Egito ataca jovens influenciadoras das redes sociais e provoca volta do movimento #MeToo

As influenciadoras Mowada al-Adham e Haneen Hossam (d) foram detidas acusadas de imoralidade
As influenciadoras Mowada al-Adham e Haneen Hossam (d) foram detidas acusadas de imoralidade © Captura Instagram

A prisão no final de julho no Egito de jovens influenciadoras das redes sociais destacou a disparidade de gênero  e o moralismo avassalador do regime de al-Sisi no tratamento de mulheres, rapidamente condenadas por publicações online. O movimento local #MeToo denuncia as agressões sexuais de homens na internet, raramente processados.

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Manar Samy foi condenada na quarta-feira a três anos de prisão por "incitar devassidão" por vídeos postados na rede social TikTok, onde ela dança e canta na reprodução de músicas de sucesso. A sentença ocorreu alguns dias depois de outro tribunal condenar cinco mulheres egípcias a dois anos de prisão por quebra de moralidade, também para publicações no TikTok.

 Elas são "todas mulheres, muito jovens, todas exercendo seu direito à liberdade de expressão online", disse a ONG para a proteção das liberdades digitais Access Now. Segundo grupos de direitos humanos, as liberdades individuais foram severamente restringidas no Egito desde que Abdel Fattah al-Sisi chegou ao poder em 2014.

Muitos atores, acadêmicos, blogueiros, jornalistas, dissidentes, advogados e ativistas foram presos nos últimos anos. Agora, o regime ataca influenciadoras das redes sociais. "Não tem nada a ver com proteger os valores da sociedade. Trata-se de monitorar e controlar a internet", denunciou Marwa Fatafta, da ONG Access Now, afirmando que "agora a repressão online também se estende a atividades não políticas".

 "Liberdades individuais"

As autoridades egípcias exercem há vários anos um controle mais rígido da Internet por meio de leis que lhes permitem bloquear sites considerados uma ameaça à segurança nacional e monitorar contas com mais de 5.000 assinantes.

 "Posicionando-se como árbitros da moral, as autoridades egípcias estão definindo o que é social e politicamente permitido na internet", criticou Fatafta.

Haneen Hossam também foi condenada esta semana. A aluna postou um vídeo no TikTok em abril, dizendo a 1,3 milhão de seguidores que meninas poderiam ganhar dinheiro trabalhando com ela nas mídias sociais, uma mensagem interpretada como um chamado à prostituição.

Mowada al-Adham, que tem dois milhões de seguidores no Instagram, foi presa em maio após postar vídeos de paródia. Ativistas que pedem sua libertação também denunciaram o início de um processo contra essas meninas - algumas veladas como Haneen Hossam - enquanto homens suspeitos de agressão sexual raramente são o objeto de processos, punições ou prisões.

Redes sociais no Egito

Se as redes sociais servem no Egito, como em outros lugares, como uma saída virtual da moralidade, agora elas também são usadas pelas jovens egípcias para falar sobre assédio ou agressão sexual das quais são vítimas.

É o caso de Menna Abdel-Aziz, 17 anos. Ela postou um vídeo no TikTok em maio, aparecendo com o rosto coberto de hematomas e alegando ter sido estuprada por uma gangue. As autoridades reconheceram a existência do estupro, mas também ordenaram sua prisão por "promover a devassidão". "Ela cometeu crimes (...) Ela merece ser punida", declarou o procurador-geral.

A associação Iniciativa Egípcia de Direitos Individuais pediu sua libertação imediata e a retirada de todas as acusações, exigindo que ela fosse "considerada uma vítima de estupro e uma sobrevivente". Seus seis supostos atacantes também foram presos e acusados ​​da mesma acusação.

De acordo com o código penal egípcio, estupro e agressão sexual são puníveis com prisão perpétua. Este caso fer reviver o movimento #MeToo entre mulheres egípcias.

Dezenas de acusações de agressão sexual publicadas em uma conta de mídia social altamente seguida levaram à prisão no início de julho de Ahmed Bassam Zaki, 22, um ex-aluno de instituições de prestígio no país.

Ele confessou agredir e chantagear seis queixosos, incluindo um menor, de acordo com o escritório do promotor, que reagiu com uma velocidade rara após a apresentação de mais de 400 queixas no Conselho Nacional de Mulheres.

Em 8 de julho, o governo aprovou um projeto de lei que preserva o anonimato das pessoas que fazem denúncias de agressão sexual.

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