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Brasil-Mundo

Coronel da reserva de origem brasileira coordena hotéis para doentes da Covid-19 em Israel

Áudio 05:29
O coronel da reserva Michael Gilinsk em frente a um dos hoteis em Jerusalém para doentes ou suspeitos de ter coronavírus
O coronel da reserva Michael Gilinsk em frente a um dos hoteis em Jerusalém para doentes ou suspeitos de ter coronavírus © Foto - Forças de Defesa de Israel
Por: Daniela Kresch
12 min

O advogado Michael Gilinsk tem trabalhado intensamente durante a crise do coronavírus em Israel. Como coronel reservista do Exército, ele está coordenando 13 hotéis em todo o país que recebem pessoas afetadas pela Covid-19 ou que precisam ficar isoladas porque entraram em contato com alguém infectado.

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Correspondente da RFI em Tel Aviv.

A iniciativa envolve o Ministério da Saúde, o Ministério da Defesa, a Estrela de Davi Vermelha, hospitais e planos de saúde. Mas a coordenação é do Comando de Retaguarda das Forças Armadas, a unidade do Exército israelense responsável pela população civil.

Michael é filho de brasileiros e casado com uma brasileira. Ele nasceu em Israel há 48 anos e foi paraquedista do Exército. Nos últimos 25 anos, ele serve como reservista no Comando de Retaguarda, mas, pela primeira vez, está tendo que coordenar uma operação como essa.

“Começamos a operação desde o dia 15 de março, quando foi inaugurado o primeiro hotel em Tel Aviv”, conta Michael. “A partir de então, começamos a abrir outras unidades. Hoje, temos seis hotéis em Jerusalém e outros espalhados em todo o país.”

Nos hotéis, Michael é responsável por coordenar a chegada e a saída de ambulâncias, a administração de testes da Covid-19 nos hóspedes e o dia a dia deles nos locais. A escolha desses hotéis – que estão vazios por causa da total ausência de turistas – é feita pelo Ministério da Defesa, que busca os melhores estabelecimentos para isso.

Ministério aluga hotéis; hóspedes não pagam nada

Só depois da escolha dos locais é que o Exército entra em cena para administrar a operação. São os militares que levam os suprimentos necessários para os locais alugados: máscaras, luvas, aventais e todo o resto. Os militares dividem as instalações em duas partes: a amarela – por onde circulam os hóspedes com a Covid-19 ou em quarentena, por suspeita de contato com outros doentes – e a verde, por onde circulam as equipes do hotel e os soldados ou reservistas.

Às vezes, é necessário construir paredes, fechar áreas e portas. As equipes do Exército também coordenam a ordem de saída dos pacientes. Eles só podem deixar os hotéis depois de terem resultado negativo em dois testes de detecção do coronavírus.

“Em cada hotel, a gente coloca uma equipe de 14 pessoas, reservistas, que ficam o tempo inteiro em contato com os órgãos de controle e os hóspedes”, explica o advogado e coronel da reserva. “Por exemplo, nos hotéis em que as pessoas estão em quarentena, você tem que assegurar que eles façam dois exames de corona. Então, toda a coordenação entre o cliente e a Kupat Cholim (os seguros de saúde deles) para fazer o exame, somos nós que fazemos.”

Michael conta que, na maior parte do tempo, os militares não entram em contato físico próximo com os hóspedes. A comunicação é feita por telefone ou interfone. No caso de hotéis onde há pessoas em quarentena – mas que ainda não foram diagnosticadas com o vírus –, elas não podem sair dos quartos e a comida é colocada no corredor, ao lado das portas. São os próprios hóspedes que trocam a roupa de cama.

Minoria árabe e ultraortodoxos sob o mesmo teto

Nos hotéis onde há doentes já diagnosticados com o vírus, as refeições são feitas nos refeitórios coletivos. Mas os funcionários preparam tudo e deixam os recintos antes de os hóspedes chegarem. Tudo para não entrar em contato com os doentes. Os empregados dos hotéis passam por um treinamento para saber como lidar com a situação. Até agora, nenhum deles foi infectado.

Em cada estabelecimento, há diversos tipos de pessoas convivendo juntas, incluindo minorias do país, como árabes muçulmanos ou cristãos, e judeus ultraortodoxos, segundo o reservista de origem brasileira.

“Tem de tudo nos hotéis: jovens, velhos, religiosos, não religiosos, árabes. Por exemplo, a gente tem um grande grupo de árabes-israelenses que chegou da Universidade da Jordânia e teve que entrar em quarentena. Eles vieram para nossos hotéis e estão convivendo com haredim (judeus ultraortodoxos), todos no mesmo local.”

“Também é interessante saber”, continua Michael, “que muitos dos trabalhadores dos hotéis são árabes e a gente tem uma relação super boa com eles. Todo mundo está entendendo que estamos fazendo um esforço nacional e todos estão nessa missão, apoiando um ao outro e trabalhando junto”.

Situação inédita

Mesmo com sua experiência militar, Michael não se recorda de uma situação como esta no país. Ele lembra, por exemplo, do mais recente grande conflito, em 2014, entre Israel e o grupo islâmico Hamas, que controla a Faixa de Gaza. Chamada de Operação Margem Protetora (ou Tzuk Eitan, em hebraico), o conflito paralisou o país por algumas semanas, mas não da maneira total que acontece agora.

Atualmente, em Israel, as regras de isolamento social são severas para evitar o aumento da epidemia do coronavírus. Ninguém pode se afastar de casa por mais de 100 metros, por exemplo. As pessoas só podem sair para compras nos supermercados e farmácias, as únicas lojas abertas. Sinagogas, mesquitas e igrejas também estão fechadas, além de tudo relacionado com entretenimento e esportes. Também há restrições de viagem, pouquíssimo transporte público e só 15% da força de trabalho continua na ativa.

“A gente já passou por épocas bastante tensas, como Tzuk Eitan em 2014, com mísseis caindo no país. E, no meu serviço militar, passei quase um ano e meio no Líbano”, lembra o filho de brasileiros. “Mas não é nada parecido com isso daqui. Quando atiram em você, você sabe de onde vão atirar, sabe quem está atirando, sabe quem é o inimigo. Mas, agora, você não consegue ver o inimigo. A gente se preparou para casos de terremoto, pelos quais tínhamos que hospedar pessoas em outros lugares, levar a população de um lugar para outro. Mas nada como esse evento de agora.”

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