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O Mundo Agora

Divergências entre líderes abrem perspectivas de futuro para Otan

Áudio 04:32
Desde a queda do Muro de Berlim e o fim da Rússia comunista, a Otan não conseguiu encontrar uma nova função.
Desde a queda do Muro de Berlim e o fim da Rússia comunista, a Otan não conseguiu encontrar uma nova função. REUTERS/Johanna Geron
Por: Alfredo Valladão
9 min

Na era do Twiter, os chefes de Estado perderam a compostura verbal. O presidente francês, Emmanuel Macron, saiu declarando que a Otan estava em estado de “morte cerebral”, para depois bater no presidente turco, Recep Erdogan, também membro da Otan, pela sua ofensiva na Síria. Erdogan retrucou com argumentos de recreio escolar: “morte cerebral” é a sua!

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Uma organização militar onde velhos aliados trocam insultos publicamente não anda bem das pernas. Sobretudo depois dos ataques lançados pelo próprio manda-chuva da aliança, o presidente americano, Donald Trump. A Otan tem toda pinta de estar se desmanchando devagar. Uma perspectiva alvissareira para todos adversários do dito “bloco ocidental”: a Rússia de Putin, a China de Xi Jinping e os pequenos regimes autoritários antiocidentais do planeta.

Mark Twain já dizia: “O anúncio da minha morte foi levemente exagerado”. Mas não há dúvida de que essa instituição de segurança, que aguentou o tranco da Guerra Fria e derrotou a União Soviética, está meio doente. Desde a queda do Muro de Berlim e o fim da Rússia comunista, a Otan não conseguiu encontrar uma nova função – apesar de um sem-número de reuniões e reformas internas. Essa incerteza geral, alimentada pela atitude cada vez mais hostil da Casa Branca, está colocando os membros europeus contra a parede.

A Europa habituou-se à proteção do guarda-chuva militar americano. Qualquer problema e a cavalaria do Tio Sam viria socorrê-la. Esse seguro de vida – bastante caro para os contribuintes americanos – permitiu que os europeus pudessem se concentrar em bombar o crescimento econômico, montar um generoso sistema de vantagens sociais e avançar na construção da União Europeia. Só a França e o Reino Unido continuaram gastando para manter os seus poderios militares. O resto se contentou em entregar sua segurança aos Estados Unidos. Mas hoje, Washington não está mais a fim de continuar bancando essa conta.

Os europeus estão tomando consciência de que estão cada vez mais sozinhos. E que se não começarem seriamente a construir – e pagar – um sistema de defesa europeu, não vai ser mais o cachorro Rin-Tin-Tin que vai tirá-los do buraco. Mesmo se os americanos não acham a mínima graça na ideia de uma Europa da defesa independente deles.

A Alemanha é a chave de uma futura defesa europeia

No dia 1° de dezembro, tomou posse a nova Comissão Europeia, presidida pela alemã Ursula von der Leyen. Ela já anunciou que a questão da defesa europeia é prioritária. Alguns passos já haviam sido dados: maior coordenação em matéria de cibersegurança, um fundo europeu de defesa para financiar a pesquisa nas tecnologias militares ou uma estrutura de comando comum para o gerenciamento de crises. Mas ainda estamos muito longe de uma estrutura militar conjunta ou até de uma aliança europeia tão eficiente quanto a Otan.

Na verdade, cada país quer conservar a sua plena soberania sobre suas Forças Armadas e sobre a sua estratégia militar e diplomática. Por enquanto, não há nenhuma visão comum entre os diversos países sobre as prioridades de segurança. Os países do sul da Europa estão muito mais preocupados com os acontecimentos no Mediterrâneo e no Oriente Médio. Enquanto a Europa do Leste só pensa na ameaça russa, e a Europa do Norte não quer saber de perder o guarda-chuva americano.

A Alemanha é a chave de uma futura defesa europeia, mas nem os alemães nem os seus vizinhos estão muito confortáveis com a perspectiva de uma potência militar alemã. A França, que ainda assume intervenções na África e no Oriente Próximo, quer acelerar a construção de uma defesa comum, achando que no final das contas é ela que terá um papel dominante. Só que os outros não estão a fim de ter que obedecer aos franceses e ainda preferem a arrogância americana. No frigir dos ovos, e apesar dos tuítes e insultos, a Otan parece ter ainda boas perspectivas de vida pela frente.

* Alfredo Valladão é professor do Instituto de Ciências Políticas de Paris e assina uma crônica semanal de geopolítica às segundas-feiras na RFI

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