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O Mundo Agora

China está longe de ser uma superpotência mundial

Áudio 04:49
Com uma máscara de proteção improvisada, morador de Xangai circula próximo a local com grafite do presidente chinês, Xi Jinping.
Com uma máscara de proteção improvisada, morador de Xangai circula próximo a local com grafite do presidente chinês, Xi Jinping. EUTERS/Aly Song
Por: Alfredo Valladão

A China está escorregando e o Partido Comunista Chinês (PCC) de Xi Jinping está em apuros. Nos últimos anos, Xi consolidou um poder quase absoluto. Eliminou ou calou seus principais adversários internos com uma feroz campanha anticorrupção.

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Xi estabeleceu um controle meticuloso da economia e da informação. Lançou uma ofensiva internacional com a sua nova Rota da Seda. Decidiu criar a toque de caixa Forças Armadas modernas, para intimidar os vizinhos e tentar enfrentar a presença americana na região. E saiu vendendo o modelo autoritário chinês para o resto do mundo. Melhor ainda: uma mudança na Constituição lhe abriu o caminho para um mandato vitalício a secretário-geral PCC.

O problema com tanta centralização do poder é que, quando as coisas vão bem, tudo bem. Mas, quando vão mal, é o chefe e a organização inteira que são acusados de incompetência. O dito “sonho chinês” de Xi está fundado em três alicerces: manter a qualquer custo o poder absoluto do PCC, garantir a unidade nacional de um país extremamente diverso, e assegurar um poderoso desenvolvimento econômico. Com o sumiço da ideologia comunista, a única legitimidade do Partido é distribuir benesses de um forte crescimento econômico para uma boa parte da população e sobretudo para os quadros e responsáveis políticos comunistas. Sem uma economia bombando, todo o resto acaba se desmilinguindo.

Epidemia mexe com a credibilidade do governo

Não há dúvida de que a epidemia de coronavírus abalou a credibilidade dos dirigentes chineses. As redes sociais se encheram de protestos depois da morte do jovem médico que, junto com poucos outros, foi um dos primeiros a alertar o país do perigo sanitário. Esse primeiro grupo de médicos foi reprimido pelas autoridades que consideravam que estavam espalhando “notícias falsas”. Resultado: os governos locais e o governo central de Beijing só começaram a tomar providências com dois meses de atraso. Hoje, a epidemia
já causou mais mortes que o grande surto de SRAS em 2002.

Milhões de pessoas – e até cidades inteiras – estão confinadas, com pesadas consequências humanas e para a atividade econômica. Num sistema autoritário, onde tudo vira segredo de Estado, os responsáveis locais morrem de medo de dar notícias ruins para os escalões superiores. No final, é o Partido inteiro e seu líder que aparecem como incompetentes aos olhos dos cidadãos.

Pressão política

Esse rechaço da incompetência governamental vem na esteira da imensa revolta democrática da população de Hong Kong que não quer saber do autoritarismo do Partido Comunista. Diante da determinação da juventude, o governo de Hong Kong, pilotado por Beijing, não conseguiu nem impor sua vontade, nem acabar com a contestação. Um exemplo que poderia inspirar os habitantes das grandes cidades chinesas continentais e que já desembocou, em Taiwan, na eleição de uma presidente favorável a manter a independência da ilha com relação à China. Complicou-se a tarefa de garantir a unidade nacional.

Como uma desgraça nunca vem sozinha, o crescimento da economia chinesa vem sofrendo a pior freada dos últimos 30 anos e a crise do coronavírus vai piorar a situação. Dentro do PCC e na academia, já tem gente achando que Xi Jinping administrou muito mal a guerra comercial com os Estados Unidos. E que a hostilidade cada vez mais dura de Washington, tanto no comércio de bens quanto na produção de novas tecnologias de ponta, está minando seriamente a performance econômica do país. Sem ela, o sonho de grandeza chinês pode ir para a cucuia e o Partido vai junto.

Se a coisa não melhorar claramente, Xi vai certamente ter que segurar muito a barra para poder ser reeleito secretário-geral no 20° Congresso do Partido, em 2022. Quanto mais rígido o sistema, mais o dirigente máximo aguenta, mas também pode cair, de repente, quando a máquina emperra. A China ainda está longe de ser uma superpotência mundial.

* Alfredo Valladão é professor do Instituto de Ciências Políticas de Paris e publica uma coluna semanal de geopolítica, às segundas-feiras, na RFI Brasil

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