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O Mundo Agora

Complexidade do conflito líbio dificulta qualquer saída para paz

Áudio 04:46
Membro das forças de segurança posicionado nos arredores de Tajura, no leste de Trípoli, em 30/12/2019.
Membro das forças de segurança posicionado nos arredores de Tajura, no leste de Trípoli, em 30/12/2019. ©REUTERS/Ismail Zitouny
Por: Alfredo Valladão
9 min

A Alemanha saiu do armário e assumiu a responsabilidade de convocar uma conferência internacional em Berlim para tratar dos conflitos na Líbia – um país destruído pela guerra sem a mínima perspectiva de solução. É muita areia política para o caminhãozinho alemão.

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A Líbia é quase só um deserto sem importância, se não fosse o seu petróleo de muito boa qualidade abastecendo os países europeus. E também os milhares de emigrantes e refugiados africanos fechados em campos de internamento desumanos.

Sem uma autoridade política na Líbia, os europeus podem ter que enfrentar, de novo, uma maré humana tentando passar para o Velho Continente. Sem falar na possibilidade de o território líbio virar uma base ainda maior para os terroristas islâmicos.

Mas o problema não são só as diversas milícias e pseudo-exércitos líbios. Uma série de atores estatais externos estão metendo o dedão nesse puré indigesto: Rússia, Turquia, Egito, Emirados Árabes, Catar, França.... Cada um apoiando um dos lados do conflito. Sem falar da ONU que reconhece o governo de Trípoli, mas que não tem a mínima condição, militar ou econômica, de ter um peso real no processo.

Não é por acaso que a reunião de Berlim anunciou objetivos mais do que modestos: tentar consolidar um cessar-fogo declarado há poucos dias e negociar um consenso mínimo sobre as regras do jogo diplomático daqui para diante.

Na verdade, a falta de interesse dos Estados Unidos de cumprir o papel de “polícia” na região abriu uma avenida para todas as outras potências médias interessadas no assunto. Mas a Líbia virou um tabuleiro geopolítico tão complexo que vai ser difícil inventar um fim de jogo que traga de volta alguma forma de paz.

Desde de sempre, o país está dividido entre a Cirenaica no Leste e a Tripolitânia no Oeste e a Fazânia no Sul. Só o coronel Gaddafi, com mão de ferro, conseguiu manter um Estado unificado de verdade. Hoje, a velha realidade se impôs novamente.

O marechal Khalifa Haftar é o maior chefe militar do Leste. Com o apoio de mercenários russos, do Egito, dos Emirados Árabes e – mais discreto – da França, ele lançou uma ofensiva para conquistar a capital Trípoli no Oeste. Do outro lado, o Governo de Unidade Nacional de Fayez al-Sarraj, encurralado na capital, pediu auxílio à Turquia que acaba de mandar 2.000 soldados para conter o avanço das milícias e tropas de Haftar. É muita gente armada num território só.

Mas o problema não é somente saber quem vai mandar no governo líbio. Os países árabes que apoiam Haftar, sobretudo o Egito, são inimigos figadais da seita sunita da Irmandade Muçulmana que controla o governo de Trípoli. Enquanto a Turquia de Tayyip Erdogan, quer aparecer como o grande protetor da Irmandade Muçulmana em toda a região, junto com o Catar.

Disputa por recursos naturais

Infelizmente, a confusão não para aí. Foram descobertas importantes reservas de gás natural nas águas do Mediterrâneo oriental. Israel, Egito, Chipre e Grécia já se entenderam para explorá-las e construir um gasoduto para abastecer a Europa.

A Turquia quer um pedaço desta riqueza e assinou um tratado de fronteiras – que não respeita o direito internacional – com o governo de Trípoli. Só que a fronteira desenhada impede a construção do gasoduto dos outros países. E o marechal Haftar já declarou que não respeitaria o tratado com os turcos. Enquanto Moscou, por seu lado, tenta por mais um pé na África.

Vai ser difícil resolver todas essas pendengas religiosas e geopolíticas em Berlim. Haftar e al-Sarraj não querem nem sentar na mesma mesa. Sem os Estados Unidos, está faltando um poder capaz de garantir uma saída multilateral e impor uma solução. O secretário de Estado americano, decidiu sentar na mesa de Berlim. Mas não é para impedir uma guerra de todos contra todos. É só para garantir que os diversos participantes vão continuar respeitando os interesses diretos de Washington.

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