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Fake news: dez recomendações falsas sobre o coronavírus propagadas nas redes sociais

Muitas informações compartilhadas nas redes sociais e no WhatsApp sobre o novo coronavírus não têm fundamentos científicos.
Muitas informações compartilhadas nas redes sociais e no WhatsApp sobre o novo coronavírus não têm fundamentos científicos. © Imagem de memyselfaneye por Pixabay
Texto por: RFI
14 min

Desde o início da pandemia e do confinamento, conselhos para se proteger do coronavírus se multiplicam nas redes sociais. Frequentemente apresentados como de autoria de um médico ou de uma enfermeira, muitas informações compartilhadas não têm fundamento científico e podem até mesmo ser perigosas. Veja algumas das fake news relacionadas à Covid-19 e saiba porque elas são incorretas.

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1. Beber chá de alho

Uma publicação no Facebook explica que um médico chinês descobriu a receita para curar a doença: oito dentes de alho fervidos em sete xícaras de água. Segundo a publicação, extremamente compartilhada no WhatsApp e Facebook, muitos pacientes demonstraram que o milagroso chá é eficaz contra a Covid-19.

Em entrevista à agência AFP, o médico Wasim Khawaja, do Instituto Paquistanês de Ciências Médicas explica que não existe nenhuma prova para afirmar que o chá de alho cura o coronavírus. "Aliás, não existe nenhuma pesquisa médica sobre isso", ressalta.

Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que "o alho é um alimento que tem algumas propriedades antimicrobianas. Mas nada prova, no quadro da epidemia atual, que o consumo de alho proteja as pessoas contra o coronavírus".

O mesmo vale para o mel e o própolis, sugeridos por internautas em outras publicações. Recomendado no inverno devido às suas virtudes nutritivas, eles não garantem uma proteção contra a Covid-19.

Não existe nenhuma prova para afirmar que o chá de alho cura o coronavírus.
Não existe nenhuma prova para afirmar que o chá de alho cura o coronavírus. © Pixabay

2. Ingerir bebidas quentes

Outra fake news que se tornou célebre é a que recomenda tomar chá ou bebidas bem quentes. A publicação que circula na França desde fevereiro e foi traduzida para outras línguas, inclusive para o português, afirma que médicos "na linha de frente do combate à doença" sugerem a ingestão de bebidas bem quentes, como chá, água pura fervida e até mesmo sopa, para matar o coronavírus.

Entrevistado pelo jornal Libération, Gilles Pialoux, chefe do serviço de doenças infecciosas e tropicais do hospital Tenon, em Paris, explica que "acredita-se que o vírus perca sua capacidade de infecção a partir de uma exposição a 56°C, entre vinte a trinta minutos, ou uma exposição a 65°C, entre cinco a dez minutos". A informação é confirmada pela virologista Anne Goffard, do Centro Hospitalar de Lille, que ressalta: "é desta forma que esterelizamos materiais médicos".

No entanto ingerir bebidas quentes não terá nenhum efeito benéfico contra a Covid-19, já que é impossível elevar a temperatura do corpo a 56°C durante ao menos vinte minutos ou 65°C durante ao menos cinco minutos. "As pessoas que bebem mais líquidos quentes para se proteger da Covid-19 apenas irão mais ao banheiro. E terão que lavar as mãos com mais frequência", brinca Gilles Pialoux.

O clínico-geral parisiense Richard Handschuh, membro do sindicato dos médicos generalistas da França, lembrou, no entanto, em entrevista à France Info, que mesmo que não tenha virtudes científicas contra o coronavírus, "tomar bebidas quentes no inverno é uma boa ideia para hidratar o corpo".

Beber chá quente não trará nenhum efeito benéfico contra a Covid-19.
Beber chá quente não trará nenhum efeito benéfico contra a Covid-19. © Pixabay

3. Beber água a cada 15 minutos

Compartilhada nas redes sociais e no WhatsApp, uma mensagem afirma que um médico infectologista recomenda beber um gole d’água a cada quinze minutos. Segundo a publicação, "ao molhar a garganta, o vírus vai direto para o estômago", onde será morto pelo suco gástrico. Mas, "se a garganta estiver seca, o vírus vai para o esôfago e para os pulmões", "ocasionando a dificuldade para respirar, o que tem levado várias pessoas a óbito".

O diretor da unidade de vírus e imunidade do Instituto Pasteur, Olivier Schwartz, classifica essa informação como "uma fantasia". "Hidratar-se, em caso de febre, é importante, claro. Mas isso não quer dizer que terá uma influência na transmissão do vírus", afirma, em entrevista ao jornal Le Parisien.

Sobre a possibilidade de a água impedir que o vírus chegue ao pulmão, o especialista explica: "As partículas virais se aderem aos tecidos rapidamente. Pelas vias respiratórias, imaginamos que alguns segundos ou minutos são suficientes para que as partículas do vírus cheguem ao pulmão. Sem necessariamente passar pela garganta".

Essa fake news também foi desmentida pela OMS. "Enquanto se hidratar bebendo água é importante para a saúde, isso não previne a contaminação por coronavírus", diz a organização em seu Twitter. "Se você tiver febre, tosse e dificuldade para respirar procure ajuda médica rapidamente", reitera.

4. Comer alimentos com o pH superior ao da Covid-19

Outra messagem propagada através das redes sociais afirma que "comer alimentos alcalinos, com o pH superior ao do coronavírus pode reforçar o sistema imunitário. A publicação dá alguns exemplos: abacate, abacaxi, alho, laranja, limão e manga.

Para o médico Richard Hanschuh, a recomendação não faz sentido. "A partir do momento que temos uma alimentação equilibrada, não é preciso privilegiar ou evitar um alimento em particular", lembra, em entrevista à France Info.

O clínico geral explica que, primeiramente, o vírus não tem pH. Em segundo lugar, "somos homeostáticos, ou seja, temos um equilíbrio. Nosso pH é constante, e nossa temperatura varia entre limites mínimos. Todo o nosso equilíbrio é regulado internamente". Ou seja, uma alimentação saudável ou que prioriza algumas frutas ou legumes não tem incidência sobre o pH do corpo, nem impede a contaminação pela Covid-19.

5. Cocaína e álcool

Os rumores sobre a eficácia da cocaína contra a Covid-19 começaram a circular junto a uma imagem de uma suposta rede de televisão anglófona que afirma que a droga mata o vírus. A falsa informação foi tão compartilhada na França que o governo se viu obrigado a alertar os cidadãos.

No Twitter, o Ministério da Saúde da França publicou uma mensagem em que explica: "Não, a cocaína não é uma proteção contra a Covid-19". A publicação ainda explica que essa droga é viciante, "tem graves efeitos e é nociva à saúde das pessoas".

Outra imagem que mostra um apresentador do canal americano CNN também circula na internet desde o início da pandemia. "Álcool mata o coronavírus", diz uma frase em inglês na montagem.

O site do governo francês dedicado ao alcoolismo, Alcool Info Service, lembra que as bebidas alcoólicas aumentam o risco de desenvolver algumas patologias, como câncer ou doenças cardiovasculares, digestivas, do sistema nervoso, além de disfunções psíquicas. "O álcool também pode resultar em cansaço, aumento da pressão arterial, problemas de sono, de memória e concentração", afirma o site.

Devido à difusão de uma fake news sobre a eficácia do álcool contra a Covid-19, 300 pessoas morreram e mais de mil adoeceram no Irã por terem ingerido metanol desde o início de março. A OMS alerta para o perigo de ingerir substâncias tóxicas ou utilizá-las para desinfetar a pele. "Não, passar álcool ou clorina pelo corpo inteiro não vai matar o vírus dentro do seu corpo. Álcool e clorina podem ser utilizadas para limpar superfícies, mas precisam ser utilizados sob recomendações apropriadas", avisa a organização.

6. Prender a respiração durante dez segundos

Em posts compartilhados no Facebook, médicos de Taiwan, China ou Japão estariam propondo uma "simples verficação" para as pessoas identificarem se foram contaminadas pelo coronavírus ou não. Esses "especialistas" sugerem prender a respiração por mais de dez segundos. Se o indivíduo conseguir ficar sem respirar sem tossir ou sem sentir desconforto, significa que ele "não tem fibrose pulmonar".

A recomendação é "sem fundamento científico", segundo o médico francês Richard Handschuh. "Isso pode mostrar que conseguimos respirar normalmente, mas não quer dizer que não fomos contaminados pela Covid-19, especialmente porque muitos pacientes infectados não têm nenhum sintoma", explica, em entrevista à France Info.

O clínico-geral lembra os sintomas característicos da doença: febre, tosse, dificuldade para respirar, forte cansaço ou ainda perda do olfato e do paladar.

O epidemiologista Fernando De la Hoz, professor da Universidade Nacional de Bogotá, na Colômbia, também afirma que a fibrose pulmonar não tem relação com o coronavírus. "É uma doença pulmonar que surge com a exposição crônica, às vezes durante anos, a poluentes industriais", explicou à AFP. "Em uma infecção aguda, como a provocada pelo coronavírus, não há tempo suficiente para que o paciente desenvolva uma fibrose. Ele pode, no entanto, desenvolver uma pneumonia", reitera o especialista.

7. Fazer inalações ou lavagens de nariz

Para tratar o coronavírus, alguns internautas recomendam inalações ou lavar o nariz. Segundo eles, essas técnicas permitiriam reforçar o sistema imunitário ou se proteger do vírus. No entanto, o clínico-geral Richard Handschuh lembra que nem todos os infectados pela Covid-19 têm obstrução nasal. Neste caso, "não seria uma boa ideia".

"Se fizermos inalações, vamos aumentar a permeabilidade da mucosa, porque as aquecemos e as tornamos permeáveis quando elas se dilatam. O risco é, ao contrário, de se contaminar com o vírus que circula em torno de nós", observa.

"O vapor quente pode prejudicar os pulmões. A ideia de que uma inalação possa combater o coronavírus é um conselho muito ruim", completa Benjamin Neuman, especialista de coronavírus na Texas A&M University, entrevistado pela AFP.

O presidente do Conselho Nacional dos Profissionais de Otorrinolaringologia da França, Jean-Michel Klein, adverte àqueles que tentam inalar soluções para limpar o nariz que a prática pode ter graves consequências. "Isso pode favorecer a disseminação do vírus", afirmou à AFP.

Em um comunicado enviado aos médicos e hospitais franceses, a Direção Geral de Saúde da França lembra que "lavagens de nariz são desaconselhadas". Segundo o órgão, elas podem "enviar o vírus da mucosa nasal para os pulmões".

8. Vitamina D ou banho de sol

Outra recomendação frequente nas redes é tomar banho de sol ou ingerir vitamina D para eliminar o coronavírus. Segundo publicações sem embasamento científico, o calor eliminaria a Covid-19.

A informação é rebatida pelos especialistas e pela própria OMS. Eles lembram que o vírus é resistente à temperatura média do corpo – entre 36°,5°C e 37°C. A OMS salienta que "a Covid-19 se espalhou em países tanto de clima quente como frio". Por isso, "independentemente de onde você vive, é importante seguir as precauções".

Em comunicado oficial, a Sociedade Brasileira de Infectologia desmente que esteja recomendando a população brasileira a reforçar a imunidade contra o coronavírus com vitamina D. Uma mensagem, sem autor, vem se espalhando através de notícias de WhatsApp.

"Infelizmente, em momentos de grande mobilização ao redor de um tema, oportunistas aproveitam para espalhar notícias falsas. A Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) repudia a informação, difundida em vídeo via Whatsapp, de que apoie estratégias de ‘reforço de imunidade’ e ‘imunodulação com vitamina D’ como únicas estratégias para prevenção ao coronavírus. Ao se deparar com informações deste tipo, desconfie. Não compartilhe e busque informações com médicos e órgãos confiáveis.", afirma a nota da entidade.

Segundo médicos, tomar sol não elimina o coronavírus.
Segundo médicos, tomar sol não elimina o coronavírus. IMEO

9. Cortar as unhas

Outro conselho circulando na internet é cortar as unhas bem curtas. Uma precaução desnecessária se as mãos forem bem lavadas e com frequência, afirma Richard Handschuh. "É essencialmente através das mãos que propagamos o vírus, então, a higiene é absolutamente necessária. Ao lavarmos as mãos, precisamos esfregar as unhas também. Água e sabão são suficientes para matar o vírus", lembra.

10. Vacina contra a gripe 

Existem diversas famílias de vírus como a do coronavírus, à qual pertence a Covid-19. A vacina específica contra a gripe não pode, desta forma, evitar a contaminação ao novo coronavírus. Em entrevista ao jornal francês SudOuest, o infectologista Arnaud Desclaux, do Centro Hospitalar de Bordeaux, lembra que a Covid-19 não é uma gripe.

Por outro lado, especialistas franceses acreditam que, se a população se vacinar contra a gripe, será mais fácil identificar os contaminados pela Covid-19, já que alguns sintomas são similares. Até o momento, não há vacinas ou medicamentos com eficácia confirmada contra o novo coronavírus, apesar dos diversos estudos e pesquisas em andamento.

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