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Pesquisadores russos viram cobaias na corrida por uma vacina contra o novo coronavírus

Pesquisadores russos são cobaias na corrida pela vacina contra o novo coronavírus que já matou mais de 350 mil pessoas no mundo.
Pesquisadores russos são cobaias na corrida pela vacina contra o novo coronavírus que já matou mais de 350 mil pessoas no mundo. REUTERS/Tatyana Makeyeva

Pesquisadores de um instituto de Moscou testam um protótipo de vacina contra o novo coronavírus neles mesmos. Um método pouco habitual que demonstra a ambição da Rússia para estar entre os primeiros colocados na corrida mundial por um remédio contra a Covid-19.

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O chefe do instituto russo de pesquisa Gamaleïa, Alexandre Guintsbourg, afirmou ter injetado a vacina que está testando nele mesmo. O pesquisador recorreu a este método, que não segue os protocolos habituais, para acelerar o processo científico e concluir os testes clínicos até o final de setembro.

O programa do Gamaleïa é apenas um dos inúmeros projetos apresentados ao presidente russo Vladimir Putin. Outras iniciativas são dirigidas por consórcios públicos-privados e pelo ministério da Defesa.

Vários responsáveis garantiram a Putin que uma vacina poderia ser criada até setembro, passando na frente de dezenas de projetos desenvolvidos na China, Estados Unidos e Europa.Mas os críticos ao programa se preocupam, temendo que a Rússia tenha confundido rapidez com precipitação.

A Associação Internacional de Organizações de Pesquisa Clínica denunciou as experiências do instituto Gamaleïa como uma “violação flagrante dos fundamentos da pesquisa clínica, da lei russa e das normas internacionais” para responder a pressões das autoridades russas.

Corrida preocupante

“Eu estou preocupado com a promessa de fazer uma vacina até setembro”, observa Vitali Zverev, um dos responsáveis por vacinas e séruns do Instituto Público Metchnikov. “Me faz pensar em uma corrida e eu não gosto disso”, diz.

Os aspectos econômicos são importantes para a Rússia e para o resto do mundo. As economias ficaram totalmente paradas por meses de confinamento para frear a pandemia. Para vários responsáveis, somente uma vacina permitirá um retorno completo à normalidade.

Mas a descoberta de uma vacina também é uma questão de prestígio. Na época da União Soviética, o setor de biotecnologia era considerado um dos melhores do mundo e chegou a produzir 1,5 bilhão de doses de vacinas contra a varíola, que ajudaram a erradicar a doença do mundo. 

Mas a pesquisa médica russa quebrou, como outras indústrias do país, nos anos 1990. O Centro Nacional de Pesquisa em Virologia e Biotecnologia Vektor, um dos mais importantes desta época, espera ganhar a corrida pela vacina e se comprometeu em vários projetos, inclusive em associação com empresas privadas.

O problema, segundo Alexandre Loukachev, diretor do Instituto Martsinovski de parasitologia médica, é que a pesquisa russa tem dificuldades de sair do laboratório para o mundo exterior, ainda que a pesquisa fundamental e os cientistas continuem sendo de muita qualidade.    

“Eu não conheço nenhuma (nova) vacina produzida em massa pela Rússia que tenha chegado a mais de um milhão de doses”, explica. “Somente nesses níveis podemos avaliar (a eficácia) de uma vacina” a longo prazo.

Desconfiança

Ele cita o exemplo de estudos feitos com protótipos promissores de vacinas contra o SRAS – doença que atingiu a Ásia em 2002, similar ao novo coronavírus –, mas  que causavam imunopatologias. Isso significa que a resposta imunitária dos indivíduos vacinados agravou os sintomas da doença, algumas vezes anos depois dos testes.

Nas atuais circunstâncias, “o desenvolvimento de uma vacina é uma questão de prestígio nacional” para a Rússia, diz Loukachev. Além disso, as autoridades russas tradicionalmente não são abertas a iniciativas estrangeiras para estudar “material biológico” russo.

Os esforços do instituto Metchnikov de cooperar com a European Virus Archive, uma organização destinada a facilitar intercâmbios científicos, foram obstruídos porque a Rússia baniu o compartilhamento de suas cepas virais.

“Nossos colegas nos enviam vírus, mas nós não podemos dar os nossos”, diz Vitali Zverev.

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