Turquia/HDP

Turquia abre processo contra líder do partido pró-curdo HDP

Selahattin Demirtas, líder pró-curdo da oposição, em entrevista para a Reuteurs, em Ancara. 30 de julho 2015.
Selahattin Demirtas, líder pró-curdo da oposição, em entrevista para a Reuteurs, em Ancara. 30 de julho 2015.

O governo turco continua apertando o cerco contra os curdos e seus simpatizantes, não apenas militarmente, mas também no front político. Nesta quinta-feira (30), as autoridades judiciárias abriram um inquérito contra Selahattin Demirtas, líder da sigla de esquerda pró-curda Partido Democrático do Povo (HDP). Ele é acusado de "perturbar a ordem pública" e "incitar a violência", de acordo com a agência governamental Anatólia, e pode ser condenado a até 24 anos de prisão.

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As suspeitas remontam a uma onda de protestos curdos, que terminaram com 31 pessoas mortas. Dado curioso é que a maioria das vítimas era curda e Selahattin Demirtas foi um dos líderes a fazer um apelo pela paz, quando dois prédios que abrigavam organismos ligados ao HDP foram incendiados na cidade de Gaziantep.

Apesar de estes fatos terem ocorrido em outubro de 2014, a Justiça curda só resolveu se interessar por eles agora, quando o governo conservador de Recep Tayyip Erdogan lança uma guerra implacável contra o Partido dos Trabalhadores Curdos (PKK) e tenta de todas as maneiras eliminar a participação de políticos pró-curdos.

Na terça-feira, ele pediu que o Parlamento acabe com a imunidade dos parlamentares ligados a "terroristas" e julgou que a continuidade do processo de paz com os separatistas é "impossível". Essas declarações visavam obviamente o HDP, a quem o presidente sempre acusou de manter ligações com o PKK, considerado como organização terrorista por Ancara e por seus aliados ocidentais.

Eliminar a oposição

O interesse de Erdogan em eliminar o HDP da cena política tem um fundo muito específico: o partido, depois de uma forte mobilização da esquerda nas redes sociais, ultrapassou a barra dos 10% nas eleições legislativas de 7 de junho e conseguiu entrar no parlamento, derrubando a maioria absoluta do AKP, partido do presidente. O chefe do Estado precisava dessa maioria para passar seu principal projeto: outorgar plenos poderes ao presidente da República. No parlamentarismo turco, o poder de fato é exercido pelo primeiro ministro.

Foi logo depois das eleições que o fogo do presidente se voltou contra Selahattin Demirtas. Mas nos últimos dias, a ofensiva tem se intensificado. Em visita à China, Erdogan declarou que o líder opositor "sabe seu lugar" e se referiu ao fato de que seu irmão, Nurettin, luta contra o grupo Estado Islâmico (EI) no Iraque, ao lado de combatentes do PKK.

"Ele é alguém cujo irmão obviamente cresceu nas montanhas", declarou, em referência às bases iraquianas da organização curda. "Ele correria para lá se tivesse a oportunidade". Demirtas afirma que não tem notícias de seu irmão e que não sabe sequer se ele está vivo.

Erdogan acusa frequentemente o HDP de ser representante político do PKK, algo que Demirtas desmente: "Não somos o partido do PKK, muito menos seu braço político; somos dois grupos diferentes", declarou o líder pró-curdo em entrevista divulgada pela agência France Presse minutos antes da abertura do inquérito contra ele.

Ataques contra EI são "fachada"

Nessa mesma entrevista, Demirtas também acusou o governo de usar os ataques aéreos e as batidas policiais contra o grupo Estado Islâmico como uma fachada para atacar seus verdadeiros alvos, os militantes curdos. Há quase uma semana, a força aérea turca vem atingindo alvos de militantes curdos dentro da Turquia e no norte do Iraque.

Curiosamente, são justamente os curdos que compõem a mais efetiva força terrestre no combate aos jihadistas. Atacá-los reforça o inimigo - se é que Erdogan considera o grupo Estado Islâmico inimigo. Na verdade, nos últimos meses, intensificaram-se as denúncias de que o governo turco colaboraria deliberadamente com a organização.

"Uns poucos bombardeios foram lançados pela Turquia contra alvos do EI só para fingir que eles estão atacando, depois acabou. Os tais suspeitos ligados à organização foram presos também como teatro em umas poucas operações e a maioria já está solta", afirmou Demirtas. De fato, fontes ligadas ao governo admitem que apenas 10% dos presos eram suspeitos de ter ligação com o grupo Estado Islâmico. Os outros 90% eram curdos.

Amálgama

Demirtas acusou ainda o presidente de minar o processo de paz ao igualar o EI e o PKK, dois grupos opostos entre si. Entrevistado pela RFI, o diretor do Instituto Curdo de Paris, Kendal Nezan classificou esse amálgama de absurdo: "Nós vemos o que é o grupo Estado Islâmico: decapitações, escravidão de mulheres... Colocar em um mesmo patamar esses jihadistas e os curdos que, há 30 anos, lutam pela obtenção de seus direitos culturais, pela autonomia regional, pelo ensino de sua língua nas escolas, que enfrentam na linha de frente o grupo Estado Islâmico e outras organizações, que defendem valores laicos, igualdade de gênero, direitos humanos, o pluralismo democrático, é totalmente chocante", afirmou.

Desde março de 2013, o PKK vinha respeitando uma trégua unilateral declarada pelo líder preso do movimento, Abdullah Ocalan. Os ataques dos militantes curdos contra as forças de segurança voltaram a acontecer depois que um atentado matou 32 militantes de esquerda na cidade de Suruç, na fronteira entre a Turquia e a Síria.

Eles se preparavam para partir em missão humanitária à cidade síria de Kobani, recém-retomada dos jihadistas pelos curdos, quando aconteceu a explosão, atribuída ao grupo Estado Islâmico. Depois disso, os protestos contra o suposto colaboracionismo de Erdogan com a organização, se degeneraram em ataques armados.

Processo de paz

Selahattin Demirtas admite que o processo de paz enfrenta uma "crise profunda", mas garante que ele ainda não acabou. "Dizer que o processo de paz está enterrado é contra o próprio espírito da paz. A paz virá cedo ou tarde". Mas, para que as condições de diálogo sejam criadas, "é preciso que as armas sejam silenciadas imediatamente" pelos dois lados.

Para Demirtas, toda essa crise é orquestrada deliberadamente pelo governo para reverter o resultado desastroso das eleições legislativas. Ele acusa a administração de manobrar para tirar o HDP do Parlamento e impor um governo de partido-único. "Essa guerra não visa proteger o solo nacional, mas o futuro do Palácio", declarou o líder pró-curdo, em referência ao polêmico palácio presidencial construído por Erdogan, que ocupa uma área de 200 mil metros quadrados, tem 1000 quartos ultraluxuosos e custou mais de US$ 350 milhões.

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