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“Não apenas Putin quer se livrar de Navalny”: opositor russo chega a Berlim

O oponente russo Alexeï Navalny, gravemente doente, chegou na manhã de sábado em um avião médico ao aeroporto de Tegel em Berlim para receber tratamento, apurou a Reuters no local.
O oponente russo Alexeï Navalny, gravemente doente, chegou na manhã de sábado em um avião médico ao aeroporto de Tegel em Berlim para receber tratamento, apurou a Reuters no local. REUTERS - ALEXEY MALGAVKO
Texto por: RFI
5 min

Enquanto o líder da oposição russa Alexei Navalny luta por sua vida, recém-chegado a um hospital em Berlim, sua família na Rússia denuncia um envenenamento. Todos os olhos se dirigem ao Kremlin, acusado periodicamente de mandar matar, muitas vezes usando substâncias tóxicas, seus inimigos. Para o professor de Relações Internacionais da Universida de Barcelona, Francesc Serra, Vladimir Putin não seria o único suspeito do suposto ataque.

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Alexei Navalny viajava da Sibéria para Moscou na quinta-feira (20) quando uma forte dor e desconforto o fizeram desmaiar no banheiro do avião. Foi necessário realizar um pouso de emergência na cidade de Omsk, e, a partir desse momento, o adversário  de Putin se encontra conectado a um respirador artificial em um hospital de Berlim, onde chegou neste sábado (22).

A ambulância que transportou Navalny foi escoltada pela polícia alemã desde o aeroporto Tegel, em Berlim, até o hospital da Charité, um dos mais prestigiados da Europa, como relataram repórteres da agência AFP. "O estado de Alexei Navalny é estável", disse Jaka Bizilj, chefe da ONG alemã Cinema for Peace, que fretou o avião para sua transferência para Berlim.

A direção do hospital comunicou à imprensa que os médicos realizarão um "diagnóstico médico global", que levará algum tempo, e só se pronunciarão depois deste exame detalhado. Sua família na Rússia garante que ele foi envenenado pelo governo de Vladimir Putin, mesmo que a equipe médica do hospital de Omsk tenha afirmado que não há vestígios de veneno no sangue de Navalny, mas sim vestígios de produtos químicos industriais em suas roupas e nos dedos.

A RFI conversou com Francesc Serra, professor de Relações Internacionais e especialista em assuntos russos da Universidade de Barcelona para entender melhor o caso. Na pauta, uma primeira pergunta inevitável: podemos ou não apontar uma responsabilidade do Kremlin na grave situação de Navalny?

“É verdade que os médicos particulares de Navalny não tiveram acesso ao paciente e, portanto, toda a informação que chega é aquela que foi despachada pelo próprio hospital, que pode estar ligada ao governo Putin. Mas isso ainda é especulação ”, diz Serra.

“Navalny é uma pessoa que se destacou nos últimos anos por suas denúncias contra o governo de Putin, mas também se concentrou nas amplas redes de corrupção política e econômica na Rússia. Tornou-se desconfortável para muitas pessoas, não apenas no governo, mas em muitas outras áreas. Putin estaria interessado em se livrar dele? Provavelmente. Mas muitas outras pessoas também estariam interessadas em se livrar dele. Com as informações que se têm até agora, seria uma grande especulação afirmar que Navalny foi envenenado por ordens do Kremlin ”, afirma.

Histórico de envenenamento

Esta não é a primeira vez que o governo Putin se envolve em acusações de envenenamento contra figuras que o deixam desconfortável: em 2006, o ex-agente de inteligência russo Alexander Litvinenko morreu envenenado em Londres. Seu nome já era conhecido desde 1998, quando, junto com outros funcionários da KGB, acusou publicamente seus superiores de ter ordenado o assassinato do magnata russo Boris Berezovski.

Em 2018, o ex-agente Sergei Skripal e sua filha Yulia foram gravemente intoxicados pelo Novichok, um produto químico de uso militar que afeta o sistema nervoso. Ambos sobreviveram ao ataque, mas não hesitam em acusar que foram alvo de uma tentativa de assassinato. Com este pano de fundo, a possível morte do adversário Alexei Navalny é um cenário que começa a ser analisado.

“Alguns observadores já sugerem que Putin está mais interessado na sobrevivência do que em tirar Navalny do seu pé, já que sua morte pode ter consequências sérias na atitude dos governos ocidentais em relação à Rússia e na reorganização da oposição dentro do país”, ressalta o professor Serra .

“Deve-se notar que a oposição russa é uma minoria e muito fragmentada. Na verdade, certos setores da oposição não seguem Navalny porque o consideram parte do establishment, um milionário, alguém que não pode ser um verdadeiro adversário”, enfatiza.

Um evento trágico como a morte de Navalny pode superar essa fragmentação? “É um cenário improvável na Rússia, mas em 20 anos a sociedade evoluiu e pode surgir uma situação de protestos, especialmente com o exemplo de Belarus logo ao lado”, acrescenta.

O grave estado de saúde de Alexei Navalny é assustador, mas não surpreendente: em 2019, ele já havia relatado ter sido envenenado pelas autoridades russas enquanto cumpria 30 dias de prisão. Ainda em 2017, foi atacado no rosto por uma substância verde que o fez perder a visão do olho direito.

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