Reconstrução do porto de Beirute deve atrair governos da França, China e Turquia

Uma foto tirada em 11 de agosto de 2020 mostra uma casa tradicional libanesa parcialmente destruída no bairro de Gemmayzeh, em Beirute.
Uma foto tirada em 11 de agosto de 2020 mostra uma casa tradicional libanesa parcialmente destruída no bairro de Gemmayzeh, em Beirute. PATRICK BAZ / AFP

A explosão que matou pelo menos 171 pessoas e feriu mais de 6.500 também afetou o patrimônio arquitetônico de Beirute. As grandes casas burguesas do período otomano do século XIX, localizadas nas proximidades do porto, sofreram muito, o que tem despertado o apetite dos incorporadores que querem destruí-las para a construção de edifícios. Países como França, China e Turquia já demonstrariam interesse em participar da reconstrução deste patrimônio histórico de Beirute e do porto da capital libanesa.

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A destruição das joias arquitetônicas de Beirute, incluindo museus e edifícios tradicionais, soma-se ao trágico número de vítimas das explosões no porto da capital libanesa. Famosas por suas janelas de três arcos, típicas da cidade, centenas de construções do período otomano ou da ocupação francesa (1920-1943) já estavam deteriorados com o passar do tempo e com a guerra civil (1975-1990). Alguns dos mais antigos ficavam perto do porto.

“Podemos comparar o desastre que acaba de acontecer a Aleppo no plano cultural, em Mosul, no Iêmen. É, portanto, um massacre cultural que está ocorrendo hoje nos países árabes, como se quisessem apagar a história”, afirma o arquiteto Fadlo Dagher, que prometeu restaurar sua casa às condições originais, mas sem qualquer ajuda pública. Poucos proprietários poderão fazer o mesmo.

“Como se vê, Beirute é um tecido bastante incoerente, com prédios muito altos ao lado de estruturas históricas. Esses prédios ainda não são protegidos por lei. Então, hoje, o que está acontecendo é quase uma dádiva de Deus para incorporadores e o setor imobiliário em Beirute ", explica Dagher.

Alerta da UNESCO: 60 edifícios históricos correm o risco de desabar

A UNESCO, agência cultural da ONU, prometeu nesta quinta-feira (13) liderar os esforços para proteger o patrimônio vulnerável no Líbano após a gigantesca explosão do porto de Beirute na semana passada, alertando que 60 edifícios históricos correm o risco de desabar.

Os efeitos da deflagração foram sentidos em toda a capital libanesa, mas alguns dos piores danos foram nos bairros de Gemmayzeh e Mar-Mikhael, a uma curta distância do porto. Ambos abrigam uma grande concentração de edifícios históricos. "A comunidade internacional enviou um forte sinal de apoio ao Líbano após esta tragédia", disse Ernesto Ottone, diretor-geral assistente da UNESCO.

“A agência está empenhada em liderar a resposta no campo da cultura, que deve ser uma parte fundamental dos esforços mais amplos de reconstrução e recuperação”.

Sarkis Khoury, chefe de antiguidades do Ministério da Cultura do Líbano, relatou em uma reunião online esta semana para coordenar a resposta que pelo menos 8.000 prédios foram afetados, disse a organização com sede em Paris. "Entre eles estão cerca de 640 edifícios históricos, aproximadamente 60 dos quais estão em risco de desabamento", disse a UNESCO em um comunicado.

Mesmo antes da explosão, havia uma preocupação crescente no Líbano sobre a condição do patrimônio em Beirute devido à construção desenfreada e à falta de preservação de edifícios históricos na cidade densamente povoada.

A UNESCO disse ainda que Khoury "enfatizou a necessidade de uma consolidação estrutural urgente e de intervenções de impermeabilização para evitar que mais danos se aproximem das chuvas de outono".

Porto de Trípoli substitui escoamento de Beirute 

Há muito abandonado, o porto de Trípoli, no norte do Líbano, agora parece uma colmeia, com funcionários trabalhando 18 horas por dia. A ideia é substituir rapidamente o de Beirute, porta de entrada para as importações do país devastada pela explosão mortal.

Imediatamente após a tragédia que devastou Beirute em 4 de agosto, as autoridades deram a ordem de preparar o porto da segunda cidade do Líbano para sediar "operações de importação e exportação". 

No mesmo dia, sete barcos com destino a Beirute tiveram que mudar de rumo para descarregar suas mercadorias em Trípoli, 83 km ao norte da capital.

"O porto de Trípoli pode substituir temporariamente o de Beirute, a tempo para que este volte a funcionar normalmente", disse à o diretor do porto de Trípoli, Ahmad Tamer.

Na terça-feira (12), o diretor executivo do Programa Mundial de Alimentos (PMA), David Beasley, percorreu o porto de Trípoli e anunciou que 17.500 toneladas da farinha enviada pela entidade devem chegar ao Líbano nos próximos dias.

As autoridades libanesas anunciaram que o porto de Beirute também receberá em breve navios carregados com alimentos enviados pelo PMA.

Tensões entre concorrentes

Enquanto isso, a reconstrução do porto de Beirute já atrai concorrência da China, França e Turquia, de acordo com a mídia local. A França reforçou quinta-feira a sua presença militar no Mediterrâneo Oriental, em apoio à Grécia, contra a Turquia que está determinada a tirar partido da sua vantagem na exploração de hidrocarbonetos, marcando uma nova escalada das tensões com Ancara.

Somando-se a tensões recorrentes entre os dois países, Paris condenou um ataque aéreo turco no Iraque, enquanto o presidente turco Recep Tayyip Erdogan acusou nesta terça-feira o líder francês Emmanuel Macron de possuir objetivos "coloniais" no Líbano, e chamou sua recente visita a Beirute de "espetáculo", neste contexto de tensões crescentes entre Ancara e Paris.

"O que Macron e companhia querem é restaurar a ordem colonial (no Líbano)", disse Erdogan durante discurso em Ancara. “Nós, o que nos interessa não é correr atrás de fotos ou atuar diante das câmeras”, provocou.

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