Rebote nos casos Covid-19 nos Estados Unidos: "Segundo semestre será complicado"

Enfermeira durante uma triagem de coronavírus em Seattle, 13 de março de 2020.
Enfermeira durante uma triagem de coronavírus em Seattle, 13 de março de 2020. Getty Images via AFP

Nos últimos dias nos Estados Unidos, o número de hospitalizações por Covid-19 atingiu um nível recorde, especialmente nos estados do sul, como Flórida e Texas. Mas para os governadores envolvidos (democratas ou republicanos), não há possibilidade de reimplementar medidas de restrição social. A atitude preocupa alguns especialistas, que preveem o aumento da contaminação. Para falar sobre o assunto, a RFI entrevistou Sarah Rozenblum, especialista em saúde pública e doutoranda na Universidade de Michigan.

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Por Achim Lippold

RFI: Quais são as razões desta nova onda de contaminação?

Sarah Rozenblum: Existem muitos discursos entrelaçados. Segundo o presidente Donald Trump, o aumento de casos está relacionado ao fato de estarmos testando mais. E que identifiquemos novas fontes de disseminação. O que é parcialmente verdade. Porque agora estamos testando 500.000 pessoas por dia, em comparação com as 250.000 de há um mês. Mas isso não pode explicar totalmente a nova onda da contaminação. O que pesa mais é o fato dos planos de saída do lockdown terem sido frequentemente implementados de maneira muito prematura.

Desde o início de maio, mais de 30 estados norte-americanos reduziram suas medidas de contenção, enquanto o vírus ainda circulava ativamente no território. E, ao contrário do que pode ser observado na Europa ou em certos estados do norte dos Estados Unidos, como Michigan ou Illinois, as estratégias de transição não foram progressivas, não foram implementadas de maneira reversível, portanto, com a possibilidade de restabelecer as medidas de distanciamento social, se a situação piorar.

É o caso do Arizona, Indiana ou Texas, três estados que encerraram o isolamento social, independentemente da circulação do vírus nos municípios. Uma terceira explicação possível, mas que ainda precisa ser verificada, é que houve vários protestos contra a violência policial e o racismo nos Estados Unidos durante semanas. Esses encontros podem ter intensificado a disseminação do vírus, mas os números não são muito claros e estamos aguardando os dados epidemiológicos para descobrir se esses encontros tiveram mesmo efeito na situação crítica da saúde.

RFI: O que deve ser feito para evitar essa nova onda da doença?

Sarah Rozenblum: Deveríamos fazer o que fazemos nesse tipo de situação, ou seja, em risco de epidemia: implementar uma estratégia de contenção, que envolve o desenvolvimento rápido de testes de triagem, mobilizando os pesquisadores para rastrear cadeias de transmissão de vírus, identificando e colocando pessoas em quarentena. O segundo estágio é o de mitigação, da atenuação, que consiste em impor o uso da máscara e acabar com as medidas [de isolamento social] ou restabelecê-las, se a situação sanitária o exigir.

E é essa segunda causa do problema. Muitos governadores agora relutam em reintroduzir medidas de distanciamento social e em isolar novamente a população. Uma atitude que pode ser explicada por medidas políticas e econômicas. No Texas, por exemplo, o governador republicano Greg Abbott acelerou a reabertura de restaurantes, de modo que os casos de nova contaminação aumentaram 30% nas últimas semanas.

O mesmo acontece na Carolina do Norte, onde as taxas de infecção e hospitalização atingiram níveis recordes. Mas o governador democrata Roy Cooper anunciou que a quarentena em massa será considerada apenas como último recurso. Há uma falta de vontade por parte das autoridades em alguns estados diante do cansaço geral da população. Não devemos esquecer que milhões de norte-americanos perderam o emprego e que absolutamente precisam voltar ao trabalho para se sustentar. E, em terceiro lugar, a capacidade hospitalar deve ser fortalecida no caso de um novo fluxo de pacientes.

Nos Estados Unidos, muitas vezes é bastante difícil. Os hospitais gozam de grande autonomia e estão fora do controle das autoridades locais. Na França e em outros países europeus, é mais fácil estabelecer uma forma de cooperação entre governos e hospitais para gerenciar o fluxo de pacientes e distribuí-los da melhor forma possível entre diferentes hospitais. Isso é algo que será problemático nos próximos dias.

RFI: Temos a impressão de que Donald Trump já esqueceu a Covid-19, que isso não é mais uma preocupação do presidente...

Sarah Rozenblum: De fato, desde o início da crise da saúde, o governo se retirou da administração sanitária da crise, confiando-o aos governadores. Certamente, o governo aprovou planos de ajuda econômica. Medidas importantes, mas não suficientes. Agora, o presidente não fala mais sobre esse aspecto sanitário da crise, mas se concentra exclusivamente na crise econômica que atinge os Estados Unidos com força total e que torna sua campanha de reeleição para novembro próximo mais complexa.

Como a Casa Branca, o Partido Republicano fala sobre a crise do ponto de vista meramente econômico. Como se a situação da saúde estivesse agora sob controle e os indicadores estivessem em boa forma e que a economia pudesse ser reaberta, à imagem do que está sendo feito atualmente na França. Mas a situação aqui (nos Estados Unidos) não é a mesma. Eu acho que o aumento da contaminação continuará. Você deve saber que os Estados Unidos ainda não terminaram o primeiro pico epidêmico.

Portanto, é prematuro falar de uma "segunda onda" [como alguns jornais dizem] quando estamos ainda no coração da primeira. A situação é difícil em vários estados do sul e do oeste. O segundo semestre será complicado do ponto de vista da saúde. Penso em particular nos hospitais que antecipam um novo afluxo e que são incapazes de gerenciar novos pacientes e de recebê-los em suas unidades de terapia intensiva.

 

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