Quênia/Atentado

Famílias estão horrorizadas com identificação de mortos no Quênia

Funcionários da Cruz Vermelha ajudam familiares que chegam ao necrotério de Nairóbi para identificar vítimas do massacre da última quinta-feira, no Quênia.
Funcionários da Cruz Vermelha ajudam familiares que chegam ao necrotério de Nairóbi para identificar vítimas do massacre da última quinta-feira, no Quênia. REUTERS/Gregory Olando

O Quênia entra nesta segunda-feira (6) no segundo dia de luto nacional após o atentado que deixou 148 mortos na última quinta-feira na Universidade de Garissa. Cinco dias depois do massacre reivindicado pelos extremistas islâmicos da milícia Al-Shabab, várias famílias continuam sem notícias de seus parentes, como apurou a enviada especial da RFI, Sonia Rolley.

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Na sexta-feira, as autoridades quenianas decidiram transferir para a capital, Nairóbi, os sobreviventes feridos no atentado, assim como os corpos das vítimas, que passam por um longo processo de identificação.

A família de David Wafula, residente a 600 km da capital, chegou a Nairóbi um dia depois do ataque e até hoje está sem informações sobre o filho mais novo, Eliud Wafula. Inicialmente, as autoridades informaram que Eliud estava vivo. O pai do estudante relata que, quando deixou sua casa, no vale do Rift, se preparou "para o pior". "Mas tive uma boa notícia quando cheguei aqui e disseram que meu filho estava vivo", contou Wafula à enviada especial da RFI.

Corpos desfigurados

O problema veio em seguida: em vez de enviarem a família ao hospital, as autoridades encaminharam Wafula ao necrotério, sem maiores explicações. O filho mais velho, Steve, ficou traumatizado com o que viu no local.

"Fomos obrigados a ver todos os corpos que estavam lá. Foi horrível. Eu nunca vi coisa igual na minha vida. Mas como estávamos sem notícias do meu irmão, não tínhamos escolha. Eu não sei como vão identificar os corpos. A maneira como eles foram baleados, na minha opinião, torna a identificação impossível. Eles estão desfigurados."

Desfigurados a tal ponto que a família Wafula retornou ao menos três vezes ao necrotério, neste domingo, para ter certeza de que não deixou passar nenhum indício do corpo de Eliud. Agora, a única esperança da família Walud é que o corpo de Eliud seja reconhecido pela análise de DNA. Pai e filho, que não têm onde dormir em Nairóbi, ficarão na capital até que o corpo de Eliud seja localizado e identificado.

Terrorista identificado era advogado

A polícia do Quênia intensifica as buscas pelos autores do atentado. Ontem, um dos terroristas que participou do ataque foi identificado. O queniano de origem somáli Abdirahim Abdullahi, que morreu no confronto com a polícia, era bacharel em Direito e conhecido por ser um aluno brilhante.

O pai do jovem exerce um cargo importante na administração da província de Mandera, no nordeste do Quênia. Ele havia comunicado o desaparecimento do filho às autoridades locais em 2013. Na época, já se suspeitava que Abdirahim Abdullahi tinha abandonado a família e os estudos para integrar a milícia dos extremistas islâmicos Al-Shabab na Somália.

As autoridades quenianas tentam agora identificar os corpos de três outros homens suspeitos de participarem do ataque. Cinco supostos cúmplices estão detidos, dois deles estavam escondidos no campus da Universidade de Garissa portando armas e granadas. Outros três suspeitos foram presos tentando atravessar a fronteira para a Somália.

Resposta militar

Ontem, a Força Aérea queniana bombardeou dois redutos do grupo islâmico Al-Shabab na região de Gedo, na fronteira da Somália. Foi a primeira resposta militar ao ataque contra a universidade. Dois campos de treinamento dos rebeldes foram destruídos.

O presidente queniano, Uhuru Kenyatta, disse que está determinado a lutar contra o terrorismo, mas reconheceu que o combate é muito difícil, pois os extremistas estão muito bem integrados à comunidade queniana e, muitas vezes, são considerados como "pessoas comuns e inofensivas".

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