Síria/ violência

Governo rejeita ingerência estrangeira e vê "guerra" contra Europa

O ministro sírio das Relações Exteriores, Walid Mouallem, durante coletiva de imprensa.
O ministro sírio das Relações Exteriores, Walid Mouallem, durante coletiva de imprensa. Reuters

O regime sírio reprovou a ingerência estrangeira na crise política que enfrenta há três meses e disse que considera as sanções econômicas aplicadas pela Europa como uma “guerra”. Nas ruas, a repressão dos protestos contra o presidente Bachar al-Assad permanece, com a prisão de 100 estudantes na capital, Damasco.

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“Ninguém do exterior deve nos impôr seu ponto de vista”, disse o ministro sírio das Relações Exteriores, Walid Mouallem, durante uma coletiva de imprensa hoje. “ Desde o início dos acontecimentos na Síria, nenhum responsável europeu veio para conversar sobre o que está acontecendo. Eles começaram a impôs uma série de sanções e hoje visam o ganha-pão dos sírios, o que equivale a uma guerra”, declarou.

O ministro afirmou que vai “esquecer que a União Europeia está no mapa” e disse que a Síria pretende congelar a participação do país na União Mediterrânea, um projeto que conta com forte apoio do presidente francês, Nicolas Sarkozy.

Mouallem fez ainda acusações diretas à França, um dia depois de o chanceler francês, Alain Juppé, ter dito que o presidente sírio “atingiu um ponto sem volta de uma violência alarmante” nos conflitos, que já provocaram mais de1,3 mil mortes, de acordo com organizações de Direitos Humanos.

“A França deve parar de praticar uma política colonialista sob o slogam dos Direitos Humanos”, argumentou Mouallem. “Juppé vive ainda ilusões da época colonial francesa. Ele não tem qualquer influência sobre a situação na Síria.”

Sobre os Estados Unidos, o ministro reclamou da pressa exigida pelos americanos para que o presidente al-Assad implante as reformas anunciadas. Ele disse que o regime está aberto ao diálogo com os opositores e negou que o país esteja recebendo ajuda do Irã ou do grupo libanês Hezbollah, seus principais aliados na região. O ministro voltou a atribuir os conflitos à rede terrorista Al Qaeda.

A oposição negou a proposta de diálogo e afirma que as propostas de reforma anunciadas na segunda-feira são insuficientes. Na terça, as forças de segurança invadiram a cidade universitária de Damasco e bateram nos estudantes, conforme testemunhas, e prenderam “mais de cem” jovens. Também ontem, em confrontos em outras cidades, cinco manifestantes foram mortos pela repressão dos protestos.

Intelectuais se manifestam

Nesta quarta-feira, um grupo de intelectuais pediu uma resolução da ONU contra a Síria. Bernard-Henri Lévy, Umberto Eco, David Grossman, Amos Oz, Orhan Pamuk, Salman Rushdie e Wole Soyinka assinaram uma carta-conjunta, publicada no site da revista Règle du jeu, de Bernard-Henri Lévy. Destinada aos embaixadores dos 15 países membros do Conselho de Segurança, a mensagem dos escritores é clara: “fazer parar os massacres” que estão acontecendo na Síria. “Seria trágico e inaceitável moralmente” que o projeto de resolução elaborado pela França, Grã-Bretanha, Alemanha e por Portugal acabe ”no lixo da renúncia”, afirma o grupo que assina o documento.

China e Rússia, membros permanentes do Conselho de Segurança, ameaçam vetar a resolução. Já os membros não permanentes Brasil, Índia e África de Sul expressaram ter sérias reservas ao projeto apresentado. O chanceler brasileiro, Antônio Patriota, anunciou nesta segunda-feira que o país não vai apoiar a resolução. No começo do mês, ele já havia afirmado que o Brasil não iria aceitar um documento similar ao aprovado há três meses contra a Líbia, que autorizou os ataques aéreos na região - nessa ocasião, o Brasil se absteve de votar.

Mas o governo francês continua firme no seu objetivo de convencer pelo menos dois dos três membros não permanentes. Paris afirma que o projeto só colocará o projeto para ser votado no Conselho de Segurança quando houver uma maioria que seja suficiente para aprová-lo.

Com a colaboração de Victória Álvares
 

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