socialista e uma das líderes históricas e mais emblemáticas da esquerda francesa.

Além da reforma trabalhista, Aubry desfilou outras críticas como a discussão sobre a retirada da nacionalidade de franceses condenados por terrorismo e a postura do governo em relação aos refugiados.

Le Figaro afirma que as "críticas violentas" de Martine Aubry não assustam o primeiro-ministro Manuel Valls nem o presidente François Hollande. No entanto, a situação vai exigir do atual secretário-geral do PS, Christophe Cambadélis, um verdadeiro exercírio de equilibrista, na medida em que ele vai ter que aparar as arestas dessa fissura entre os socialistas.

A prefeita de Lille, Martine Aubry, destilou novo festival de críticas à política do presidente Hollande.
A prefeita de Lille, Martine Aubry, destilou novo festival de críticas à política do presidente Hollande. PHILIPPE HUGUEN / AFP

Em editorial, Le Figaro lembra que Martine Aubry foi quem introduziu na França o sistema de 35 horas semanais de trabalho, uma "lei suicida" na opinião do jornal pois tirou a competitividade do país e não produziu os efeitos esperados de criar mais postos de trabalho no mercado.

Hollande deve ignorar esses companheiros de partido e seguir em frente com sua primeira verdadeira reforma do mandato, defende Le Figaro.

Partido rachado

Libération diz que a crítica violenta de Martine Aubry contra a política do governo expõe de maneira muito explícita o racha que se instalou dentro do Partido Socialista entre uma "esquerda social" e uma "esquerda liberal".

Em seu editorial, Libé diz que o enfrentamento ficou mais claro entre duas linhas políticas dentro da chamada esquerda reformista: a social-liberal modernista representada pelo primeiro-ministro Manuel Valls e a social-democracia clássica simbolizada por Martine Aubry.

Diante dessa situação, o presidente Hollande tem duas opções: a primeira é usar o "método Valls", uma expressão apontada pelo jornal em referência à conhecida estratégica do primeiro-ministro de deixar a polêmica esfriar com o passar do tempo. O risco, neste caso, é instalar uma divisão na esquerda e terminar o atual mandato de maneira amarga e cheia de rancores.

A outra opção é ceder em alguns pontos para evitar a implosão do partido. Libération sugere que a realização de primárias para designar o candidato do partido à presidência do ano que vem é a melhor opção para verificar qual é de fato a linha majoritária do PS. É difícil e complicado, sem dúvida, mas o "suicídio político é o caminho mais simples", diz o jornal.

Tempestade na cúpula do Estado

Para Le Parisien, as críticas de Aubry criaram uma situação embaraçosa para François Hollande, que se encontra em viagem oficial na América do Sul. A delegação presidencial demonstrou nervosismo na quarta-feira (24) e alguns membros do entorno de Hollande admitem que o texto assinado por Aubry e outras 17 personalidades de esquerda trazem muito desconforto.

Mas a situação tende a tornar ainda mais delicada a relação do presidente com seu primeiro-ministro. Segundo uma fonte do Le Parisien, Hollande não estaria muito satisfeito com Manuel Valls. A reforma da legislação trabalhista com uma linha fortemente liberal é vista como uma tentativa do premiê de mostrar força, o que irrita Hollande. O presidente considera, segundo o jornal, que o premiê vai longe demais e não respeita totalmente sua linha política. Tudo isso com a eleição presidencial de 2017 como pano de fundo, daí o aviso do jornal em sua manchete: "Alerta para tempestade na cúpula do Estado".

 

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