Iraque/Síria

Entenda a diferença entre os combates em Mossul e Aleppo

Vários bairros de Aleppo, principal metrópole econômica, cultural e cultural síria, foram bombardeados
Vários bairros de Aleppo, principal metrópole econômica, cultural e cultural síria, foram bombardeados REUTERS/Abdalrhman Ismail

Nos últimos dias tem se falado muito da tomada de Mossul e da ofensiva militar em Aleppo. No entanto, mesmo se o nome do grupo Estado Islâmico (EI) é frequentemente citado como sendo o principal inimigo, o contexto não é o mesmo nas duas cidades. Saiba o que está em jogo em cada um dos confrontos.

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Após uma trégua que durou apenas três dias, as forças de Damasco, com o apoio da Rússia, retomaram os ataques contra a cidade síria de Aleppo em 23 de outubro. Ao mesmo tempo, a ofensiva da coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos para a tomada de Mossul, no Iraque, entra em sua segunda semana. Em ambos os casos, os confrontos têm como palco grandes cidades sunitas controladas oficialmente por xiitas, grupos armados influenciados por tendências religiosas e uma coalizão internacional que intervém ao lado das forças locais. As consequências concretas desses dois cenários também são as mesmas, com civis em risco, muitas vezes servindo de escudo humano entre grupos rivais. Porém, como ressalta Karim Pakzad, pesquisador do Instituto de Relações Internacionais Estratégicas (IRIS, na sigla em francês) vários pontos separam essas duas guerras.

Inimigos diferentes em Aleppo e Mossul

Em Mossul, cidade com população de maioria sunita, as forças de Bagdá e a coalizão internacional combatem um único alvo: o grupo Estado Islâmico. Em 2014, o grupo jihadista sunita expulsou, sem muita dificuldade, o exército iraquiano, composto basicamente de soldados xiitas. Desde então, o homens do EI extorquem dinheiro da população, em uma prática que ajudou a encher os cofres da organização terrorista.

“Mossul é considerada pelos extremistas a capital do EI no país. Se o exército iraquiano conseguir conquistá-la, isso significaria o fim da presença militar dos jihadistas no Iraque”, explica o especialista. “Mas essa vitória seria apenas do ponto de vista militar, pois o EI ainda tem uma influência enorme entre os árabes sunitas iraquianos”, comenta Pakzad.

Já na Síria, a situação é mais complexa. Desde o início da ofensiva dos rebeldes, em 2013, quando os opositores ao regime de Bashar al-Assad tomaram o leste de Aleppo, a segunda maior cidade do país está dividida ao meio. “Principal metrópole econômica, cultural e cultural síria, ela é muito importante para Damasco e para a oposição. Dizemos frequentemente que quem controla Aleppo, controla toda a Síria”, explica o especialista.

No entanto, mesmo se entre os combatentes “há grupos da oposição que são apoiados pelo ocidente, a organização mais importante e dominante na cidade é a Fath Al-Cham, formação que antes se chamava Al-Nosra e que, originalmente, era o braço sírio do grupo terrorista Al Qaeda”, analisa o especialista. Por essa razão, “os ocidentais, e principalmente os norte-americanos, não falam diretamente de defender a oposição em Aleppo, e preferem alegar razões humanitárias e a proteção dos civis bombardeados” lançados por Damasco com o apoio de Moscou.

O papel da Turquia

A Turquia pede com insistência para estar associada à ofensiva contra a cidade de Mossul, afirmando que a presença dos extremistas do outro lado de sua fronteira representaria uma ameaça. O governo turco também teme que o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), protagonista de um conflito com Ancara há 30 anos, consolide suas posições no norte iraquiano.

Porém, como lembra o pesquisador do IRIS, a participação de Ancara no conflito da região também está ligada a outros interesses. Como parte do norte do Iraque integrava o extinto Império Otomano até a Segunda Guerra Mundial, vários representantes políticos turcos ainda consideram que Mossul e parte do norte iraquiano pertencem a Ancara. “Essa não é o opinião oficial do governo, que prefere alegar estar defendendo as turcomenos no Iraque, comunidade que etnicamente e linguisticamente turca, e que estaria em perigo”, lembra Pakzad. Mas o sonho de se construir ou não um “novo Império Otomano” ainda paira na cabeça de alguns turcos.

Já na Síria, desde o momento que a contestação ao regime de Damasco se tornou um movimento armado, em 2011, a Turquia interveio apoiando a Irmandade Muçulmana, que era, na época, uma das organizações importantes da oposição no território sírio. “O regime islâmico da Turquia viu nessa ocasião uma oportunidade de tentar levar a Irmandade Muçulmana ao poder na Síria, se tornando uma potência dominante na região”, analisa Pakzad. “Isso também correspondia ao momento em que Ancara via suas relações se deteriorar com Israel, com o Egito e com a Líbia. Erdogan pensava que, ao marcar pontos na Síria, seu país seria novamente uma grande potência na região.”

A participação turca também levanta o papel dos curdos, um povo sem país que vive principalmente em partes da Síria, do Iraque e da Turquia, e está no fogo cruzado da guerra. O grupo tradicionalmente reivindica uma região autônoma nas áreas em que são maioria, o chamado Curdistão.

A guerra contra o EI fez com que as forças curdas ganhassem o apoio dos ocidentais e algumas vitórias, como nas cidades de Kobane e Tal Abyad, alimentam a esperança de independência dos curdos.

Papel da Rússia e dos Estados Unidos

Os Estados Unidos orquestram a tomada de Mossul e também lideram a ofensiva em Aleppo. No entanto, se no Iraque Washington atua ao lado do governo de Bagdá, no caso sírio, os norte-americanos se opõem ao regime de Damasco, que conta com o apoio russo na luta contra os opositores de Bashar al-Assad.

A participação russa no conflito sírio é fortemente condenada pela comunidade internacional, que critica seu papel de aliado do presidente Assad, apontado como responsável direto pela morte de 400 mil pessoas e por um êxodo de mais de 5 milhões de moradores. Moscou é acusada contribuir nos ataques contra a população síria, enquanto o Kremlin afirma que os ocidentais estariam fazendo o mesmo no Iraque.

Nessa terça-feira (25) o chefe da diplomacia russa, Sergueï Lavrov, fez novamente um paralelo entre a ofensiva ocidental em Mossul e os ataques que Moscou tem realizado em Aleppo. Em conversa telefônica com o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, o representante de Moscou disse que a coalizão estava preparando uma operação para libertar a cidade iraquiana. Em resposta, o representante de Washington deixou claro que são duas posturas diferentes. “Em Mossul, nós planificamos tudo com antecedência, enquanto que, em Aleppo, vocês não prepararam nada e a população está sofrendo”, disse Kerry.

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