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O Mundo Agora

Erdogan entrou numa sinuca ao lançar ofensiva militar na Síria

Áudio 05:01
Recep Tayyip Erdogan teve que reagir diante do número de vítimas turcas nos bombardeios.
Recep Tayyip Erdogan teve que reagir diante do número de vítimas turcas nos bombardeios. Turkish Presidential Press Office/Handout via REUTERS
Por: Alfredo Valladão
9 min

A Turquia decidiu turbinar a sua ofensiva militar “Escudo da Primavera” na província de Idlib, no norte da Síria. Para presidente turco Recep Tayyip Erdogan, era a única solução política depois da morte de 33 soldados de seu país em um bombardeio na região.

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Ancara acusa os aviões do regime sírio de Bashar Al-Assad, para não ter que reconhecer a verdade nua e crua: quem manda nos céus da Síria é a aviação russa. E Al-Assad não pode bombardear nada sem a anuência de Moscou. Ainda por cima, é a Rússia que ajuda as forças oficiais sírias na reconquista definitiva da província de Idlib. Inclusive passando por cima dos soldados e postos de observação turcos aquartelados no meio do caminho. Uma sinuca para Erdogan: ou arrisca uma guerra aberta com a Rússia, ou recua e perde a face – com consequências pesadas para o seu poder doméstico e para as suas ambições regionais.

Desde que Donald Trump decidiu retirar as tropas americanas da Síria, levando junto os aliados europeus, o país virou um campo de batalha entre potências regionais – Turquia, Rússia, Irã e suas diversas milícias locais, e Israel. Graças a sua projeção militar e a utilização de bombas sem discriminação, Moscou herdou o papel de mandachuva local. Só que os russos não têm condições, nem econômicas nem políticas, de governar a Síria diretamente.

Os objetivos de Vladimir Putin são claros. Primeiro, ajudar o regime de Damasco a conquistar todo o território sírio para acabar com a guerra generalizada de todos contra todos que custa uma fortuna, em orçamento e reputação política. Segundo, expulsar devagarinho do país todas as outras forças estrangeiras (inclusive, a prazo, seus aliados iranianos) transformando a Síria numa base para reconquistar o seu papel de potência dominante na região, que Moscou tinha durante a Guerra Fria. Terceiro, graças ao fim dos combates, torcer o braço dos europeus para que eles financiem a reconstrução do país – um custo abismal que a Rússia não é capaz de assumir, mas que é absolutamente necessária para manter a hegemonia regional russa.

Para Erdogan, os objetivos são outros. Primeiro, impedir a qualquer custo que os curdos sírios (catalogados como “terroristas”) possam, de novo, serem instrumentalizados pelo regime de Damasco para ameaçar as fronteiras turcas. Para Ancara não é possível tolerar que Bashar Al-Assad possa controlar novamente todo o território sírio. Segundo, a guerra já provocou a fuga de 3,7 milhões de refugiados para a Turquia e a ofensiva russo-síria na província de Idlib já está agregando mais um milhão. É muita gente, até para o regime autoritário turco. Ancara quer manter o controle de Idlib e de toda a fronteira norte do país – inclusive com forças militares – para poder administrar tamanho fluxo.

Pressionado pela estratégia russa, Erdogan ameaçou deixar passar milhões de refugiados para os países europeus se esses não o ajudarem a encarar Putin e Al-Assad. Terceiro, Erdogan tem uma visão neo-otomana da geopolítica turca. O presidente islâmico acha que cabe à Turquia o papel de potência hegemônica no Oriente-Médio. Contra os regimes autoritários laicos e os islamistas radicais jihadistas, Ancara apoia abertamente o islamismo mais moderado da Irmandade Muçulmana, visto como o principal instrumento político da estratégia regional turca. Ora, na Síria, o maior reduto do islamismo moderado é justamente Idlib. Perder o controle dessa província seria o fim dos sonhos de grandeza da Turquia.

Ancara não quer guerra contra Moscou, mas também não pode recuar. Putin também não quer encarar um conflito aberto com Erdogan – que ainda é muito útil para dividir a OTAN e os ocidentais. Mas também não pode recuar. Uma guerra de verdade ainda é possível, mesmo se cada lado vai tentar encontrar um jeito de salvar a face e empurrar com a barriga. E os europeus tremem, com medo de ter que pagar o pato.

* Alfredo Valladão é professor do Instituto de Ciências Políticas de Paris e publica uma coluna de geopolítica às segundas-feiras no site da RFI

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