Acessar o conteúdo principal
Linha Direta

Epidemia do coronavírus permitiu acordo para Netanyahu se manter no poder em Israel

Áudio 06:36
 O primeiro-ministro  Benjamin Netanyahu chegou a um acordo nesta segunda-feira (20) com Benny Gantz, para formar um governo de emergência.
O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu chegou a um acordo nesta segunda-feira (20) com Benny Gantz, para formar um governo de emergência. AFP/File
Por: Daniela Kresch
12 min

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e seu principal rival, o ex-chefe das Forças Armadas Benny Gantz, anunciaram na noite desta segunda-feira, 20 de abril, a assinatura de um acordo que levará finalmente à posse de um novo governo em Israel depois de mais de um ano de impasse político. 

Publicidade

Daniela Kresch, correspondente da RFI em Israel

O acordo foi possível graças a um catalizador nada convencional: a epidemia do vírus Covid-19, que infectou mais de 13 mil israelenses até hoje e causou cerca de 180 mortes.

A crise de saúde no país levou os dois rivais políticos a decidirem finalmente pela formação de um governo de União Nacional entre o partido governista de direita Likud, de Netanyahu, e a coligação de centro-esquerda oposicionista Azul e Branco, do general da reserva Benny Gantz.

As duas forças políticas foram as mais votadas nas mais recentes eleições e há tempos havia um clamor pela união de forças entre as maiores bancadas do Knesset, o Parlamento em Jerusalém. Afinal, o Likud e o Azul e Branco receberam, juntos algo em torno de 70 das 120 cadeiras do Knesset em todas as três eleições realizadas no país desde março de 2019.

Mas nenhum dos dois partidos conseguiu, sozinho, formar um governo. Daí a lógica de uma união de forças entre eles.

Mas foi só o coronavírus que conseguiu a façanha de realmente unir as duas forças políticas em uma espécie de governo de emergência.

Os detalhes estão sendo resolvidos nas últimas horas e revelados ao público aos poucos. Mas a ideia é que os dois líderes, ambos chamados “Benjamin”, ocupem a cadeira de primeiro-ministro. O primeiro “Benjamin”, o Netanyahu – chamado de Bíbi em Israel – ficará no poder pelos primeiros 18 meses. Depois, se tornará vice-premiê. E o segundo “Benjamin”, o Benny Gantz, atual presidente do Parlamento, ocupará o cargo depois por mais 18 meses. Enquanto espera, será vice-premiê.

Esse método é chamado de “rotação” e foi aplicado apenas uma vez no passado, em Israel. Em 1984, o candidato a premiê Shimon Peres venceu as eleições à frente do Partido Trabalhista, mas não conseguiu formar um governo com maioria do Parlamento. A solução foi formar um governo de União Nacional com o segundo colocado, Yitzhak Shamir, do Likud. Cada um foi primeiro ministro por dois anos, em uma estabilidada política frágil, mas que deu certo.

O principal obstáculo foi certamente o indiciamento por corrupção enfrentado por Netanyahu, que está no poder há 11 anos consecutivos. O primeiro-ministro foi indiciado em três casos e seu julgamento começaria em março, se o coronavírus não tivesse levado ao adiamento de todos os julgamentos por causa da proibição de aglomerações.

Gantz defende que Netanyahu renuncie diante das acusações, apesar de que, pelas leis básicas do país, ele pode continuar no poder e só deve renunciar se for considerado culpado. Netanyahu, por sua vez, busca imunidade política através de algum tipo de lei. Para formar uma coalizão com o Azul e Branco, então, o Likud colocou esse pedido como cláusula. Os negociadores do Azul e Branco não aceitaram.

Mas Netanyahu conseguiu aprovar que, se a Suprema Corte decidir removê-lo do cargo nos próximos seis meses, haverá novas eleições.

Reação palestina

Outro obstáculo são leis de direita que o Likud queria aprovar nos próximos meses, como a anexação de assentamentos israelenses na Cisjordânia. O Likud queria que essas colônias fossem anexadas oficialmente a Israel, mas o Azul e Branco é contra e segue a noção de que elas são ilegais pela Lei Internacional e seu status deve ser negociado com os palestinos antes de uma decisão unilateral como essa.

Netanyahu conseguiu pelo menos que ele possa sugerir uma lei de anexação de partes da Cisjordânia em julho, mesmo que nada garanta que ela seja aprovada. Mesmo assim, a reação do governo palestino ao acordo entre Likud e Azul e Branco foi de rejeição.

O primeiro-ministro palestino, Mohammad Shtayyeh chamou a união de “Governo de anexação” e disse que se trata do fim da solução de dois Estados para dois povos”.

Já havia a noção de que as maiores forças tinham que se unir diante do impasse político sem precedentes na História do país. Afinal, Israel realizou três eleições gerais em menos de um ano: abril de 2019, setembro de 2019 e março de 2020. Para evitar uma quarta eleição, a opção mais lógica seria essa, já que o Likud e o Azul e Branco representam realmente a maioria dos eleitores do país.

Mas foi só a Covid-19 que conseguiu realmente a façanha de unir Netanyahu e Gantz. A crise de saúde levou o país a um isolamento social severo, com fechamento total de fronteiras e paralisação quase total da economia, elevando o desemprego de 4% no início de março a mais de 26% no início de abril.

Os dois líderes finalmente conseguiram receber a desculpa que precisavam diante dos eleitores que mais eram contra uma união.

O vencedor é sem dúvida Netanyahu, que conseguiu mais 18 meses de poder mesmo indiciado. E como um ano e meio é muito tempo na política israelense, talvez possa tirar algum ás da manga para se manter no poder depois.

E Benny Gantz, um novato na política, perdeu parte de sua bancada – que saiu do partido por isso – mas conseguiu o que muitos tentaram nos últimos 11: a promessa de tirar Netanyahu do poder, mesmo que arriscada.

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.

Página não encontrada

O conteúdo ao qual você tenta acessar não existe ou não está mais disponível.