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Líbano

Hezbollah dá prova de força ao derrubar governo libanês

O ministro libanês da Energia, Gebran Bassil (centro), aliado do Hezbollah, anuncia sua demissão durante coletiva em Rabieh, no Líbano.
O ministro libanês da Energia, Gebran Bassil (centro), aliado do Hezbollah, anuncia sua demissão durante coletiva em Rabieh, no Líbano. Reuters
Texto por: Taíssa Stivanin
6 min

A crise política aberta no Líbano com a saída do Hezbollah da coalizão de governo preocupa a Liga Árabe, a União Europeia e os Estados Unidos. Todos pedem uma solução negociada, a fim de evitar um novo confronto armado na região. Depois de ser recebido ontem por Barack Obama, na Casa Branca, o premiê libanês, Saad Hariri, é esperado hoje em Paris para um encontro com Nicolas Sarkozy.

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Os dez ministros do Hezbollah que integram o governo de coalizão no Líbano pediram demissão nesta quarta-feira, desencadeando uma nova crise política no país. Com a saída dos representantes do Partido de Deus e do ministro xiita Adnane Sayeed Hussein, a dissolução do governo foi imediata, já que, de acordo com a Constituição libanesa, o presidente Michel Sleimane deve formar um novo gabinete se mais de um terço dos membros deixam o cargo.

A chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, fez um apelo nesta quinta-feira para que as autoridades libanesas resolvam a crise por meio da negociação. Preocupada com a situação em Beirute, Ashton disse que o diálogo e a estabilidade são essenciais nesse momento, para garantir a proteção da população.

O presidente da Liga Árabe, Amr Moussa, chamou de "perigosa" a dissolução da coalizão de governo no Líbano e pediu que as partes em conflito evitem uma confrontação armada. "Nós devemos todos - árabes, europeus e americanos - trabalhar para que o Líbano tenha um governo estável", declarou o chefe da Liga Árabe.

O governo de Israel acompanha com atenção a evolução da crise no Líbano, principalmente a movimentação na fronteira norte entre os dois países, foco de confrontos frequentes com militantes do Hezbollah. Em julho e agosto de 2006, Israel entrou em guerra contra o movimento xiita. O Hezbollah lançou 4 mil foguetes contra o norte de Israel, obrigando mais de 1 milhão de libaneses a se refugiar em abrigos e fugir em direção ao sul do país.

Obama critica o Hezbollah

A demissão coletiva foi anunciada durante a visita do premiê libanês, Saad Hariri, à Washington, onde ele foi recebido pelo presidente Barack Obama na Casa Branca. Em um comunicado, Obama demonstrou claramente seu apoio a Hariri. "Os esforços do Hezbollah para dissolver o governo libanês apenas demonstram seu medo e a determinação a bloquear a capacidade do governo de administrar seus negócios e satisfazer as aspirações de todos os libaneses", diz o texto. Depois dos Estados Unidos, Hariri desembarca direto em Paris, onde se reúne com o presidente Nicolas Sarkozy nesta quinta-feira. Sarkozy também reafirmou seu apoio às autoridades e instituições libanesas.

Sentença sobre assassinato de Rafik Hariri é o estopim da crise

A decisão do Hezbollah é uma represália ao anúncio iminente do Tribunal Especial para o Líbano, criado pela ONU para investigar a morte do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri, assassinado em um atentado a bomba em Beirute, em 2005. O Tribunal deve em breve responsabilizar o Hezbollah pelo assassinato. O partido de Deus pediu a intervenção de Saad Hariri, filho do ex-premiê e atual chefe de governo, para evitar a acusação. Na terça-feira, o Hezbollaz deu um ultimato a Hariri. O Hezbollaz, que tem o apoio da Síria e do Irã, alega que os representantes do tribunal utilizaram falsos testemunhos e está a serviço de Israel e dos Estados Unidos.

A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, em viagem pelo Golfo Pérsico, iniciou uma cruzada diplomática para obter o consenso de responsáveis franceses, sauditas e egípcios para apoiar as decisões do Tribunal da ONU. Ela criticou o Hezbollah, dizendo que o partido quer prejudicar a "justiça e a estabilidade" no Líbano. O secretário-geral da ONU, Ban Ki Moon, também pediu calma. O chanceler britânico, William Hague, disse que a situação é grave e "pode trazer sérias implicações para o Líbano".

Diante da crise que se instalou no país, o primeiro-ministro Saad Hariri torna-se a partir de agora premiê em exercício, até a formação de um novo gabinete e a escolha de um novo primeiro-ministro depois de uma consulta parlamentar que será feita pelo atual presidente, Michel Sleimane. Hariri, que conta com o apoio ocidental, pode ser novamente nomeado.

Marcado por divergências, o atual governo de coalizão foi formado há pouco mais de um ano. Em 2008, uma crise política deixou o Líbano sem governo durante 18 meses e à beira da guerra civil. Os conflitos entre o Hezbollah e o Exército libanês, apoiado pelos americanos e sauditas, deixaram cerca de 100 mortos.

Imprensa reage com preocupação à crise no Líbano

A reação da imprensa libanesa nesta quinta-feira é unânime: a crise política está aberta. O diário inglês do país, The Daily Star, diz em sua manchete que o Líbano está entregue à incerteza. Para o jornal As Safier, próximo do Hezbollah, o país mergulhou em uma nova crise política e governamental "profunda e longa". O econômico Al Hayat é da mesma opinião, considerando que o Líbano se encontra face ao desconhecido e que é difícil saber quando o confronto vai chegar ao fim.

O matutino Al Akhbar, simpatizante do partido xiita, publica que a oposição encabeçada pelo Hezbollah já deixou claro ao presidente Michel Sleimane que não aceitará de forma alguma a volta de Hariri ao poder. O presidente se mantém neutro em relação aos dois lados.

Mais alarmista, o diário dos países árabes Asharq Al Awsat destaca que a hora do perigo soou no Líbano, estimando que a oposição conseguiu derrubar o governo, mas não poderá formar um novo sem Hariri, o líder sunita mais poderoso do país.

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