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Saúde

Fake news sobre coronavírus atrasam pesquisas e prejudicam pacientes

Áudio 05:07
Pessoas confundem hipóteses e fatos confirmados, lembram cientistas
Pessoas confundem hipóteses e fatos confirmados, lembram cientistas AFP
Por: Taíssa Stivanin

Tratamentos milagrosos, medicamentos que nunca existiram, projetos de vacina misteriosos: desde o início da crise sanitária provocada pelo coronavírus, os rumores, as teorias conspiratórias e as fake news sobre a Covid-19 invadiram as redes sociais.

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Quando o assunto é saúde, manter-se informado ajuda as pessoas a se protegerem melhor? No caso do coronavírus, isso pode ser questionável. A Covid-19, que já atingiu 180 países, contaminou mais de 5 milhões de pessoas e confinou mais de um bilhão em casa, é a primeira epidemia da era globalizada e da difusão ininterrupta da informação.

A tal ponto que a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) criou o termo "infodemia" para designar o fluxo de discussões sobre o tema nas redes sociais, que invadiu nosso cotidiano. A Organização chegou a incluir em seu site uma seção para desmentir algumas informações sobre o coronavírus.

O objetivo é alertar os internautas sobre os rumores que envolvem a doença. Entre eles, o uso de remédios caseiros, como pimenta, alho e limão ou de produtos de limpeza que seriam eficazes contra o vírus. Ou ainda que a Covid-19 poderia ser transmitida por pernilongos ou tomar álcool gel seria um bom remédio contra a doença. Rumores que podem provocar tragédias: no Irã, cerca de 200 pessoas morreram depois de ingerir etanol.

Como lutar contra as fake news no contexto da pandemia? "As redes sociais continuam sendo a maneira mais comum de transmitir essas falsas informações, mas os cientistas e políticos também têm, às vezes, discursos totalmente absurdos e contraditórios. Todo mundo se lembra da declaração do presidente americano, Donald Trump, sobre o desinfetante", diz o jornalista da redação francesa da RFI, Igor Strauss, especialista no assunto.

O presidente americano chegou a questionar se uma injeção de desinfetante não poderia matar o coronavírus. Segundo o jornalista, a mídia também contribui para a desinformação – um exemplo é a "notícia" de que o vírus teria escapado de um laboratório, publicada em diversos veículos.

Comportamentos nocivos

Para o infectologista Pierre-Marie Girard, do hospital parisiense Saint-Antoine, as falsas informações criam comportamentos perigosos. "As informações que não têm sentido e tentam ativar teorias do complô são comuns no caso das doenças infecciosas. O bode expiatório da situação em geral não é o germe, mas quem introduziu o germe e por qual razão ele se desenvolveu", explica.

De acordo com Girard, essa é uma curiosidade humana: as pessoas têm necessidade de saber por que o vírus se tornou pandêmico em um determinado momento, designando um culpado pela situação.

O cirurgião cardiovascular Jean-Noël Fabiani, que atua no hospital Georges Pompidou, no 15º distrito de Paris, também é um especialista da história da medicina. Para ele, não há dúvidas: o excesso de informação contribui à desinformação. Ele cita como exemplo a gripe de Hong Kong, em 1968, uma epidemia que matou um milhão de pessoas mas, sem midiatização, passou despercebida. "A informação, às vezes, mesmo que seja necessária, tem efeitos perversos", constata.

Em sua opinião, para satisfazer a demanda dos programas televisivos, convidados muitas vezes pouco competentes em relação a uma temática confundem as pessoas. Em outros casos, cientistas renomados difundem teorias absurdas – o que complica ainda mais a situação. "Quando um prêmio Nobel de Medicina, como o professor Montagnier, explica que uma parte do genoma do coronavírus, que é o mesmo do HIV, foi manipulado geneticamente, e isso gerou o seu aparecimento, é impressionante", lamenta Fabiani.

Hipóteses e fatos

O peso da fonte, de quem transmite as informações, pode confundir até mesmo os mais tarimbados. De acordo com essa fake news, difundida pelo prêmio Nobel, o vírus surgiu quando cientistas manipulavam o HIV para fabricar uma vacina.

A comunidade científica desmentiu rapidamente a declaração, mas nem sempre os especialistas podem, mesmo que seja um dever, reagir com a rapidez necessária para esclarecer os fatos antes que eles continuem a se espalhar de maneira desenfreada, ressalta o infectologista Pierre-Marie Girard.

Esses desmentidos frequentes demandam tempo e atrapalham as pesquisas. "As pessoas vivem confundindo hipóteses e fatos demonstrados e uma hipótese acaba se tornando realidade. Explicar essa diferença é o papel dos cientistas", frisa.

Um exemplo, diz, foi o debate sobre a cloroquina, medicamento testado pelo professor Didier Raoult em Marselha. O que era hipótese virou um fato confirmado, salienta o infectologista. A molécula se tornou um remédio eficaz contra o vírus mesmo sem passar pelas etapas de pesquisa necessárias, o que atrasou outros estudos e desestabilizou os pacientes. O episódio prova que a velocidade da ciência não corresponde às exigências da opinião pública e da mídia.

(As entrevistas foram concedidas ao programa Priorité Santé, transmitido pela Radio France Internationale)

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