Egito/Crise política

Egípcios desafiam toque de recolher e protestam

Manifestantes enfrentam o exército nas ruas do Cairo, neste sábado.
Manifestantes enfrentam o exército nas ruas do Cairo, neste sábado.

Sem medo, o povo egípcio desobedece ao toque de recolher e ao pedido do exército para não manifestar. Neste sábado, milhares foram às ruas pedindo a demissão do presidente Hosni Moubarak. No plano político, Moubarak também nomeou um vice-presidente e um premiê, resultado das articulações para a formação de um novo governo.

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Milhares de egípcios desobedeceram ao toque de recolher neste quinto dia de revolta sangrenta contra o regime. O toque de recolher, instaurado na sexta-feira no Cairo, Alexandria e Suez, foi prolongado até este sábado e helicópteros sobrevoam a capital. Tanques blindados do exército estão nas ruas e os militares pedem para a população respeitar o toque de recolher e não se concentrar em lugares públicos. Mas o povo desafia o regime e continua a protestar.

No Cairo, três civis morreram e dezenas ficaram feridos, em choques com a polícia. Em Rafah, a sede do departamento de Segurança do estado foi atacada por manifestantes e três policiais teriam morrido, segundo testemunhas. Cerca de 60% das delegacias do país foram incendiadas, das quais 17 no Cairo.

O exército também pediu à população para se proteger dos saques, depois de diversos estabelecimentos comerciais, entre eles, um Carrefour, terem sido pilhados na capital e em outras cidades.

Jovens egípcios formaram uma verdadeira corrente humana em torno do museu do Cairo e comitês populares foram formados para tentar proteger a capital de ladrões e oportunistas.

Os serviços de telefonia celular e a Internet, cortados para impedir a comunicação entre os manifestantes, foram parcialmente restabelecidos neste sábado. A conexão à rede, porém, continua afetada.

O balanço do número de mortos desde o começo da rebelião popular é contraditório, o ministério da Saúde calcula 39 óbitos, os serviços médicos, 62, e outras fontes, 74.

Articulações políticas

E enquanto a rua grita sua revolta, o presidente Hosni Moubarak está sendo pressionado pelo opositor e Prêmio Nobel da Paz, Mohamed al-Baradei, para deixar o poder, depois de 29 anos de ditadura.

Depois de dissolver seu gabinete na sexta-feira, Moubarak realizou hoje uma reunião de emergência com seus colaboradores. O chefe dos serviços secretos, Omar Souleimane, prestou sermão como vice-presidente, primeiro posto desse tipo desde a chegada do presidente ao poder, em 1981. Já o líder do partido do governo, Ahmad Ezz, pediu demissão e o ex-ministro da Aviação Ahmad Shafic, tornou-se o primeiro-ministro .

O opositor Mohamed el-Baradei prometeu não descansar até a partida do presidente, enquanto a Irmandade Muçulmana, principal força da oposição, lançou um apelo por um governo de transição, sem a participação do partido do poder, que organize eleições honestas. O religioso mais influente do mundo árabe, o xeque Youssef Al-Qardaou, afirmou que apenas a saída de Hosni Moubarak poderá resolver a crise no Egito.

Temendo uma escalada da violência, a Bolsa de Valores e os bancos do Cairo não abrirão neste domingo.

Na noite de sexta-feira, depois de quatro dias de protestos que deixaram mais de 50 mortos, Hosni Moubarak anunciou a formação de um novo governo e prometeu reformas importantes. Essas promessas, porém, não convenceram um povo que luta por melhores condições de vida e liberdade de expressão, e combate diariamente a pobreza e o desemprego.

Comunidade internacional critica a violência

Desde o início dos protestos, quando as forças armadas começaram a atirar para matar nos manifestantes, diversos países pediram ao Egito para respeitar o direito do povo se expressar. Estados Unidos, Rússia e União Europeia pediram o fim das violências.

O presidente norte-americano Barack Obama conversou durante meia hora neste sábado com Hosni Moubarak, aconselhando-o a não recorrer à força contra manifestantes pacíficos.
 

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