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O Mundo Agora

Coronavírus escancarou a perda de autoridade dos Estados centralizados

Áudio 05:20
Ninguém estava preparado para tamanho desafio. Era inevitável que as respostas fossem improvisadas, no dia a dia. Foto: Laboratório do instituto Pasteur no Camboja
Ninguém estava preparado para tamanho desafio. Era inevitável que as respostas fossem improvisadas, no dia a dia. Foto: Laboratório do instituto Pasteur no Camboja © FB
Por: Alfredo Valladão

O chavão político do coronavírus é a volta do poder dos governos nacionais – última tábua de salvação das populações ameaçadas. Diante de um perigo coletivo mortal, as pessoas apelam para a única instância com capacidade de direção e decisão. Daí as metáforas soberanistas tentando mobilizar os cidadãos para uma “guerra” contra o vírus. A ideia de “guerra” é fundamental para justificar as ordens e o comando das autoridades estatais.

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E “estados de emergência” cerceando liberdades públicas em nome da sobrevivência da Nação. “É soberano aquele que decide o estado de emergência”, já analisava o filósofo alemão Carl Schimdt em 1922.  E a guerra é uma emergência total onde o chefe supremo comanda as tropas nacionais contra os invasores e obriga os civis a contribuírem para a vitória.

Só que uma epidemia não são soldados estrangeiros armados ameaçando nossas liberdades e nosso modo de vida. A questão não é como resistir e chegar à vitória no campo de batalha. O problema são as soluções concretas para salvar vidas de doentes, manter a capacidade dos hospitais, obter o material médico necessário e promover os comportamentos de precaução para proteger a população.

A Covid-19 se espalhou por todos os países ao mesmo tempo e a pandemia só poderá ser resolvida com muita cooperação global na busca de remédios e vacinas. Nada a ver com “guerras” soberanas. Exércitos não resolvem essa parada.

 Frente ao coronavírus, os governos – com raras exceções – mostraram os seus limites. Ninguém estava preparado para tamanho desafio. Era inevitável que as respostas fossem improvisadas, no dia a dia. Pior ainda, as pesadas estruturas administrativas dos estados modernos não tinham a agilidade suficiente para tratar uma pandemia que se espalhava de maneira extremamente fragmentada.

As consequências não são as mesmas para velhos e moços, metrópoles e cidades interioranas, regiões industriais e rurais, países ricos ou pobres, homens e mulheres, setores industriais e serviços, trabalhadores formais e populações carentes....

Autoridade dos governos à prova

Quando bateu o pânico coletivo, todo o mundo correu para o Papai Estado esperando que ele iria tudo resolver. Normal: não havia alternativa. Só que os dirigentes políticos confundiram poder de decisão e autoridade. Decidir uma estratégia, de cima para baixo aplicável a todo o território nacional sem distinção foi uma ilusão. Sobretudo quando qualquer decisão desse tipo, mesmo baseada em comitês científicos perfeitamente legítimos, é imediatamente contestada por outros cientistas, jornalistas, políticos da oposição, redes sociais mais ou menos conspiratórias.

Os governos decidem mas não têm mais autoridade para impor uma narrativa única à cidadania. Além do mais, as diretivas do poder centralizado se atrapalham nas guerrinhas burocráticas da máquina do Estado. O prometido não chega. Os Estados mais decentralizados, que aceitam delegar muita responsabilidade aos atores locais – inclusive no campo das relações com o resto do mundo – se saíram melhor do que os outros. Os líderes governamentais populistas que proclamam saber resolver tudo por cima de todo mundo, apareceram como são: incompetentes, ineficientes, ignorantes e até perigosos. É aterrador ouvir Donald Trump aconselhar o povão a injetar desinfetante industrial no pulmão.

Resgatar confiança dos cidadãos

No frigir dos ovos, o máximo que a maioria dos governos nacionais conseguiu foi salvar as suas próprias estruturas: a rede de hospitais públicos. Desapontadas, as populações estão perdendo a confiança nos seus governos nacionais.

As iniciativas das sociedades civis e dos poderes locais se multiplicam em todos os países. Cansados de esperar eles tentam encontrar soluções práticas imediatas para os desafios do vírus. Produção de máscaras e gel, redes de ajuda as pessoas mais vulneráveis, cooperação público-privadas locais, redes de infecciologistas transnacionais, tudo sem esperar diretivas ou fundos governamentais.

O coronavírus escancarou a perda de autoridade dos Estados centralizados e a incapacidade de encontrar soluções práticas urgentes. Não será a “guerra” contra o vírus que vai restaurar a confiança dos cidadãos nos seus governos e nas velhas soberanias nacionais quebrados.

 

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