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Linha Direta

Encruzilhada do Diamond Princess: fim da quarentena eleva medo de propagação mundial do coronavírus

Maior foco do coronavírus fora da China, o navio Diamond Princess iniciou o desembarque de passageiros após 16 dias ancorado no Japão
Maior foco do coronavírus fora da China, o navio Diamond Princess iniciou o desembarque de passageiros após 16 dias ancorado no Japão REUTERS/Athit Perawongmetha
Por: Juliana Sayuri
7 min

Dos 3.711 turistas e tripulantes isolados entre 3 e 19 de fevereiro no Porto de Yokohama, 600 diagnosticados negativos para Covid-19 foram liberados até esta sexta-feira (21), o que vem despertando controvérsias e críticas alarmantes no arquipélago: teme-se a disseminação do vírus, que pode ficar incubado até 24 dias no corpo humano. O diagnóstico positivo de dois cidadãos da Austrália que estavam a bordo do navio e foram liberados para voltar para seu país corrobora esse receio. Até agora, foram confirmados a contaminação de 624 passageiros a bordo e a morte de dois idosos japoneses que estavam a bordo.

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Correspondente da RFI no Japão

Após um tour de 14 dias cruzando a Ásia, conduzindo 2.666 passageiros e 1.045 tripulantes, o navio Diamond Princess ancorou no Porto de Yokohama no dia 3 de fevereiro – e lá ficou, isolado depois do diagnóstico positivo para Covid-19 de um passageiro de 80 anos, que passou 5 dias no cruzeiro, em Hong Kong.

Diante da escalada de novos diagnósticos a bordo (624 até a última atualização), o gigante grand-class da companhia anglo-americana Princess Cruises se tornou símbolo do surto de coronavírus no Japão – uma versão flutuante de Wuhan, o epicentro do surto na China.

Na encruzilhada entre pressões para liberar confinados (sentindo-se como “animais enjaulados”, como reportou a enviada especial da RFI a Yokohama, Angélique Forget) e frear infecções no território japonês, tornou-se também um tipo de experimento pré-olímpico de administração de crises para as autoridades: apesar de um novo estudo indicar que o vírus pode ficar incubado por até 24 dias no corpo humano, 600 passageiros foram liberados para desembarcar depois de 16 dias de quarentena, o que vem despertando controvérsias e críticas alarmantes no arquipélago asiático, que se prepara para receber milhares de visitantes estrangeiros para os Jogos Olímpicos de Tóquio.

O desembarque discreto, conforme relatou o correspondente da RFI Bruno Duval, iniciou com certo atraso no dia 19. As autoridades japonesas não impuseram restrições de trabalho, viagem ou convívio social aos passageiros liberados, que foram levados de ônibus fretados para aeroportos e estações próximas para, enfim, voltar para casa – o cruzeiro conduzia turistas e tripulantes de 57 países, o que vem levantando preocupações sobre o risco de novas transmissões do vírus mundo afora. Um receio que aumenta após dois cidadãos da Austrália, que estavam a bordo do navio de cruzeiro "Diamond Princess" e, testados negativos, foram liberados para voltar para seu país de origem. Eles foram diagnosticados com o novo coronavírus, informaram nesta sexta-feira (21) as autoridades de saúde australianas.

À deriva

Alvo de críticas, o primeiro-ministro Shinzo Abe não deu nenhuma entrevista à imprensa internacional desde o desembarque do Diamond Princess. “Tirar folga e abster-se de sair de casa se desenvolverem sintomas semelhantes a gripe, como febre”, limitou-se a recomendar o premiê aos japoneses na terça-feira (18). Este também foi o tom do ministro Katsunobu Kato, que orientou “evitar encontros não-urgentes, não-essenciais”.

As declarações vagas vêm inquietando o país, que contabiliza 692 casos de Covid-19 (624 deles do Diamond Princess) e três mortes (duas de idosos presentes no cruzeiro), o maior foco fora da China. Críticos destacam que o governo japonês não está endereçando respostas diretas ao surto, minimizando riscos de novos contágios – segundo o porta-voz Yoshihide Suga, a situação estaria “sob controle”.

Mas, diferentemente do Japão, Austrália, Canadá, Estados Unidos e Hong Kong determinaram mais 14 dias de quarentena aos passageiros regressos do cruzeiro. O Centro para Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos – CDC destacou o “esforço extraordinário” das autoridades japonesas, mas questionou se a quarentena foi suficiente. Liberados antes do fim da quarentena do navido, em uma operação para resgatar cidadãos dos Estados Unidos a bordo, 14 passageiros americanos manifestaram sintomas na segunda (17). “O índice de novas infecções a bordo, especialmente entre assintomáticos, representa um risco em andamento”, declarou a agência americana.

Políticos, médicos e acadêmicos japoneses também criticaram a administração da crise. “O navio era totalmente inapropriado para o controle da propagação de infecções. Os burocratas estavam encarregados de tudo”, criticou Kentaro Iwata, da Universidade de Kobe, que passou um dia como médico voluntário no Diamond Princess e descreveu a situação como “caótica” num vídeo que viralizou no YouTube.

“Se um dos 500 passageiros liberados estiver infectado, não conseguiremos conter o vírus”, declarou Kazunori Yamanoi, parlamentar do Partido Democrata. “A propagação do coronavírus é maior do que o governo divulga”, sinalizou Shinichi Niwa, professor da Universidade Médica de Fukushima, à Reuters. “Ninguém pode prever se o surto se prolongará até a Olimpíada. Devemos assumir que o vírus já está se espalhando no Japão”, declarou Shigeru Omi, ex-diretor regional da OMS à AP.

Fora da rota

O impasse do Diamond Princess despontou como a ponta do iceberg no Japão. Estima-se que o arquipélago deva enfrentar impactos econômicos, implicações olímpicas e desvios de rota para conter a crise.

O governo japonês cancelou as comemorações oficiais do 60º aniversário do imperador Naruhito, marcadas para domingo (23), por exemplo, temendo a disseminação do novo coronavírus na festividade que esperava milhares de espectadores. A Maratona de Tóquio, marcada para 1o de março, foi limitada e liberada apenas a 206 atletas profissionais (uma prova pré-olímpica), proibindo a participação de 38 mil amadores inscritos, também por conta da possibilidade de contágio do Covid-19.

Apesar dos imprevistos, organizadores vêm veementemente negando alterações no calendário olímpico. A 154 dias do início dos Jogos, não há “plano B” no horizonte.

Entretanto, a indústria turística já foi abalada: segundo a Organização Internacional da Aviação Civil das Nações Unidas, o país pode perder US$ 1,29 bilhão (R$ 5 bilhões) neste primeiro trimestre de 2020. Um dos destinos favoritos de férias de turistas chineses, o Japão perdeu viu o número de voos encolher cerca de 30%.

Medo de nova recessão

Assim, vem crescendo o temor de uma nova recessão econômica: terceira potência mundial, o país teve queda brusca de 6,3% para 1,6% no PIB do último trimestre de 2019. Além de alta de impostos, impactos provocados por recentes tufões e investimento bilionário na Olimpíada, o coronavírus é um fator a mais a pesar nessa conta – o governo vai destinar ¥15,3 bilhões (R$ 600 milhões) para combater a epidemia.

Em uma conferência nessa quinta-feira (20), o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, lamentou a baixa adesão de países para angariar US$ 675 milhões (R$ 2,8 bilhões) para coordenar ações relacionadas ao coronavírus, “um inimigo muito perigoso” nas suas palavras. Sem minimizar a seriedade da “emergência global”, a OMS destaca que mais de 80% dos casos são leves e a taxa de mortalidade é muito baixa, de 0,2% até 39 anos. Segundo os números mais recentes da OMS, 75 mil casos de Covid-19 foram relatados até agora no mundo, totalizando 2,1 mil mortes.

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