Saiba como quatro democracias asiáticas estão na vanguarda da luta contra a Covid-19

Controle de fronteiras é uma das medidas adotadas por democracias asiáticas no combate à Covid-19. Painel no aeroporto de Seul, na Coréia do Sul.
Controle de fronteiras é uma das medidas adotadas por democracias asiáticas no combate à Covid-19. Painel no aeroporto de Seul, na Coréia do Sul. AFP - JUNG YEON-JE

Enquanto o coronavírus praticamente parou a economia global, fazendo com que uma em cada duas pessoas do planeta esteja em isolamento social, a vida parece seguir um curso quase normal em quatro democracias asiáticas. Taiwan, Coreia do Sul, Hong Kong e Singapura se destacaram pela rapidez na resposta à pandemia. Hoje, com poucas vítimas, podem servir de exemplo para outros países.

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Quais são as chaves para esse sucesso? E como, apesar de estarem próximas da China, berço do novo coronavírus, elas conseguiram diminuir a curva de contaminações desde o começo da pandemia? Gerenciamento centralizado da crise, controles de fronteiras, uso generalizado de máscaras, política maciça de testes de diagnóstico, quarentenas muito rigorosas e acompanhamento, caso a caso, usando ferramentas digitais são alguns pontos da receita que deu certo.

Coreia do Sul, Hong Kong, Taiwan e Singapura têm características em comum: todos assumiram a liderança da crise sanitária, mesmo antes da detecção de um primeiro caso de contaminação em solo nacional, e todos são democracias, prova de que sistemas autoritários não têm o monopólio de uma luta efetiva contra a disseminação da epidemia. Isso é demonstrado por um relatório de 150 páginas elaborado pelo Instituto Montaigne, na França, intitulado "Covid-19: Leste da Ásia enfrentando a pandemia".

O estudo é rico em receitas para impedir a epidemia em um estágio inicial. "Esses países agiram com a premissa de uma transmissão imediata de homem para homem do novo vírus", observam os autores, "sem esperar pela confirmação oficial da OMS, em 22 de janeiro, economizando tempo".

Lições de Taiwan

Taiwan, o maior parceiro comercial da China, e cujo vice-presidente é um epidemiologista, levou a sério a gravidade da crise desde o início, quando outros países ainda viam a nova epidemia como um alarme falso.

A ilha, de 24 milhões de pessoas, registrava nesta segunda-feira (27) apenas 429 casos confirmados de coronavírus e seis mortes, conforme números publicados diariamente pela Universidade americana Johns Hopkins.

Se Taiwan está na vanguarda da luta contra o coronavírus, isso se deve, em parte, ao fato de que a ilha foi traumatizada pela epidemia da síndrome respiratória aguda grave (SARS), em 2003. Depois da China e de Hong Kong, Taiwan registrou o balanço mais grave, com 84 mortos. Desde então, desconfia profundamente de seu vizinho chinês, especialmente porque Pequim a considera como uma província chinesa e a impede, desde 2016, de participar de reuniões gerais da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Em 31 de dezembro, Taipei enviou um e-mail à OMS alertando a instituição sobre "pelo menos sete casos de pneumonia atípica em Wuhan", que foram "isolados para tratamento". A organização internacional, porém, não deu atenção. Enquanto Pequim ainda negava a transmissão do vírus de pessoa para pessoa, as autoridades de Taiwan já começavam a medir a temperatura de todos os passageiros que desembarcavam de aviões provenientes de Wuhan, onde o vírus se espalhava.

Taipei antecipou ações

Quando o primeiro caso apareceu em Taiwan, em 21 de janeiro, dois dias antes de Pequim fechar a megalópole de Wuhan, o governo já havia ativado sua Central de Controle de Epidemias (CECC), dedicada a crises de saúde, uma ferramenta criada no país em razão da SARS e que se mostrou de valor inestimável na coordenação dos esforços contra a Covid-19. Em 6 de fevereiro, embora o resto do mundo ainda não acreditasse no risco de uma pandemia, Taipei decidiu proibir os viajantes da China de entrar em seu território.

Determinada a não se deixar abater por uma doença desconhecida, Taiwan aumentou a sua produção de máscaras de 4 para 13 milhões por dia, proibiu a exportação desse material e começou a testar todos aqueles com sintomas do novo coronavírus. Para controlar o risco de casos importados, a administração de saúde pública criou uma declaração obrigatória para todos os passageiros que chegavam à ilha, verificando as viagens feitas nos últimos 30 dias.

Além disso, as pessoas colocadas em quarentena foram equipadas com um telefone celular, o que permitiu o controle de seus movimentos. Quem quebrasse as regras enfrentava uma dupla ameaça: uma multa de até 30.000 euros e a publicação de seus dados pessoais ("nome e vergonha"). Medidas draconianas e intrusivas, certamente, mas que permitiram a Taiwan evitar o confinamento. Empresas, lojas, escolas e restaurantes permaneceram abertos.

Triagem maciça na Coreia do Sul

Outro modelo é a Coreia do Sul, onde as diretrizes para o distanciamento social são amplamente seguidas, sem ser resultado de uma ordem do governo. Nesse caso, o diagnóstico em massa da população ajudou a conter a propagação do vírus, graças a uma capacidade diária de 20.000 testes. No total, mais de 500.000 testes já foram realizados no país. Em 27 de abril, Seul registrou 10.738 casos de Covid-19 e 243 mortes pela doença.

No entanto, no final de fevereiro, a epidemia explodiu na cidade de Daegu, dentro da comunidade religiosa cristã de Shincheonji. As autoridades passaram a enfrentar um desafio: encontrar, testar e isolar os 210.000 membros da organização religiosa, bem como seus parentes e contatos recentes, graças a um exército de investigadores epidemiológicos e ao suporte de aplicativos de rastreamento digital.

A partir de 26 de fevereiro, os centros de triagem “drive-through” permitiram que o maior número possível de pessoas fosse testado, enquanto os sul-coreanos permanecem no carro, uma inovação que virou manchete na imprensa internacional. Hoje, pedidos de kits de testes sul-coreanos chegam de todas as partes do mundo.

Em 3 de março, o presidente de centro-esquerda Moon Jae-in declarou guerra às doenças infecciosas. O exército tomou as ruas de Daegu para desinfetar as áreas atingidas pelo coronavírus. Enquanto isso, a Coreia do Sul manteve suas fronteiras abertas, mas adotando controles rígidos. Todos os viajantes passaram a ter a temperatura medida, em meados de março, devendo assinar uma declaração de saúde e informar as autoridades de suas viagens recentes. Os passageiros que chegavam da Europa passaram a ser sistematicamente selecionados no aeroporto. Aqueles que testam positivo foram imediatamente transferidos para o hospital, e aqueles que testam negativo foram colocados em quarentena.

Seul também usa ferramentas digitais sofisticadas para rastrear casos confirmados e aqueles que estiveram em contato com um portador do vírus. Até extratos de cartões bancários, que são mais precisos do que os dados telefônicos, são usados ​​para verificar quais compras foram feitas e em quais lojas. Um aplicativo móvel localiza qualquer usuário em quarentena e permite que ele entre em contato direto com as autoridades de saúde para acompanhar o desenvolvimento de seus sintomas. Esse acesso a dados pessoais tem sido objeto de muito pouco debate, porque é a esse preço que os sul-coreanos conseguiram manter a sua liberdade de movimento, sem restrições.

Singapura implementou o rastreamento Bluetooth

Como a Coreia do Sul, Singapura também conta com o Big Data para conter a epidemia, a princípio com sucesso. Atualmente, porém, a cidade-Estado enfrenta uma segunda onda de contaminações, que a forçou a fechar escolas e negócios não essenciais, a partir de 3 de abril, por um mês. Em 27 de abril, Singapura registrou um total de 14.423 casos confirmados da Covid-19 e 12 mortes.

Aproveitando de experiências anteriores com a epidemia de SARS, em 2003, 21 dias antes do primeiro caso de coronavírus em seu território, Singapura passou a implementar medidas rigorosas. Todos os viajantes de Wuhan deviam passar por verificações de temperatura e as autoridades de saúde pediam que médicos identificassem pacientes com sintomas de pneumonia. Logo após a detecção do primeiro caso, em 23 de janeiro, as autoridades passaram a impor restrições à entrada de pessoas que haviam viajado para a China.

No mesmo dia 23 de janeiro, a China decidiu colocar os 56 milhões de habitantes da província de Hubei em quarentena. Fora de questão para o governo de Singapura de seguir o mesmo exemplo, optando por iniciar uma grande operação de distribuição de máscaras: quatro por semana, para cada família, a partir de um estoque nacional.

Foi também neste momento que começou um rastreamento digital em Singapura, por meio do aplicativo "TraceTogether". Graças ao sistema Bluetooth, o aplicativo identifica todos os usuários de smartphones que entraram em contato com um caso confirmado de Covid-19 e que, em seguida, são informados através de um SMS. Um sistema que provou sua eficácia e que agora é observado de perto por vários países europeus, incluindo a França.

Hong Kong optou pela transparência

Em Hong Kong, os 7 milhões de habitantes foram alertados assim que surgiram as primeiras informações sobre uma gripe misteriosa na China. Também cientes da epidemia de SARS, que deixou 298 mortos nesta ex-colônia britânica, os moradores de Hong Kong adotaram, espontaneamente, o uso de máscaras e medidas de distanciamento social.

Inicialmente, em janeiro e fevereiro, o governo local conseguiu controlar a propagação do vírus, mas desde meados de março, o número de casos aumentou. Ainda não é necessário que os moradores permaneçam confinados, mas, atualmente, bares e karaokês estão fechados. É proibido se reunir em público com mais de quatro pessoas e, desde 25 de março, as fronteiras estão completamente fechadas. Até o momento, 1.037 casos foram relatados e apenas 4 pessoas morreram, segundo dados da Universidade Johns Hopkins.

Hong Kong não perdeu tempo em combater a epidemia. Desde que o primeiro caso de coronavírus importado de Wuhan apareceu, em 22 de janeiro, as autoridades acompanharam cada caso, confirmado ou suspeito, de perto. Eles foram imediatamente colocados em confinamento solitário, todos os seus contatos foram rastreados e submetidos à vigilância médica.

Em 27 de janeiro, os residentes da província chinesa de Hubei foram proibidos de entrar em Hong Kong e os voos de Hong Kong para a China continental foram cortados pela metade. Em 8 de fevereiro, a quarentena de 14 dias se tornou obrigatória para todos os passageiros que chegavam da China, uma medida que seria estendida a todas as chegadas internacionais, em 19 de março. Ao chegar ao aeroporto, os viajantes são equipados com uma pulseira eletrônica e colocados em isolamento. O aplicativo StayHomeSafe permite à polícia e ao Departamento de Saúde monitorar todos os seus passos.

Como em Taiwan, Coreia do Sul e Singapura, essas medidas ajudaram Hong Kong a evitar o contágio maciço, a superlotação dos hospitais e o confinamento completo experimentada por quatro bilhões de pessoas em todo o mundo.

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