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Incêndios na Sibéria aumentam aquecimento global e poderiam trazer de volta vírus desconhecidos

Vista aérea dos incêndios que atingem a região de Krasnoyarsk na Rússie, em 10 de julho de 2020.
Vista aérea dos incêndios que atingem a região de Krasnoyarsk na Rússie, em 10 de julho de 2020. The Aerial Forest Protection Service/Handout via REUTERS
Texto por: RFI
5 min

Após um verão de 2019 marcado por violentos incêndios, a Sibéria volta a sofrer com queimadas. Na região coberta em grande parte por gelo, os fatores de agravamento da mudança climática se acumulam. O aumento das temperaturas também poderia trazer de volta alguns vírus antigos que estão presos no gelo.

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Durante o verão de 2019, os incêndios na Sibéria queimaram mais de 15 milhões de hectares de floresta boreal. Este ano, o serviço europeu de observação das mudanças climáticas, o Copernicus, teme que o episódio se repita.

Mais de 4 milhões de hectares de florestas já viraram cinzas no território russo desde 1o de janeiro de 2020, segundo autoridades russas. Este número seria de 13,5 milhões, segundo o Greenpeace na Rússia, que se baseia em observação de imagens de satélite.

Em 15 de julho, mais de 187 focos de incêndios estavam ativos em uma superfície de 44.460 hectares. Em terras inacessíveis e distantes onde os bombeiros não atuam, segundo a Agência federal russa de florestas, 106 incêndios florestais são vigiados em uma zona coberta por 269.688 hectares.

A situação é preocupante para especialistas porque os incêndios na floresta boreal, no extremo noroeste da Rússia, aumentam em julho e agosto. Este ano, eles se anteciparam e já atingiram números alarmantes em meados de junho.

As emissões de gases do efeito estufa provenientes das queimadas já bateram o recorde dos últimos 18 anos. “Para junho, um total estimado de 59 megatoneladas de CO2  foram introduzidas na atmosfera. Mais que o total de 53 megatoneladas de CO2 de junho do ano passado”, segundo o Copernicus .

Causas

Uma das causas dos incêndios poderia ser o aumento das temperaturas na região siberiana. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, o aumento das temperaturas no Ártico serão duas vezes superiores à média mundial em 2020.

Na Sibéria, “as temperaturas médias atingiram 10oC acima do normal em junho”, segundo Copernicus. “Uma mudança climática está acontecendo”, confirma Gerhard Krinner, climatólogo, diretor de pesquisa do CNRS e membro do IPCC, o grupo intergovernamental de especialistas sobre a evolução do clima da ONU.

Segundo estudo publicado nesta quinta-feira (16) por pesquisadores do Word Weather Attribution, a onda de calor “seria praticamente impossível sem a influência humana”.

Círculo vicioso

O aumento das temperaturas causado pelas mudanças climáticas é um círculo vicioso nessa região. Quando a temperatura aumenta, o derretimento do gelo e a baixa taxa de umidade dos solos favorecem a propagação de incêndios.

Sem a camada de neve que reflete o calor e com uma cobertura seca, o solo é destruído mais rapidamente e intensamente pelos incêndios.

O calor é absorvido pelo solo seco, aumentando a temperatura ambiente que acelera o derretimento do gelo e favorece os incêndios.

As emissões poluentes de fumaça agravam o aquecimento global. “A situação dos incêndios na Sibéria deixaram de ser um problema local e se transformaram em uma catástrofe ecológica em todo o país”, reitera Greenpeace.

Permafrost e vírus

A metade da região siberiana é recoberta pelo permafrost ou pergelissolo, um solo permanentemente gelado, chegando, muitas vezes, a milhares de quilômetros de profundidade. Essa condição da terra permite absorver o gás carbônico, o que faz das florestas de coníferas do norte da Rússia, em conjunto com as florestas tropicais, um dos mais importantes sumidouros de gases do efeito estufa do planeta. Este é o caso de Yakoutine, na Sibéria oriental, uma das regiões mais atingidas pelos incêndios.

Com as mudanças climáticas e o aumento das temperaturas, o derretimento do pergelissolo “libera o CO2 e o metano”, explica Krinner. Por sua vez, a liberação desses gases provoca o aumento do efeito estufa e, consequentemente o aumento das temperaturas. É o que os cientistas chamam de “efeito feedback”.

Segundo cenários mais otimistas, o permafrost poderia desaparecer completamente até o ano 2100.

Além de ser um sumidouro de gazes do efeito estufa, o permafrost, formado de gelo e matérias orgânicas também poderia manter congelados vários vírus, esquecidos ou desconhecidos, potencialmente perigosos para o homem.

Em 2016, uma criança de 12 anos morreu, vítima do anthrax, e centenas de pessoas foram hospitalizadas na região de Yamalo Nenets, no norte da Rússia. O vírus, que foi liberado após o descongelamento dos restos de um cervo, causa a doença do carvão e já foi usado como arma bacteriológica. Ele era considerado extinto na região desde 1968.

O ex-diretor de pesquisa do CNRS, Jean Michel Claverie, e sua equipe, descobriram, em 2014 dois novos vírus gigantes, de 30.000 anos, no permafrost siberiano e os reativaram. Apesar de inofensivos para o homem, os vírus mostraram que o solo siberiano ainda guarda muitos segredos.

Com texto de Romain Philips

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