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Turquia

Erdogan é mais perigoso do que grupo EI, diz jornalista turco à RFI

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, durante discurso em Ancara no dia 26 de junho de 2016.
O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, durante discurso em Ancara no dia 26 de junho de 2016. Murat Cetinmuhurdar/Presidential Palace
Texto por: Daniella Franco
5 min

Um dia após o atentado terrorista que deixou mais de 40 mortos e 200 feridos no aeroporto de Atatürk, em Istambul, a Turquia tenta compreender e se recuperar da série de ataques dos quais vem sendo alvo. O governo atribui o massacre ao grupo Estado Islâmico (EI). Mas, para Kamil Ergin, jornalista turco radicado no Brasil, muito mais perigoso do que as violências impostas pelos jihadistas é o governo do presidente do país, Recep Tayyip Erdogan.

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Em menos de um ano, a Turquia foi palco de cinco atentados, criando um clima de caos no país. O pior ataque foi registrado na noite de terça-feira (28) no maior aeroporto turco, um dos mais importantes do mundo, por onde passaram, só em 2016, 60 milhões de passageiros. Três terroristas invadiram o saguão do terminal de voos internacionais do Atatürk-Istambul, onde promoveram tiroteios e detonaram bombas, provocando um verdadeiro massacre.

Embora o atentado ainda não tenha sido reivindicado, autoridades turcas e especialistas o atribuem ao grupo Estado Islâmico. Independente da autoria, os turcos responsabilizam o próprio governo pelas violências das quais vêm sendo alvo.

"Na minha opinião, Erdogan pode ser mais perigoso que o grupo Estado Islâmico", diz o jornalista turco Kamil Ergin, radicado no Brasil. Para ele, as decisões do presidente da Turquia têm gerado grande instabilidade no país, acentuando as tensões internas com os militantes curdos e abrindo espaço para a atuação dos jihadistas.

Ergin lembra as ambições do líder turco de mudar o sistema de governo do país do parlamentarismo para o presidencialismo "em que ele vai reunir todos os poderes, sem nenhum respeito ao sistema judiciário ou ao parlamento". "Infelizmente, a Turquia se tornou um país com um regime próximo à ditadura em que um homem só decide tudo", ressalta.

O jornalista também ressalta a censura que o regime do presidente vem impondo à imprensa do país. Ontem à noite, depois do atentado, a mídia turca não pôde divulgar informações sobre o ataque por proibição do governo. Redes sociais como Facebook, Twitter, Youtube e Instagram também foram bloqueadas, segundo o gabinete do primeiro-ministro Binali Yildrim, em prol da "segurança nacional e a ordem pública".

"A mídia foi totalmente controlada pelo governo. Infelizmente ser jornalista na Turquia se tornou muito perigoso. Os principais diretores de televisão e redação estão presos. Quem não faz autocensura é demitido, agredido ou preso", denuncia. O próprio Ergin decidiu finalizar sua colaboração como correspondente no Brasil da agência turca Cihan por não aceitar se submeter ao controle editorial do governo.

Parte dos turcos culpam Erdogam pelo atentado

O brasileiro Daniel Pereira é diretor de vendas de uma agência de viagens em Istambul e confirma a revolta da população contra Erdogan. "A principal reclamação é que o presidente apoia, de certa forma, o grupo Estado Islâmico. E quando o governo turco tenta se afastar, os jihadistas revidam."

Pereira atribui a Erdogan o aumento da tensão social com a minoria curda do país. Desde meados do ano passado, o governo turco passou a atacar os militantes curdos na fronteira com a Síria, sob a justificativa de combater o terrorismo. Soldados turcos teriam até mesmo se unido aos combatentes do grupo Estado Islâmico contra os curdos. Há rumores de que Ancara teria oferecido suporte logístico, dinheiro, armas, transporte e serviços médicos aos jihadistas. A situação inflamou a já conturbada relação do governo com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), autor de alguns dos ataques perpetrados no país nos últimos meses.

"A atenção do perigo do grupo Estado Islâmico foi desviada ao PKK. A tensão com os curdos é histórica, mas nunca esteve tão inflamada. Esse é o motivo de tanta insatisfação da população turca com o governo. Sinceramente, eu tenho mais medo de uma guerra civil na Turquia do que dos jihadistas", diz o brasileiro.

Atuação da Turquia no conflito sírio pode ter motivado atentado em Atatürk

Para Jean Marcou, professor da Sciences Po de Grenoble e especialista em política turca, não há dúvidas que o atentado desta terça-feira esteja relacionado à atuação e ao posicionamento da Turquia no conflito sírio e a desestabilização da relação com os curdos. "Durante um certo tempo, o país deu a impressão de ter relações ambíguas com o meio jihadista. Mas, há um ano, assistimos a uma mudança de posicionamento dos turcos, que começaram a bombardear setores na fronteira com a Síria, dominados pelo grupo Estado Islâmico, se aliaram à coalizão internacional e se posicionaram até mesmo como concorrente dos curdos no combate aos jihadistas", avalia.

Segundo Marcou, o objetivo do ataque em Atatürk é descontruir a imagem da Turquia como "um país internacional", para descredibilizar o país e atacar o turismo, um dos setores-chave da economia turca. "Esse é modo operatório típico do grupo Estado Islâmico. Realizar um atentado no maior aeroporto do país ressalta esse interesse dos jihadistas de mostrar que a Turquia não é uma nação segura e de convencer os turistas de não viajarem para lá. É uma forma de abalar não apenas a política, mas a economia local", analisa.

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