Ocupação antirracista americana cria o CHOP, “território independente” dos EUA

A zona autônoma de Seattle é descrita como um experimento urbano, realizado principalmente sob uma atmosfera de festival.
A zona autônoma de Seattle é descrita como um experimento urbano, realizado principalmente sob uma atmosfera de festival. AFP/File

Quem visitar Seattle, a maior cidade do estado americano de Washington - onde se encontram sedes de grandes empresas como Amazon, Microsoft e Starbucks - agora também pode aproveitar para conhecer o mais novo território da América do Norte. O local, batizado de CHOP (Capitol Hill Organized Protest, ou Protesto Organizado de Capitol Hill, em português), foi criado, em 8 de junho, por um grupo de manifestantes e ativistas em resposta aos confrontos com a polícia local, que chegou a usar bombas de gás contra os que protestavam a morte de George Floyd.

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Ligia Hougland, correspondente da RFI em Washington

As diversas quadras da East Pine Street, na vizinhança de Capitol Hill, onde se encontra a  zona ocupada, estão decoradas com murais e exibem com especial destaque o slogan do movimento #BlackLivesMatter. Um dos prédios da zona ocupada é o Precinto Leste do departamento de polícia de Seattle.

Durante os protestos contra racismo e brutalidade policial que aconteceram no decorrer de várias noites por todos os EUA, centenas de pessoas foram às ruas também em Seattle - e lá, desde o início, houve confronto entre os manifestantes e a polícia. Mas, segundo os manifestantes e até mesmo alguns políticos eleitos pela comunidade local, a reação da polícia foi desproporcional. A tensão só escalou, culminando com os manifestantes dominando o território e a polícia abandonando sua sede. Agora, a fachada do prédio do departamento policial apresenta um sinal que declara “Este espaço é agora propriedade da população de Seattle”.

Uma das primeiras medidas da liderança de CHOP foi construir uma fronteira com barricadas, delineando a zona autônoma. No começo, o clima era positivo, com um café para bate-papo, estandes que oferecem alimentos e bebidas, além de estação de roupas e ponto de assistência geral. Tudo de graça. A prefeitura de Seattle, inclusive, colaborou, fornecendo até mesmo materiais de arte para que os residentes que ocupam barracas no território criassem murais e decorassem a zona. Os ocupantes também criaram uma horta. Como entretenimento, os moradores de CHOP podem assistir a documentários sobre injustiça social e participar de debates para contribuir com possíveis soluções para o problema. Mas o ideal utópico teve vida curta.

Apesar de não haver presença policial no local, o território conta com um grupo de guardas armados que, segundo os moradores e donos de estabelecimento comerciais na zona que foi ocupada, intimidam pessoas não ligadas à liderança de CHOP. Além disso, as pessoas que moram nos arredores do Cal Anderson Park não conseguem dormir.

"Mini Coachella"

“Começou como um protesto de verdade. Agora, depois das 20h vira um mini Coachella, com pessoas jogando basquete, futebol, fazendo fogueiras e ouvindo música alta. Está começando a parecer só uma desculpa para ignorar o coronavírus, beber e ter um festival de música em Capitol Hill”, conta M.S., que reside em um prédio de apartamentos no território. A jovem de 24 anos, que prefere permanecer anônima, trabalha para uma das grandes empresas de tecnologia de Seattle.

“Não dá para reclamar, pois a gente deve apoiar o movimento. E eu apoio, mas o que vejo não é um protesto organizado. É só uma festa desorganizada, sem líderes”, diz ela.

Também começaram a ser relatados casos de tiroteio na zona autônoma. Em 20 de junho, o jovem negro Horace Lorenzo Anderson, de 19 anos, foi morto. A prefeitura de Seattle tinha determinado que a polícia somente interferisse em confrontos no território ocupado em casos de emergências potencialmente fatais. Mas, mesmo nesses casos, a presença das autoridades policiais não é bem-vinda.

Nos últimos dias, um grupo de proprietários de negócios e residentes de Capitol Hill entraram com um processo contra a cidade de Seattle, alegando que sofreram “danos extensivos” devido à ocupação. Os autores alegam que a prefeitura contribuiu com a ocupação de sua vizinhança ao fornecer barricadas, banheiros públicos e suprimentos médicos aos ocupantes.

Na sexta (26), a prefeita Jenny Durkan se reuniu com diversos representantes de CHOP para discutir possíveis soluções que ofereçam meios de os manifestantes serem ouvidos e, por fim, desocupem o território, sem interferência policial. O encontro foi realizado depois de o departamento de Transportes da cidade tentar remover as barricadas na manhã de sexta (26), ação que foi impedida pelos ocupantes.

Inspirando novas zonas autônomas

Por enquanto, o CHOP tem tido sucesso não somente sobre as autoridades locais como também na propagação da mensagem central dos seus fundadores, inspirando a criação de diversas outras zonas autônomas nos EUA em cidades como Portland, no estado de Oregon, e Asheville, na Carolina do Norte. A situação atual é de constante tentativas de estabelecer zonas autônomas, enquanto a polícia tenta deter seu sucesso.

Em Washington, no fim de semana de 20 de junho, foi criada nas proximidades da Casa Branca a BHAZ (Black House Autonomous Zone, ou Zona Autônoma Casa Negra, em português). Mas as tentativas de delinear o território têm sido impedidas pela polícia da capital americana. Na segunda (22), a liderança do movimento inclusive tentou remover a estátua do presidente americano Andrew Jackson que fica no Parque Lafayette, a uma quadra da Casa Branca. A estátua sofreu alguns danos, mas policiais e agentes do Serviço Secreto, impediram que fosse derrubada e removida.

Twitter abusivo: o descontrole de Trump

Depois do confronto, Donald Trump tuitou que “Jamais haverá uma ‘Zona Autônoma’ em Washington, D.C., enquanto eu for presidente. Se tentarem, serão impedidos com séria força!”. A mensagem do presidente, que foi depois apagada por Trump, foi marcada pelo Twitter como uma violação às regras da empresa sobre comportamento abusivo.

A liderança de BHAZ também marcou a fachada da Igreja Episcopal St. John’s - localizada nas proximidades da Casa Branca e onde Trump, em meio ao caos que o país se encontrava enquanto ocorriam protestos em âmbito nacional, posou com uma bíblia – o que causou mais confrontos com a força policial responsável por dos EUA. Depois disso, a prefeita de Washington, Muriel Bowser, que havia batizado o Black Lives Matter Plaza, dedicado a protestos pacíficos, deu ordens para que a polícia da capital proibisse o acesso à área.

“As pessoas não estão entendendo que não vamos desaparecer enquanto não houver justiça em todos os lugares. Sem justiça, sem paz, é preciso cortar fundos para a polícia. Bem-vindos à Zona Autônoma Casa Negra”, declarou pelo Twitter o ativista Johnathon Williams.

Na sexta (26), Trump assinou uma ordem executiva a fim de proteger monumentos federais. Além de indicar uma possível retenção de fundos federais para forças policias estaduais e municipais que falhem em proteger monumentos, memoriais e parques contra atos de vandalismo, a ordem reforça uma lei que criminaliza a destruição de monumentos federais, podendo resultar em até 10 anos de prisão.

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