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“Estão atirando em mim”: jornalistas viram alvo em protestos por morte de George Floyd

Manifestantes protestam em Washington contra violência policial neste domingo, 31 de maio de 2020.
Manifestantes protestam em Washington contra violência policial neste domingo, 31 de maio de 2020. REUTERS - YURI GRIPAS
Texto por: RFI
5 min

Repórteres são alvo de violência policial, de perseguição e ataques de manifestantes durante protestos nos Estados Unidos pela morte de George Floyd. Associações de defesa da imprensa pedem que autoridades ordenem fim da repressão a jornalistas.

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“Estão atirando em mim”, gritou ao vivo a jornalista Kaitlin Rust enquanto cobria o protesto contra a violência policial em Louisville (Kentucky). A equipe da rede de televisão local Wave 3 foi alvo de tiros de gás lacrimogêneo enquanto transmitiam a manifestação. As imagens mostram um policial mirando a câmera da rede de televisão.

A ação policial violenta contra jornalistas se repetiu em diversas cidades, na série de manifestações que tomou as ruas dos Estados Unidos desde que George Floyd, um homem negro de 46 anos foi morto por um policial.

Mais de 30 episódios de violência ou assédio contra jornalistas foram registrados nos últimos dias, de acordo com contagem do inglês The Guardian.

A imagem mais reproduzida foi transmitida pela CNN na manhã de sexta-feira (29), quando seu repórter Omar Jimenez foi algemado e levado por policiais enquanto reportava a madrugada de protestos em Minneapolis.

Segundo a equipe da rede norte-americana, a polícia disse que eles estavam sendo presos por não sair do lugar quando foi pedido. No entanto, durante a transmissão é possível ouvir alguém da equipe de reportagem dizer “quando vocês quiserem nós sairemos do caminho”. Uma hora mais tarde, Jimenez e os dois colegas foram liberados.

Ainda em Minneapolis, Linda Tirado, uma jornalista independente, levou um tiro de borracha no olho. A freelancer afirmou no Twitter ter perdido a visão do olho esquerdo.

Na mesma cidade, uma jornalista da Canadian Broadcasting Corporation, Susan Ormiston, foi atingida por uma bomba de gás. A polícia "disparou contra nós para nos afastar, e tínhamos nosso equipamento de câmera visível", disse durante a transmissão.

Reportar não é crime, diz ONG

Para o diretor nos EUA da ONG Repórter sem Fronteiras, Dokhi Fassihian, “a prisão de jornalistas em solo americano é uma cena chocante que se tornou assustadoramente comum durante protestos nos Estados Unidos, uma nação com fortes medidas de proteção à imprensa”, declarou. “Reportar manifestações não é um crime: é de interesse público”, enfatizou.

Neste domingo (31), o governador de Minnesota, Tim Walz, voltou a pedir desculpas pela prisão de jornalistas. “Quero mais uma vez estender minhas desculpas mais profundas aos jornalistas que estavam no meio dessa situação, e inadvertidamente, no entanto, foram detidos”, disse durante uma coletiva de imprensa.

Para o Comitê de Proteção de Jornalistas, não bastam as desculpas. “As autoridades locais devem ordenar a suas forças policiais que não façam dos jornalistas alvos.”

Alvo também de manifestantes

A violência contra a mídia não se restringiu à ação policial. Jornalistas também foram atacados por manifestantes. Em Atlanta, a sede da CNN foi atacada por dezenas de pessoas na sexta-feira e teve seus vidros quebrados.

Na manhã do sábado, um jornalista da televisão Fox News foi ameaçado e perseguido por manifestantes em frente a Casa Branca, em Washington DC.

O fotógrafo Ian Smith afirma ter apanhado durante um protesto em Pittsburgh, antes de ser protegido por outras pessoas que participavam da manifestação.

“Se vocês são manifestantes, façam o que acham ser justo, mas não nos impeçam de fazer nosso trabalho pelo público”, declarou no sábado a Sociedade de Jornalistas Profissionais.

O presidente Donald Trump publicou uma mensagem provocativa no Twitter: “Ironia do destino, a sede da CNN foi atacada pelos vândalos que [a rede] apresenta como nobres e justos. Oops”.

Desde a eleição do republicano, o líder norte-americano ataca com frequência o trabalho dos jornalistas, que muitas vezes são acusados por Trump de distorcer a realidade e já foram chamados mais de uma vez como “inimigos do povo” pelo presidente.

Manifestantes queimam lixeiras diante de policiais, em protesto próximo à Casa Branca no dia 30 de maio de 2020.
Manifestantes queimam lixeiras diante de policiais, em protesto próximo à Casa Branca no dia 30 de maio de 2020. AP - Evan Vucci

Protestos contra racismo policial seguem pelo 6° dia

Desde a publicação do vídeo que mostra a morte de George Floyd asfixiado por um policial, no dia 25, protestos tomaram às ruas de quase cem cidades norte-americanas exigindo o fim da violência policial contra negros, sob o já conhecido slogan de Black Lives Matter (Vidas Negras Importam).

Após ações violentas, com queima de carros e prédios e muitos comércios vandalizados, mais de uma dezena de cidades estabeleceram o toque de recolher. E estados como Minnesota, onde morreu Floyd, Texas e a Califórnia convocaram o reforço de milhares de soldados da Guarda Nacional.

Trump culpou a extrema esquerda pela violência e afirmou que "vândalos, saqueadores e anarquistas" estavam desonrando a memória de George Floyd.

A reação dos governantes não impediu os manifestantes de saírem mais uma vez às ruas. De Seattle a Nova York, dezenas de milhares de manifestantes exigiram acusações mais duras contra os policiais envolvidos na morte de Floyd. Na manhã deste domingo, ao menos 345 pessoas tinham sido presas em cinco regiões de Nova York, de acordo com o jornal The New York Times.

A onda de protestos que surge em meio à grave crise sanitária e econômica, causada pelo coronavírus, não parece estar perto de desaparecer.

(Com AFP)

Policiais armados com bastões de madeira atravessam manifestação contra violência policial, em Atlanta, no dia 29 de maio de 2020.
Policiais armados com bastões de madeira atravessam manifestação contra violência policial, em Atlanta, no dia 29 de maio de 2020. REUTERS - DUSTIN CHAMBERS

 

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