Grupos radicais exploram pandemia do coronavírus para estimular caos e ataques

Enquanto os governos combatem o coronavírus, grupos de extrema direita e islâmicos radicais aproveitam para estimular ataques e o caos social
Enquanto os governos combatem o coronavírus, grupos de extrema direita e islâmicos radicais aproveitam para estimular ataques e o caos social REUTERS - MIKE SEGAR

Organizações de extrema direita e grupos radicais islâmicos tentam aproveitar o momento de tensão criado pela pandemia de coronavírus para recrutar novos membros, estimular ataques e espalhar teorias da conspiração que incentivam o ódio contra minorias.

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Mensagens online que ligam o coronavírus ao estímulo do radicalismo foram identificadas em grupos supremacistas brancos, antissemitas, assim como em comunicados do Estado Islâmico, da Al Qaeda e em redes xiitas radicais, informam o jornal norte-americano Washington Post e o inglês The Guardian nessa semana.

Os grupos de extrema direita têm tratado a pandemia viral como mentira e afirmado que a crise é orquestrada pelos judeus ou, em outras versões, pela China. De acordo com o jornal norte-americano, essas redes têm aproveitado a situação de ansiedade e grande desemprego nos Estados Unidos para colocar a culpa na comunidade judaica, nos negros, imigrantes ou em políticos.

Nos grupos islâmicos radicais, a narrativa é de que o coronavírus seria um castigo de Deus contra os inimigos do Islã.

Especialistas em segurança alertam que esses grupos extremistas tentam aproveitar o período em que governos estão focados no combate ao coronavírus para realizar atos violentos e causar crises sociais.

"As mensagens de organizações terroristas de direita ou jihadistas sobre a Covid-19 que incitam o ódio e chamam para a realização de ataques encontram um público receptivo, e não podemos ignorar a possível ameaça que isso possa causar", disse um oficial europeu de inteligência sob condição de anonimato ao Washington Post.

Contaminar inimigos como estratégia

Entre as mensagens difundidas em grupos de extrema direita nos Estados Unidos há chamados de incentivo à propagação intencional do vírus entre minorias. Algumas das mensagens citadas pelos jornais norte-americano e pelo inglês incitam pacientes da Covid-19 a contaminarem judeus e crianças negras.

"Em nossa pesquisa, encontramos conversas em que participantes declaram estar infectados e dizem tentar ser armas biológicas", contou Steven Stalinsky, diretor-executivo do Instituto de Pesquisa em Mídia do Oriente Médio (MEMRI) ao Washington Post.

Segundo Stalinsky, nos fóruns há debates sobre locais prioritários para a disseminação da doença, como supermercados, hospitais e centrais elétricas.

Em março, o FBI tinha alertado a polícia de Nova York de que haveria planos de supremacistas brancos para contaminar judeus e policiais com o coronavírus.

Ataques e colapso social

A ONG norte-americana Souther Poverty Law Center deu alertas sobre o oportunismo de grupos de extrema direita chamados de “aceleracionistas”. Segundo o The Guardian, esses grupos acreditam que o aumento do caos levará ao colapso da nossa sociedade, o que permitiria a eles construir uma nova sociedade supremacista branca.

A ONG inglesa Hope not Hate, que monitora grupos extremistas, também detectou o aumento do discurso de expectativa pelo colapso social em grupos de extrema direita do Reino Unido.

O jornal norte-americano cita uma tentativa de ataque desmantelada pelo FBI no Missouri em 24 de março. Um homem de 36 anos, que mantinha conversas de Telegram com grupos neonazistas, planejava explodir um hospital com pacientes do coronavírus. O homem foi morto por agentes do FBI.

O Washington Post reporta ainda que o departamento de Segurança de Nova Jersey fez um alerta no dia 21 de março de que um grupo de mídia neonazista havia incentivado apoiadores a atirar sem alvo definido em cidades e a deixar marcas de tiros em janelas de carros para criar pânico social.

Segundo o jornal, o Estado Islâmico estimulou, em editorial publicado em uma revista virtual no mês passado, ataques de "lobos solitários" pelo mundo para aproveitar o momento de paralisia e medo.

Atenção redobrada em cultos religiosos nos EUA

Nos Estados Unidos, não há uma ordem de confinamento nacional, e os Estados têm adotado restrições diferentes. Nesse contexto, o Departamento de Segurança Interna norte-americano pediu para que os líderes religiosos tomem cuidado com a segurança assim que retomarem os cultos.

Apesar de dizer que não há ameaças iminentes, o departamento destacou em seu comunicado o estresse causado pela pandemia e um aumento no discurso de ódio online.

O Washington Post relata que o órgão publicou uma carta à comunidade religiosa em que pede que os líderes religiosos “revisem seus planos de segurança e garantam procedimentos para proteger instalações e visitantes”.

Procurado pelo The Guardian, o FBI não confirmou nem negou investigar grupos neonazistas que estejam tentando “acelerar” o colapso social.

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