Mali/Terrorismo

RFI divulga documento assinado por chefe da Al-Qaeda na África

O líder da Al-Qaeda do Magreb Islâmico, o argelino Abdelmalek Drukdel
O líder da Al-Qaeda do Magreb Islâmico, o argelino Abdelmalek Drukdel AFP PHOTO/HO

A RFI, em parceria com o jornal Libération, divulgou nesta segunda-feira a íntegra de um documento de 80 páginas assinado por Abdelmalek Drukdel, em que o chefe da Al-Qaeda do Magreb Islâmico (Aqmi) revela claramente os objetivos da organização no norte do Mali. O documento, encontrado no último dia 16 de fevereiro na cidade de Tombuctu, é surpreendente por não colocar a estratégia terrorista, mas a política, no centro das prioridades.

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No texto, Drukdel diz que o projeto islâmico na região do Azawad é um "recém-nascido, que deve passar por etapas antes de crescer". Ele usa a metáfora para introduzir a ideia de que é preciso manipular governos populares locais no norte africano e operar nos bastidores para constituir um emirado dirigido pela Aqmi, mas que não chame a atenção da comunidade internacional.

Em outras palavras, usar grupos locais como fachada para o projeto jihadista da Al-Qaeda: ganhar o apoio das populações locais e dar aos movimentos armados do norte africano a ilusão de controle político, enquanto articula o projeto "maior" no pano de fundo.

Para isso, Drukdel recomenda inclusive postergar a aplicação literal da sharia, a lei islâmica. A longo prazo, no entando, um Alto Conselho Islâmico se encarregaria de observar a sharia, além de manter o controle político. A serenidade desta transição em direção ao islamismo radical manteria a comunidade internacional afastada.

"A intervenção estrangeira será iminente e rápida se assumirmos o governo e afirmarmos claramente nossa influência", diz o texto. "O inimigo terá mais dificuldade de recorrer a esta intervenção se o governo contemplar a maioria da população do que no caso de um governo da Al-Qaeda ou de tendência salafista jihadista", completa.

Seus partidários, no entanto, não seguiram à risca a estratégia articulada por Drukdel. Ao que tudo indica, ele era contrário à intervenção dos jihadista em direção ao sul do Mali, que levou a França a interferir no país. A iniciativa foi tomada pela Ansar Dine, grupo financiado e controlado pela Al-Qaeda, que pretendia angariar territórios ao sul para pressionar o governo malês de transição a renunciar a região do Azawad.

A ocupação do sul do Mali mostra uma cizânia no interior da organização, já que os comandados intermediários do grupo se opuseram claramente à decisão do comandante. Ao longo do texto, ele se indigna com a ação, denuncia erros militares e políticos. Tudo solenemente ignorado, ao que tudo indica.

 

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