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O Mundo Agora

Covid-19: como relançar economias paralisadas há meses?

Áudio 04:52
Máscaras faciais caseiras podem estar entre os objetos que vão aparecer em museus documentando a vida sob o bloqueio do coronavírus.
Máscaras faciais caseiras podem estar entre os objetos que vão aparecer em museus documentando a vida sob o bloqueio do coronavírus. BELGA/AFP/File
Por: Alfredo Valladão

Já virou chavão: depois do COVID-19 nada será como antes. Vamos entrar num mundo novo, com consumidores sóbrios, produções “verdes”, Estados de bem-estar protetores e economias administradas e financiadas pelos governos. Só que não será bem assim. As sociedades humanas não mudam de repente, nem nas grandes catástrofes. As novidades sociais e econômicas levam bastante tempo para se impor. E sempre batalhando contra o conservantismo do mundo de ontem.

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O modelo de vida do século XX, já era embrionário – nos Estados Unidos – desde do final do século anterior.

Mas só conseguiu tornar-se dominante depois da Grande Depressão dos anos 1930 e do terrível impacto da Segunda Guerra Mundial. É muito difícil passar por cima dos hábitos e interesses estabelecidos que não querem, de jeito nenhum, que mudem alguma coisa.

E não adianta apelar para políticas e comportamentos de largo prazo para se preparar a enfrentar futuras crises ou cataclismos, previsíveis ou não. Todo mundo acha que sim quando pensa na sobrevivência coletiva. Mas na hora de ter que sacrificar parte do seu conforto individual, a resposta é sempre: “esperem um pouco, agora não!”.

E ainda por cima nunca existe consenso geral sobre qual deveria ser a melhor escolha para administrar o futuro. “Previsão é difícil, sobretudo quando se trata do futuro”, brincava Niels Bohr, o pai da física quântica.

Saídas da quarentena

Hoje, vários países-chaves do ponto de vista econômico estão ensaiando tímidas saídas do confinamento social imposto para combater o vírus. O debate agora – talvez prematuro – é como relançar as economias paralisadas há meses.

A queda do PIB, no mundo e em cada Estado nacional, é abismal. Os números do desemprego estão na Lua e o consumo praticamente acabou. As finanças públicas estão todas no vermelho roxo. A tentação é fortíssima – para os políticos, empresários, trabalhadores e consumidores – de pedir, aos brados, uma volta rápida à “normalidade”.

E “normal” é o passado do século XX: produção de massa para consumo de massa, regulamentados pelo Welfare State. Claro, muitos jovens acreditam que é possível usar o pânico provocado pela pandemia para inventar um novo modelo respeitoso do meio ambiente, que acabe com o desperdício, a poluição dos hidrocarbonetos, o consumismo compulsivo, o individualismo e as desigualdades sociais.

Acabar com o mundo globalizado e retornar cada um ao seu rincão. O slogan é: “Um outro mundo é possível”. O problema é que nada disso é possível sem economias bombando. O dramaturgo francês Etienne de Jouy já dizia que até para ser eremita é preciso um pequeno capital.

Nova organização econômica

Um precedente histórico pode ajudar a resolver esse dilema. Quando a primeira produção e consumo de massa foi inventada por Henri Ford, o modelo dominante era o da grande indústria de base para consumo governamental. Foi a terrível crise dos anos 1930, que abriu espaço para o Presidente Roosevelt – assessorado pelo economista John Maynard Keynes – impor a lógica fordista aos dirigentes patronais e sindicais americanos ainda arraigados no passado.

E isso só foi possível porque essas velhas elites estavam enfraquecidas, arruinadas pela Depressão. E o modelo fordista-keynesiano só pegou na Europa e no Japão depois que os dirigentes tradicionais foram dizimados pela guerra mundial – e no resto do mundo, só com o fim da Guerra Fria. Hoje, uma nova organização econômica vem despontando: produção descentralizada e conectada para consumo personalizado, baseada numa economia digital cada vez mais globalizada e menos suja.

É uma revolução tão profunda quanto a do começo do século XX e vai pisar no calo de muita gente. Mas, por enquanto a Covid-19 não parece capaz de destruir o velho estamento político, empresarial e sindical. Claro, a economia digital vai acabar tornando-se dominante, mas ainda vai levar um certo tempo para a vencer a resistência do mundo de ontem. Por enquanto é uma mistura de muito passado com algumas investidas de futuro.

 

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