Acessar o conteúdo principal

Plataforma francesa cataloga compositoras de todas as épocas, em busca do "matriarcado musical"

Retrato da compositora Camille Pépin, repertoriada na ferramenta digital.
Retrato da compositora Camille Pépin, repertoriada na ferramenta digital. © Camille Pépin
Texto por: RFI
5 min

De Francesca Caccini, no século XVII, a Camille Pépin, no século XXI: uma nova plataforma digital francesa se propõe a listar as obras de mais de 700 compositoras mulheres para mostrar artistas há muito esquecidas.

Publicidade

Batizada de "Pergunte para Clara", em referência à Clara Schumann - brilhante pianista, compositora e esposa do famoso compositor - esta base de dados gratuita foi lançada em junho por uma equipe liderada por Claire Bodin, diretora do festival "Presenças femininas", dedicado a compositoras do passado e do presente.

“Desde a nossa infância, não ouvimos a música de mulheres compositoras, ou o fazemos tão raramente que praticamente não nos lembramos delas”, disse Bodin. “Nós, músicos, fomos alimentados pela ideia do gênio do grande compositor, sempre homem, sem nunca nos perguntarmos sobre o repertório das compositoras”, continua.

Esta ferramenta de catalogação e pesquisa, financiada pela ação cultural do Sacem (Sociedade dos autores, compositores e gravadoras de Paris), listou nada menos que 4.662 obras de 770 compositoras de 60 nacionalidades, de 1618 a 2020. O site (www.presencecompositrices.com) planeja adicionar 4.000 obras adicionais a partir de setembro, incluindo as de Hildegarde de Bingen (1098-1179), santa da Igreja Católica, e uma das primeiras compositoras conhecidas.

A pesquisa é feita por nome, título, instrumento, país ou época. Entre as mais velhas, as italianas Francesca Caccini - que teria sido a primeira mulher a compor uma ópera -, Isabella Leonarda e Barbara Strozzi, uma das primeiras compositoras profissionais, e também a francesa Elisabeth Jacquet de la Guerre.

A plataforma tem ainda muitas compositoras de países anglo-saxões, "muito mais avançados nesta área", disse ainda Bodin.

"Enriquecer o repertório"

Clara Schumann, uma das grandes compositoras mulheres de todas as épocas, embora desconhecida do grande publico.
Clara Schumann, uma das grandes compositoras mulheres de todas as épocas, embora desconhecida do grande publico. © Wikipedia

Trata-se de um projeto de investigação de longa duração que teve início em 2006 e que não foi lançado "porque está na moda". “Não se trata de reescrever a história, mas de enriquecer o repertório”, explica Bodin. “Não devemos falar delas simplesmente porque são mulheres, e para termos a consciência tranquila, mas porque há um real interesse artístico nelas”.

Para Bodin, cravista que deixou de lado a carreira para se dedicar a estes projetos, a não-programação das compositoras em grandes eventos continua a ser um grande obstáculo à divulgação das suas obras.

Nos últimos dez anos, ela tem dado conferências regularmente sobre o assunto e raros no público são aqueles que podem dar nomes além das "cinco maiores" compositoras conhecidas, como Clara Schumann, Fanny Mendelssohn, Lili Boulanger ou suas contemporâneas Betsy Jolas e Kaija Saariaho.

“Para grandes salas de concerto, existe aquela obrigação de lotar os teatros” que geralmente repousa sobre grandes nomes como Beethoven, Mozart, Tchaikovsky, Brahms ou Bach. “Só vemos o topo do iceberg deste problema, porque mesmo entre os homens há muitos outros compositores que merecem destaque”, lembra Bodin.

“Todo mundo tem que começar a programar compositoras femininas porque os artistas convidados, se não tiverem certeza de que outras grandes salas estão fazendo isso, hesitarão em tocar essas partituras compostas por mulheres”, diz Bodin.

“Presenças femininas”

Programado para março, o festival “Presenças femininas” foi adiado para outubro (de 12 para 20). Desde a sua criação, foram encomendadas sete obras de compositores, incluindo uma da jovem Camille Pépin (29 anos), que este ano se tornou a primeira compositora a receber um prêmio no tradicional evento francês "Victoires de la musique classique".

Para a sua edição de 2021, o festival lançou um concurso de projetos para a criação de um conto musical para jovens. Cécile Buchet conquistou o prêmio principal entre mais de 15 compositoras. Para Bodin, a promoção das compositoras também deve ser realizada nos dos conservatórios nacionais e regionais.

Entrevistada pela agência AFP em 2019, Camille Pépin havia indicado que era a única garota nas aulas de redação e orquestração no Conservatório de Paris. "Mas hoje os professores que encontro e os jovens músicos querem que as coisas aconteçam; existem suposições que são difíceis, mas começam a cair", disse na ocasião.

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.

Página não encontrada

O conteúdo ao qual você tenta acessar não existe ou não está mais disponível.