França/jihadistas

Perfil de jihadistas franceses mortos na Síria é heterogêneo, diz Libération

Capa do jornal francês Libération desta terça-feira, 22 de março de 2016
Capa do jornal francês Libération desta terça-feira, 22 de março de 2016 liberation.fr

Quatro dias depois da prisão de Salah Abdeslam, coautor dos atentados de novembro em Paris, o jornal Libération publica nesta terça-feira (21) o resultado de uma ampla investigação sobre os franceses que se radicalizaram e perderam a vida ao combater junto ao grupo Estado Islâmico ou à rede Al-Qaeda na Síria e no Iraque nos últimos três anos.

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Segundo o jornal, até o momento pelo menos 168 franceses já morreram em combates. Esse número pode ter subido para 169 com o anúncio do grupo Estado Islâmico de que, na segunda-feira (20), um francês perdeu a vida em um ataque suicida no check-point do exército iraquiano na província de Al-Anbar.

O diário, com a ajuda de estudantes da Escola de jornalismo da Sciences-Po (Instituto de Estudos Políticos), criou uma base de dados sobre esses jihadistas.

Segundo Libération, o que mais impressiona é o perfil variado dos franceses que optaram pela radicalização. Eles são adolescentes, pais de família, moradores da região de Paris e também do interior da França, de origem muçulmana ou convertidos.

No entanto, segundo o governo francês, há pelo menos 609 franceses ou residentes na França que estão na Síria e no Iraque combatendo ao lado dos ultrarradicais, entre eles, 283 mulheres. As informações são fornecidas oficialmente a conta-gotas pelo Estado e devem ser tomados com precaução, segundo o jornal.

Segundo Libération, as autoridades francesas não têm acesso aos corpos das vítimas. O serviço secreto francês precisa fazer escutas para confirmar a morte de um cidadão do país. Os Estados Unidos, diz a reportagem, tem meios de telecomunicação mais sofisticados e conseguem até filmar enterros, o que ajuda a confirmar a morte de jihadistas no país.

Adolescentes e desempregados entre os mortos

Dos 68 franceses mortos investigados pelo Libération e pelos estudantes de jornalismo da Sciences-Po, o mais novo tinha 13 anos e o mais velho, 40. Apesar do perfil bem heterogêneo, há muitas características comuns: são pessoas com pouco estudo, e exercem profissionais pouco qualificadas. Alguns são agentes de segurança, pedreiros e até eletricistas. Outros estavam desempregados ou tinham abandonado a escola. Mas há casos também de engenheiros que deixaram um emprego com bom salário para fazer o jihadismo, de acordo com o Libération.

Segundo o jornal, a maioria dos franceses, 21, morreram  em combates contra o exército e rebeldes sírios e 16 por ataques suicidas. Em editorial, Libération diz que o governo deve ser duro com o terrorismo, mas também com as causas que provocam o terrorismo, entre elas, a exclusão social.

Prevenção da radicalização

Ainda sobre esse assunto, o jornal Le Figaro informa que uma segunda reunião da "instância de diálogo", criada pelo ministério francês do Interior com personalidades do mundo islâmico para discutir o fenômeno da radicalização dos jovens franceses, terminou sem anúncios concretos. Instaurada em junho do ano passado, essa "instância do diálogo" quer atuar na prevenção.

Medidas, no entanto, já fazem parte deste esforço, entre elas, lembra o jornal, uma melhor remuneração das autoridades religiosas que trabalham com os jovens nas prisões. Além disso, um acordo vai aproximar especialistas da religião com as delegacias de policiais onde há jovens radicalizados.

Atualmente, o governo espera que autoridades públicas e as diversas associações e lideranças religiosas somem suas competências e experiências para convencer os 1855 jovens que são atualmente acompanhados em celas especiais, de renunciar à sua radicalização.
 

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