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Gestão da China da epidemia do coronavírus foi um "tiro que saiu pela culatra"

Áudio 04:57
Um homem prestes a se submeter a um teste de coronavírus reage quando um profissional de saúde tenta tirar uma amostra dele em 16 de abril de 2020, na cidade chinesa de Wuhan
Um homem prestes a se submeter a um teste de coronavírus reage quando um profissional de saúde tenta tirar uma amostra dele em 16 de abril de 2020, na cidade chinesa de Wuhan AFP

A China pisou na jaca. E o tiro saiu pela culatra. As autoridades de Pequim começaram escondendo o surto de coronavírus em Wuhan. Quando não dava mais, impuseram um confinamento brutal a dezenas de milhões de pessoas – lacrando as portas das casas com chumbo. Começaram então a comunicar alguns dados científicos importantes, mas  também publicaram balanços de mortos e infectados tão inverossímeis que foram obrigados a aumentar os números por duas vezes.

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O regime chinês é tão opaco, que dentro e fora da China pouca gente ainda acredita nessas estatísticas, mais políticas do que científicas. Como a desconfiança, hoje, é cada vez maior quanto às mirabolantes taxas de crescimento chinês.

Depois desse começo irresponsável, a China está tentando correr atrás do prejuízo. Pequim lançou uma campanha midiática planetária autocelebrando a sua eficiência da sua ação contra o vírus e seu papel de potência “responsável”, disposta a distribuir máscaras, ventiladores, químicos para testes e até créditos para o resto do mundo.

Só que o regime ainda não resolveu a epidemia no seu próprio território e o perigo de uma nova onda de infecções está aparecendo. Quanto à ajuda sanitária, parece mais um grande negócio para empresas chinesas que vendem seus produtos a preços absurdos, chegando até a leiloar carregamentos nas pistas de embarque dos aeroportos.

Pedidos de transparência

Toda essa trapalhada pouco responsável, está criando uma desconfiança geral quanto às intenções do poder chinês, até nos países pobres mais precisados. Governos europeus já estão declarando que a China vai ter que explicar direitinho o que aconteceu de verdade.

E claro, Donald Trump começou a culpar Pequim pelo surto mundial de coronavírus, propalando a ideia de que o COVID-19 teria “escapado” de um laboratório de virologia em Wuhan. Tudo para se desenrascar de sua própria incompetência e jogar a culpa no espantalho chinês.

Essa rebordosa está colocando Xi Jinping numa sinuca. O "Número Um" chinês centralizou todos os mandos, para se manter indefinidamente no poder. A consequência é que qualquer problema acaba no colo do líder. Xi deu uma de chefe da guerra contra o vírus, manipulando números e presumíveis “vitórias” para tentar esconder a incompetência das primeiras semanas da epidemia. Mas só colou até certo ponto: durante os primeiros momentos de confusão, as redes sociais chinesas se encheram de protestos e ataques à atuação dos responsáveis do partido. 

Para Pequim, comunista ou imperial, a maior ameaça sempre foi o controle de uma população de mais de um bilhão de pessoas. Hoje, a legitimidade do governo está lastrada no crescimento da economia. Só que o PIB chinês vem declinando e a Covid-19 jogou o país na recessão.

Para sair do impasse o PCC vem apelando para a receita de todos os regimes autoritários: o nacionalismo e o expansionismo. Xi já declarou que quer “transformar a governança do mundo” e está tentando vender o “modelo chinês” planeta afora. Essa política de “China First” visa convencer o mundo de que o autoritarismo chinês é bem mais inteligente e eficiente que as democracias liberais.

O problema é que as famosas novas “Rotas da Seda” ou a promoção do multilateralismo são só para servir diretamente os interesses econômicos e políticos de Pequim. E o mundo está começando a perceber que Xi não é o "Bom Samaritano". Além do mais, a economia chinesa está atrelada à boa saúde econômica de seus principais mercados de exportação e provedores de tecnologia, a Europa e os Estados Unidos.

Mas a pandemia mostrou aos europeus e americanos o quanto eram dependentes das cadeias de produção que passam pela China. Muitas indústrias estratégicas no Atlântico Norte vão repatriar e diversificar a produção para diminuir essa dependência. Má notícia para o futuro econômico da China e para Xi Jinping e seu nacionalismo expansionista. E portanto, também, para o controle autoritário da população chinesa pelo partido comunista.

 

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