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Religião/ cristianismo

Por que o encontro do papa com o patriarca ortodoxo russo é histórico?

Patriarca Cirilo 1º, da Igreja Ortodoxa Russa, e o papa Francisco se reunião nesta sexta-feira, em Cuba.
Patriarca Cirilo 1º, da Igreja Ortodoxa Russa, e o papa Francisco se reunião nesta sexta-feira, em Cuba. Fotomongagem
Texto por: Lúcia Müzell
4 min

Foi preciso esperar quase mil anos para reunir frente a frente um líder católico romano e um ortodoxo russo. Não é à toa que o encontro que acontece nesta sexta-feira (12) entre o papa Francisco e o patriarca Cirilo 1º vai entrar para a história do cristianismo. Desde a Grande Cisma do Oriente, em 1.054, as tentativas de reaproximação das duas igrejas foram inúmeras, mas sempre esbarraram nas divergências entre o Vaticano e Moscou, tendo como pano de fundo os conflitos geopolíticos entre o Ocidente e o Oriente.

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As duas vertentes do cristianismo, bizantina e latina, se separaram por questões teológicas, mas também políticas, ligadas ao poder. Hoje em dia, a igreja ortodoxa russa tem 130 milhões de fiéis no mundo, e a romana conta com 1,2 bilhão.

Fazia décadas que o Vaticano buscava uma reaproximação, principalmente pela voz do papa João Paulo 2º. Mas as tentativas fracassavam diante da desconfiança dos ortodoxos russos, receosos quanto às intenções de Roma e reforçados pelo sentimento anti-ocidental do governo moscovita, após décadas de Guerra Fria.

Com o papa Francisco, a abordagem foi diferente. Uma das prioridades do pontífice argentino é aumentar o diálogo inter-religioso, inclusive entre as correntes do cristianismo. O líder católico já se encontrou várias vezes com o patriarca Bartolomeu, de Constantinopla, com quem alimenta uma relação cada vez mais próxima. Francisco tem dedicado bastante atenção às minorias cristãs do Oriente Médio e insiste sobre as perseguições na Síria e no Iraque.

Ucrânia: foco das discordâncias entre a Santa Sé e Moscou

Mas a aproximação com o patriarca russo é complexa desde a época da União Soviética e, mais recentemente, por causa do recente conflito na Ucrânia. Compreender o jogo de forças entre as igrejas católicas no país é fundamental para entender por que a ruptura persiste até hoje.

A Ucrânia tem um papel-chave na própria fundação da igreja ortodoxa de Moscou, mas também abriga a igreja greco-católica, perseguida por Stalin durante o comunismo e ligada ao Vaticano. A independência da Ucrânia em 1992 ainda resultou em uma terceira via, o patriarcado de Kiev, independente de ambos e que mantém uma relação conflituosa com a igreja russa.

As divergências religiosas se refletem no plano político: a primeira apoia o governo do presidente Vladimir Putin e suas inserções na Ucrânia, enquanto as duas outras sustentam a revolta ucraniana e são contrárias aos separatistas pró-russos, no conflito que já dura mais de dois anos.

Sob Francisco, a Santa Sé tenta manter uma postura neutra nesse contexto, alimentando uma boa relação com Moscou sem abandonar os cerca de 5,5 milhões de fiéis ucranianos. Uma atitude decisiva para a reaproximação foi o papa ter se distanciado da igreja greco-católica ucraniana, uma condição para que o patriarca ortodoxo da Rússia se abrisse, enfim, ao diálogo.

“Em nome dessa vontade de promover o diálogo, o papa pode colocar em segundo plano questões de solidariedade religiosa ou até éticas, para que os interesses da igreja católica sejam primordiais. Ele não quis se encontrar com o Dalai Lama, por exemplo, para não incomodar a China”, explica François Mabille, professor de Ciências Politicas da Universidade Católica de Lille e pesquisador sobre catolicismo, religiões e relações internacionais do CNRS, o respeitado Centro de Pesquisas Científicas da França.

Encontro pode favorecer diplomacia russa

Já o patriarca Cirilo 1º pode estar querendo ajudar a ofensiva diplomática da Rússia para sair do isolamento internacional depois da guerra na Ucrânia. Moscou foi alvo de duras sanções ocidentais e tem tentado voltar ao protagonismo pela atuação militar na Síria. A igreja ortodoxa é marcada pela defesa de uma civilização russa, que cai como uma luva na personalidade do presidente Vladimir Putin.

“Desde que Putin chegou ao poder, a igreja ortodoxa russa tem agido no softpower, usando a identidade ortodoxa para aumentar a influência cultural e política russas no exterior. Mas essa postura não é generalizada”, confirma Mabille. “No caso do conflito ucraniano, o silêncio do patriarca embaraçou os ortodoxos ucranianos e o próprio Putin, que esperava um apoio mais declarado da igreja na anexação da Crimeia.”

Preparação da reunião entre Francisco e Cirilo 1º durou dois anos

As condições mais propícias à retomada do diálogo entre ortodoxos e católicos romanos começaram a dar frutos há dois anos, quando a reunião entre os líderes máximos das duas igrejas passou a ser preparada, sob o mais absoluto sigilo. O local do reencontro, Cuba, foi escolhido por representar um país neutro, apreciado pelos dois lados. Uma coincidência na agenda dos dois líderes facilitou o acordo: o papa Francisco inicia visita ao México, enquanto o patriarca Cirilo 1º faz um giro pela América Latina. Um sinal de que o diálogo apenas recomeçou é que a reunião vai acontecer em pleno aeroporto de Havana, sem pompas nem cerimônias.

Ao final da conversa, eles vão assinar uma declaração conjunta, preparada minuciosamente durante todo o período de organização da reunião – em um contexto tao delicado, cada palavra do texto foi negociada. O próximo passo é um convite oficial para o papa ir a Moscou – o que seria a primeira visita de um líder católico romano à capital russa.

 

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