Acessar o conteúdo principal
Saúde

Estudo francês analisa impacto psicológico do confinamento na população mundial

Áudio 05:42
Os impactos psicológicos da quarentena viraram objeto de estudo de um grupo de cientistas franceses
Os impactos psicológicos da quarentena viraram objeto de estudo de um grupo de cientistas franceses REUTERS - PHIL NOBLE
Por: Taíssa Stivanin
10 min

Para entender e comparar o impacto emocional provocado pelo confinamento, em razão da crise provocada pela Covid-19, um coletivo internacional de cientistas acaba de lançar um estudo, pilotado por uma equipe francesa.

Publicidade

A plataforma criada para coletar as informações foi viabilizada em tempo recorde, como todas as pesquisas que envolvem o vírus neste momento. O questionário online está disponível em 25 línguas, inclusive o português. A expectativa é que cerca de mil pessoas, de mais de 70 países, inclusive o Brasil, respondam as perguntas, o que permitirá a comparação de dados inéditos.

O mesmo questionário será aplicado dentro de um ano, quando, se espera, a crise já terá passado, para que os psiquiatras possam avaliar como o evento foi processado emocionalmente pela população, explicou o psiquiatra francês Philip Goorwood, da rede hospitalar Paris Psiquiatria e Neurociências, que reúne diversos hospitais públicos da capital.

O objetivo é comparar as populações por áreas geográficas, nível de vida, fatores de risco, e definir estratégias de prevenção, acompanhamento e recomendações para lutar contra a Covid-19 e futuras epidemias."É necessário tirar lições de uma crise internacional como essa", diz Goorwood.

A equipe quer saber como está a saúde mental da população durante a crise sanitária e qual o nível de ansiedade, depressão e ideias suicidas."Também queremos comparar o impacto em pacientes e médicos, e o fato de ter ou não sido exposto ao vírus, ou internado na reanimação", diz.

Exacerbação de doenças mentais

Mais de 1 bilhão de seres humanos ficaram trancados dentro de casa para evitar a propagação do novo coronavírus, que provocou a maior crise no planeta desde a Segunda Guerra Mundial. A ameaça invisível provocada pelo medo da contaminação, somada à recessão econômica mundial, gera incertezas e a perda de referências nos indivíduos.

O confinamento trouxe uma diversidade de situações que têm incidência direta nas emoções: isolamento total para aqueles que já viviam sozinhos, luto repentino em muitas famílias, medo nas pessoas com doenças que as expõem a níveis graves da Covid-19 e estresse pós-traumático para quem ficou com sequelas.

"Sabemos que com o risco de uma segunda ou terceira onda de contágios, e de uma situação que pode durar meses, talvez anos, o problema do impacto emocional será relativamente perene, assim como as medidas de confinamento", reitera o especialista francês. A ideia é que, no fim de maio, os cientistas possam fazer uma primeira avaliação, pelo menos na França, da maneira como o país vivenciou a situação.

"Nunca tivemos uma crise desse nível. Estamos muito preocupados com o impacto que uma situação estressante desse porte possa ter, que piora com o isolamento. O confinamento é uma medida adaptada, mas, quando temos uma doença mental, nos sentimos mais isolados."

Seres humanos mais vulneráveis

A depressão se caracteriza pela desmotivação e a dificuldade de se projetar no futuro, sentimentos que são exacerbados pela crise sanitária. "O confinamento também é sinônimo de isolamento, perda de apoio afetivo e profissional", acrescenta o especialista francês. A situação atual também pode "ressuscitar" doenças mentais pré-existentes, lembra Philip Goorwood.

"Isso aumenta a vulnerabilidade e pode, no caso de pessoas predispostas, gerar uma recaída, o que é observável em diversos tipos de dependência química e distúrbios, como a bulimia: difícil de se controlar quando cozinhar é a única coisa que temos para fazer o dia todo", exemplifica.

O fim do confinamento, diz, também é uma fonte de ansiedade patológica, explica o psiquiatra, para quem as incertezas e o perigo potencial são sentidos de uma maneira muito mais aguda. O especialista também lembra que, apesar das dificuldades, os hospitais na França estão preparados para continuar recebendo pacientes com doenças crônicas, sobretudo mentais, no caso provável de uma primeira ou segunda onda de contaminação.

O questionário também servirá para comparar como, culturalmente, os países e suas populações vivenciaram esse momento crítico, levando em conta as especificidades da epidemia em cada local. "Compreender o impacto desse fenômeno na população mundial é realmente muito interessante", conclui o psiquiatra francês.

 

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.

Página não encontrada

O conteúdo ao qual você tenta acessar não existe ou não está mais disponível.