Tunísia/crise

Governo de transição se reúne em meio a protestos da população

A oposição tunisiana e os manifestantes pedem os oito ex-colaboradores de Ben Ali, sejam totalmente afastados do governo.
A oposição tunisiana e os manifestantes pedem os oito ex-colaboradores de Ben Ali, sejam totalmente afastados do governo. Reuters

Na Tunísia, foi aberto nesta quinta-feira o primeiro Conselho de ministros do governo de transição. A polêmica ainda é grande com a presença de diversos membros do antigo regime e cerca de mil manifestantes foram às ruas exigindo a sua partida. Os tunisianos reclamam a saída de diversos ministros do gabinete de Ben Ali, especialmente os das pastas-chave do Interior, Defesa e Relações Exteriores.

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Para atenuar a crise, todos os ministros do governo, membros do partido RCD do ex-ditador, pediram demissão do partido. Após o afastamento de vários de seus integrantes o RCD (União constitucional democrática, na sigla em francês) do ex-presidente Zine El Abidine Ben Ali anunciou a dissolução de seu escritório político.

"Devido à demissão de vários membros do escritório político, esta instância se encontra dissolvida e o secretário-geral Mohammed Ghariani está encarregado momentaneamente da gestão dos assuntos correntes do partido", anunciou o RCD em um comunicado enviado à agência oficial TAP.

Um ministro do novo gabinete, Zine El Abidine Ben Ali, Zouheir M'dhaffer, apresentou há pouco sua demissão oficial. Antigo presidente do Conselho Constitucional, ele era considerado um dos arquitetos da reforma da Constituição de 2002, por referendo, que suprimiu o limite dos mandatos presidenciais e permitiu a Ben Ali se manter no poder.

M'dhaffer declarou que se demitiu para preservar o interesse da nação e favorecer a transiçãoo democrática do pahis. Ele havia sido nomeado ministro encarregado do Desenvolvimento administrativo do governo de união nacional formado na segunda-feira pelo premiê Mohammed Ghannouchi.

O presidente interino Foued Mebazaa e o atual primeiro-ministro, Mohammed Gannouchi anunciaram recentemente que irão deixar o RCD, partido que dominou a vida política da Tunísia durante os 23 anos de governo ininterrupto de Ben Ali.

A oposição tunisiana e os manifestantes pedem que os oito ex-colaboradores de Ben Ali, inclusive o ex-primeiro-ministro e atual presidente Mebazaa, sejam totalmente afastados do governo. Mebazaa disse ontem que deseja uma ruptura completa com o passado e entre o Estado e o partido, mas parece não estar conseguindo convencer a população.

Em protesto contra a permanência de remanescentes do governo Ben Ali em cargos-chave do novo governo, como a Defesa, quatro ministros do governo interino oriundos da oposição já pediram demissão.

Fontes oficiais, citadas pela agência AFP anunciaram nesta quinta-feira que todos os ministros do governo de transição da Tunísia que fazem parte do partido do ex-presidente Ben Ali, o RCD, se retiraram da sigla nesta manhã.

Investigação

Nesta quarta-feira, em Tunis, a polícia repreendeu uma manifestação de cerca de 2 mil pessoas, entre as quais uma maioria de militantes islâmicos. Por todo o país, os protestos continuam reunindo milhares de pessoas.

A Justiça tunisiana abriu investigação sobre as atividades ilícitas cometicas por Ben Ali enquanto ocupava a presidência, ao longo de 23 anos. Nos últimos dias, 33 membros da família do ex-presidente já foram presos, suspeitos de crimes contra a Tunísia. As televisões do país exibiram imagens de dezenas de joias, relógios e cartões de crédito que foram apreendidos após as prisões.

Ben Ali continua foragido na Arábia Saudita para onde viajou após deixar o poder. França e a Suíça já anunciaram o bloqueio de eventuais contas bancárias que o ex-presidente deposto tenha nos dois países.

Liberação

O porta-voz do Partido Comunista dos Trabalhadores, Ammar Amroussia, detido no mês de dezembro durante uma manifestação no interior do país, foi liberado há três dias, de acordo com informações divulgadas pela advogada do militante.

Na quarta-feira, o jornalista e opositor ao regime de Ben Ali, Fahem Boukadous, condenado em julho a 4 anos de prisão em regime fechado, também foi liberado.
 

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